Friday, September 25, 2015
Più nessuno mi porterá nel Sud (Salvatore Quasimodo)
Ragusa, Sicília
La luna rossa, il vento, il tuo colore
di donna del Nord, la distesa di neve…
Il mio cuore è ormai su queste praterie,
in queste acque annuvolate dalle nebbie.
Ho dimenticato il mare, la grave
conchiglia soffiata dai pastori siciliani,
le cantilene dei carri lungo le strade
dove il carrubo trema nel fumo delle stoppie,
ho dimenticato il passo degli aironi e delle gru
nell’aria dei verdi altipiani
per le terre e i fiumi della Lombardia.
Ma l’uomo grida dovunque la sorte d’una patria.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
di donna del Nord, la distesa di neve…
Il mio cuore è ormai su queste praterie,
in queste acque annuvolate dalle nebbie.
Ho dimenticato il mare, la grave
conchiglia soffiata dai pastori siciliani,
le cantilene dei carri lungo le strade
dove il carrubo trema nel fumo delle stoppie,
ho dimenticato il passo degli aironi e delle gru
nell’aria dei verdi altipiani
per le terre e i fiumi della Lombardia.
Ma l’uomo grida dovunque la sorte d’una patria.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
Oh, il Sud è stanco di trascinare morti
in riva alle paludi di malaria,
è stanco di solitudine, stanco di catene,
è stanco nella sua bocca
delle bestemmie di tutte le razze
che hanno urlato morte con l’eco dei suoi pozzi,
che hanno bevuto il sangue del suo cuore.
Per questo i suoi fanciulli tornano sui monti,
costringono i cavalli sotto coltri di stelle,
mangiano fiori d’acacia lungo le piste
nuovamente rosse, ancora rosse, ancora rosse.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
in riva alle paludi di malaria,
è stanco di solitudine, stanco di catene,
è stanco nella sua bocca
delle bestemmie di tutte le razze
che hanno urlato morte con l’eco dei suoi pozzi,
che hanno bevuto il sangue del suo cuore.
Per questo i suoi fanciulli tornano sui monti,
costringono i cavalli sotto coltri di stelle,
mangiano fiori d’acacia lungo le piste
nuovamente rosse, ancora rosse, ancora rosse.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
E questa sera carica d’inverno
è ancora nostra, e qui ripeto a te
il mio assurdo contrappunto
di dolcezze e di furori,
un lamento d’amore senza amore.
è ancora nostra, e qui ripeto a te
il mio assurdo contrappunto
di dolcezze e di furori,
un lamento d’amore senza amore.
Salvatore Quasimodo
da “La vita non è sogno”, A. Mondadori Editore, Milano, 1949
Friday, September 4, 2015
Portugal, lâmpada marinha (Neruda)
Pablo Neruda, La lámpara marina, V
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
Wednesday, September 2, 2015
Wednesday, August 26, 2015
Sonetilho hedonista
O hedonismo meu hóbi,
a poesia meu vício,
o coração como lóbi
e o amor desperdício.
Com palavras pequeninas,
influências certeiras
rondam lóbis nas esquinas:
buscam paixões verdadeiras
que de hóbi se disfarcem
para que amor nos pareçam
e por nossos olhares passem
e nunca desapareçam.
É pura mercadoria
no que deu a poesia!
a poesia meu vício,
o coração como lóbi
e o amor desperdício.
Com palavras pequeninas,
influências certeiras
rondam lóbis nas esquinas:
buscam paixões verdadeiras
que de hóbi se disfarcem
para que amor nos pareçam
e por nossos olhares passem
e nunca desapareçam.
É pura mercadoria
no que deu a poesia!
Sunday, August 23, 2015
Verão e memória de Ruy Belo
A angústia que nasce num dia de verão
pode bem ser fugidio nevoeiro
a esvair-se no tempo da sua promessa
e a dizer-nos com força que não temos razão
em duvidar da vida e da nossa presença
junto à terra e ao mar, aqui nestas areias
onde o tempo afinal nem começa nem pensa
e o sol tudo apaga em qualquer estação.
Eu lembro Ruy Belo no final deste verão,
mas a vida larguei aqui por esta praia
e o reencontro fez-se contida paixão
com o verso a fluir e a vida tão escassa...
A angústia que nasce num dia de verão
é do tempo e da terra uma só comunhão.
Monday, August 17, 2015
Sigmaringen, Galeria Portuguesa
Tinham-lhes prometido Madrid, a Coroa das Espanhas
( príncipes alemães reinavam pela Europa toda...).
Já a irmã Estefânia casara com o rei português,
moço novo, de muitas leituras,
e a ele, Leopoldo de Hohenzollern -Sigmaringen
com sua jovem mulher Antónia de Bragança, a portuguesa,
caberia reinar sobre os espanhóis, com o assentimento das suas Cortes
e a benevolência dos seus generais. Tudo manobrado por Bismarck...
Até que Napoleão III ( como os prussianos previam)
caiu na esparrela e, como mosca alucinada,
entrou na teia urdida por Berlim
opondo-se terminantemente a que um Hohenzollern reinasse em Espanha.
E a Prússia veio assim a ter a guerra que queria,
com o fervor patriótico a mover todos os alemães em sua volta.
Sigmaringen ainda hoje e não mais que duas ruas e uma praça
a volta do castelo.
Para consolar Antónia, Leopoldo construiu então a Galeria Portuguesa,
onde todas as noites se ouvia Schubert
e se recitava Goethe. Antónia passou com melancolia aqueles anos,
marcados pela solidão do castelo, lutos pelo irmão e pela cunhada,
guerras que marcaram a supremacia final da Prússia
sobre as outras Alemanhas...
O marido caçava
pelos montes.
Hitler não se apercebeu certamente da ironia,
quando enxotou Pétain e os seus fantoches
para aquele castelo, a partir do qual Bismarck, noutra época,
começara a tecer a intriga que derrotara os franceses e levantara o Reich!
Eles, pauvres cons, sempre à escuta de Paris,
deambulavam por aquelas galerias, atontados,
d'un château l'autre, com o Céline e a sua cantora,
para medicar e animar aquela gente,
de quem justamente desconfiavam os camponeses do Wurtemberg.
A Galeria Portuguesa abre-se em vidraças sobre o campo alemão,
onde caçavam principes e os camponeses
seguiam o ritmo das estações. Tem a delicadeza de uma dádiva
ao que não pôde ser.
Tinham-lhes prometido Madrid, a Coroa das Espanhas
( príncipes alemães reinavam pela Europa toda...).
Já a irmã Estefânia casara com o rei português,
moço novo, de muitas leituras,
e a ele, Leopoldo de Hohenzollern -Sigmaringen
com sua jovem mulher Antónia de Bragança, a portuguesa,
caberia reinar sobre os espanhóis, com o assentimento das suas Cortes
e a benevolência dos seus generais. Tudo manobrado por Bismarck...
Até que Napoleão III ( como os prussianos previam)
caiu na esparrela e, como mosca alucinada,
entrou na teia urdida por Berlim
opondo-se terminantemente a que um Hohenzollern reinasse em Espanha.
E a Prússia veio assim a ter a guerra que queria,
com o fervor patriótico a mover todos os alemães em sua volta.
Sigmaringen ainda hoje e não mais que duas ruas e uma praça
a volta do castelo.
Para consolar Antónia, Leopoldo construiu então a Galeria Portuguesa,
onde todas as noites se ouvia Schubert
e se recitava Goethe. Antónia passou com melancolia aqueles anos,
marcados pela solidão do castelo, lutos pelo irmão e pela cunhada,
guerras que marcaram a supremacia final da Prússia
sobre as outras Alemanhas...
O marido caçava
pelos montes.
Hitler não se apercebeu certamente da ironia,
quando enxotou Pétain e os seus fantoches
para aquele castelo, a partir do qual Bismarck, noutra época,
começara a tecer a intriga que derrotara os franceses e levantara o Reich!
Eles, pauvres cons, sempre à escuta de Paris,
deambulavam por aquelas galerias, atontados,
d'un château l'autre, com o Céline e a sua cantora,
para medicar e animar aquela gente,
de quem justamente desconfiavam os camponeses do Wurtemberg.
A Galeria Portuguesa abre-se em vidraças sobre o campo alemão,
onde caçavam principes e os camponeses
seguiam o ritmo das estações. Tem a delicadeza de uma dádiva
ao que não pôde ser.
Saturday, August 15, 2015
Ao soneto
És tu soneto um realejo amigo
que me estende da aranha a teia fina
onde este pensamento que persigo
se desfaz só no verso, só na rima?
Serás então do verso falso amigo,
mecanismo voraz e tentador
a destruir no ovo o que consigo,
tornando o pensamento um só rumor?
Se palavras apenas nossos versos
e as ideias ficaram para trás,
que direi dos meus actos, tão diversos
de tudo o que de nós a vida faz?
És tu soneto aranha e sua teia,
um engano desfeito na areia...
Thursday, August 13, 2015
E A POESIA SURGE NA FIGURA DE UMA JOVEM GNR A CAVALO
E A POESIA SURGE NA FIGURA DE UMA JOVEM GNR A CAVALO
Tu ladeavas o cavalo, rindo
da tua tão perfeita novidade.
Qual amazona de um destino findo,
o tempo não mudava a tua idade.
A pistola exibias sobre a coxa
e do meu desejo tua troça ria.
Enredado na lírica mais frouxa,
um soneto pobríssimo eu trazia
só para teu controle e vistoria.
Mas logo se soltou o teu cavalo
para bem longe de mim e da poesia.
E se guardo teu riso enquanto falo
e me digo e desdigo em cada dia,
guarda republicana, em teu cavalo
trouxeste troça feita melodia.
Tu ladeavas o cavalo, rindo
da tua tão perfeita novidade.
Qual amazona de um destino findo,
o tempo não mudava a tua idade.
A pistola exibias sobre a coxa
e do meu desejo tua troça ria.
Enredado na lírica mais frouxa,
um soneto pobríssimo eu trazia
só para teu controle e vistoria.
Mas logo se soltou o teu cavalo
para bem longe de mim e da poesia.
E se guardo teu riso enquanto falo
e me digo e desdigo em cada dia,
guarda republicana, em teu cavalo
trouxeste troça feita melodia.
Wednesday, August 12, 2015
Sem escrita
Transformation
I haven't written a single poem
in months.
I've lived humbly, reading the paper,
pondering the riddle of power
and the reasons for obedience.
I've watched sunsets
(crimson, anxious),
I've heard the birds grow quiet
and night's muteness.
I've seen sunflowers dangling
their heads at dusk, as if a careless hangman
had gone strolling through the gardens.
September's sweet dust gathered
on the windowsill and lizards
hid in the bends of walls.
I've taken long walks,
craving one thing only:
lightning,
transformation,
you.
in months.
I've lived humbly, reading the paper,
pondering the riddle of power
and the reasons for obedience.
I've watched sunsets
(crimson, anxious),
I've heard the birds grow quiet
and night's muteness.
I've seen sunflowers dangling
their heads at dusk, as if a careless hangman
had gone strolling through the gardens.
September's sweet dust gathered
on the windowsill and lizards
hid in the bends of walls.
I've taken long walks,
craving one thing only:
lightning,
transformation,
you.
Adam Zagajewski, Without End, New and selected poems,
Farrar, Straus and Giroux, N.Y., 2002
Farrar, Straus and Giroux, N.Y., 2002
Monday, July 27, 2015
Todtnauberg 3
TODTNAUBERG 3
O vazio de tudo, antes corria um vento
e sons longínquos davam-nos conta de um acontecer,
fluir magistral do rio sempre pela primeira vez,
o aviso sonoro do corvo
e o caminho a perder-se na montanha.
Vendrá viniendo con venir eterno,
dizia Unamuno.
O mestre não conheceu Unamuno,
porque só há duas línguas decentes para a Filosofia, o grego e o alemão.
E depois só há um povo decente, mas não vamos por aí...
Hannah, Paul, vocês sabem que eu nunca traí.
Nem o Reitorado me deixaram...
O vazio de tudo, antes corria um vento
e sons longínquos davam-nos conta de um acontecer,
fluir magistral do rio sempre pela primeira vez,
o aviso sonoro do corvo
e o caminho a perder-se na montanha.
Vendrá viniendo con venir eterno,
dizia Unamuno.
O mestre não conheceu Unamuno,
porque só há duas línguas decentes para a Filosofia, o grego e o alemão.
E depois só há um povo decente, mas não vamos por aí...
Hannah, Paul, vocês sabem que eu nunca traí.
Nem o Reitorado me deixaram...
TODTNAUBERG 2
TODTNAUBERG 2
Há um campo liso por detrás de todas as montanhas
a lembrar-nos que a beleza conduz ao vazio
e quem não souber glosar este tema
pode sempre patinar por cima de gelo liso,
"paraíso para quem sabe dançar", dizia o outro, o de Sils Maria,
antes de enlouquecer.
O velho não enlouqueceu. Sabedoria manhosa dos camponeses de Bade.
Esperar no dia a dia do sendo o acontecimento do Ser,
virado para a Morte no regaço do Tempo
(em alemão é assim, sempre com maiúsculas) e entretanto mentir,
mentir à mulher, mentir aos alemães, aos nazis, aos americanos
e depois aos franceses e finalmente receber os judeus,
ele "o mestre vindo da Alemanha" a olhar "os teus cabelos negros, Sulamita"
nos caracóis da Hannah Arendt. "Tantos anos" murmurou...
Habitava poeticamente, como dissera do outro de Tubingen,
numa cabana pequena e sem nada de particular,
fechada agora e na posse da família.
Sabedoria dos camponeses
de Bade Wurtenberg...
(citações do poema Fuga da Morte de Paul Celan)
Há um campo liso por detrás de todas as montanhas
a lembrar-nos que a beleza conduz ao vazio
e quem não souber glosar este tema
pode sempre patinar por cima de gelo liso,
"paraíso para quem sabe dançar", dizia o outro, o de Sils Maria,
antes de enlouquecer.
O velho não enlouqueceu. Sabedoria manhosa dos camponeses de Bade.
Esperar no dia a dia do sendo o acontecimento do Ser,
virado para a Morte no regaço do Tempo
(em alemão é assim, sempre com maiúsculas) e entretanto mentir,
mentir à mulher, mentir aos alemães, aos nazis, aos americanos
e depois aos franceses e finalmente receber os judeus,
ele "o mestre vindo da Alemanha" a olhar "os teus cabelos negros, Sulamita"
nos caracóis da Hannah Arendt. "Tantos anos" murmurou...
Habitava poeticamente, como dissera do outro de Tubingen,
numa cabana pequena e sem nada de particular,
fechada agora e na posse da família.
Sabedoria dos camponeses
de Bade Wurtenberg...
(citações do poema Fuga da Morte de Paul Celan)
Todtnauberg
TODTNAUBERG
Também eu, aqui. Um grupo de escuteiros
nos caminhos do bosque a pedir boleia
para o grande albergue de juventude no cimo do monte,
donde irradiam marchas a pé boas para a saúde e para a forma. Fitness.
Num abrigo dos Serviços de Turismo da Floresta Negra
um mapa mostra o "Heidegger weg",
alguns quilómetros de marcha contra o esquecimento do Ser
e todos os outros esquecimentos. Fitness.
"Palavras cruas" ouviu o motorista de Celan
e o poema reproduziu desencantados dizeres,
meio ardidos, como palavras decifradas num papel desfeito em cinzas
na lareira de uma longínqua cabana de montanha.
Elfriede tomava conta de todos os passos dele,
sabedora de que a benevolência só conduz à devassidão.
Quando Hannah Arendt chegou, ao fim de todos aqueles anos, ela afastou-se discretamente,
mas fez saber, minuto a minuto, da sua presença na cabana:
ruídos, passos, preparativos domésticos, vozes abafadas...
O velho caminhava por sendeiros
onde hoje só passam escuteiros...
Também eu, aqui. Um grupo de escuteiros
nos caminhos do bosque a pedir boleia
para o grande albergue de juventude no cimo do monte,
donde irradiam marchas a pé boas para a saúde e para a forma. Fitness.
Num abrigo dos Serviços de Turismo da Floresta Negra
um mapa mostra o "Heidegger weg",
alguns quilómetros de marcha contra o esquecimento do Ser
e todos os outros esquecimentos. Fitness.
"Palavras cruas" ouviu o motorista de Celan
e o poema reproduziu desencantados dizeres,
meio ardidos, como palavras decifradas num papel desfeito em cinzas
na lareira de uma longínqua cabana de montanha.
Elfriede tomava conta de todos os passos dele,
sabedora de que a benevolência só conduz à devassidão.
Quando Hannah Arendt chegou, ao fim de todos aqueles anos, ela afastou-se discretamente,
mas fez saber, minuto a minuto, da sua presença na cabana:
ruídos, passos, preparativos domésticos, vozes abafadas...
O velho caminhava por sendeiros
onde hoje só passam escuteiros...
Friday, July 24, 2015
Thursday, July 23, 2015
Tuesday, July 21, 2015
Tuesday, July 14, 2015
Sophia, hoje
Pranto pelo Dia de Hoje
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
Monday, July 13, 2015
Sunday, July 12, 2015
Saturday, July 11, 2015
Wednesday, July 8, 2015
Última homenagem a Maria Barroso
Vincent Van Gogh, Rosas Bravas
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
Camilo Pessanha
(poema lido por José Manuel dos Santos no funeral de Maria Barroso)
Saturday, July 4, 2015
DE "LES ORIENTALES", Victor Hugo, 1829
Delacroix, Les Massacres de Chio, 1824
Depuis assez longtemps les peuples disaient : « Grèce !
Grèce ! Grèce ! tu meurs. Pauvre peuple en détresse,
A l'horizon en feu chaque jour tu décroîs.
En vain, pour te sauver, patrie illustre et chère,
Nous réveillons le prêtre endormi dans sa chaire,
En vain nous mendions une armée à nos rois.
« Mais les rois restent sourds, les chaires sont muettes.
Ton nom n'échauffe ici que des cœurs de poètes.
A la gloire, à la vie on demande tes droits.
A la croix grecque, Hellé, ta valeur se confie.
C'est un peuple qu'on crucifie !
Qu'importe, hélas ! sur quelle croix !
« Tes dieux s'en vont aussi. Parthénon, Propylées,
Murs de Grèce, ossements des villes mutilées,
Vous devenez une arme aux mains des mécréants.
Pour battre ses vaisseaux du haut des Dardanelles,
Chacun de vos débris, ruines solennelles,
Donne un boulet de marbre à leurs canons géants ! »
VICTOR HUGO
Sunday, June 28, 2015
THE GREEK ISLANDS, excerto de DON JUAN, Byron
Byron com o fato nacional grego, pintura do princípio do século XIX
The isles of Greece, the Isles of Greece!
Where burning Sappho loved and sung,
Where grew the arts of war and peace,
Where Delos rose, and Phoebus sprung!
Eternal summer gilds them yet,
But all, except their sun, is set.
The Scian and the Teian muse,
The hero's harp, the lover's lute,
Have found the fame your shores refuse;
Their place of birth alone is mute
To sounds which echo further west
Than your sires' 'Islands of the Blest.'
The mountains look on Marathon —
And Marathon looks on the sea;
And musing there an hour alone,
I dream'd that Greece might still be free;
For standing on the Persians' grave,
I could not deem myself a slave.
A king sate on the rocky brow
Which looks o'er sea-born Salamis;
And ships, by thousands, lay below,
And men in nations; — all were his!
He counted them at break of day —
And when the sun set where were they?
And where are they? and where art thou,
My country? On thy voiceless shore
The heroic lay is tuneless now —
The heroic bosom beats no more!
And must thy lyre, so long divine,
Degenerate into hands like mine?
'Tis something, in the dearth of fame,
Though link'd among a fetter'd race,
To feel at least a patriot's shame,
Even as I sing, suffuse my face;
For what is left the poet here?
For Greeks a blush — for Greece a tear.
Must we but weep o'er days more blest?
Must we but blush? — Our fathers bled.
Earth! render back from out thy breast
A remnant of our Spartan dead!
Of the three hundred grant but three,
To make a new Thermopylae!
What, silent still? and silent all?
Ah! no; — the voices of the dead
Sound like a distant torrent's fall,
And answer, 'Let one living head,
But one arise, — we come, we come!'
'Tis but the living who are dumb.
In vain — in vain: strike other chords;
Fill high the cup with Samian wine!
Leave battles to the Turkish hordes,
And shed the blood of Scio's vine!
Hark! rising to the ignoble call —
How answers each bold Bacchanal!
You have the Pyrrhic dance as yet,
Where is the Pyrrhic phalanx gone?
Of two such lessons, why forget
The nobler and the manlier one?
You have the letters Cadmus gave —
Think ye he meant them for a slave?
Fill high the bowl with Samian wine!
We will not think of themes like these!
It made Anacreon's song divine:
He served — but served Polycrates —
A tyrant; but our masters then
Were still, at least, our countrymen.
The tyrant of the Chersonese
Was freedom's best and bravest friend;
That tyrant was Miltiades!
O! that the present hour would lend
Another despot of the kind!
Such chains as his were sure to bind.
Fill high the bowl with Samian wine!
On Suli's rock, and Parga's shore,
Exists the remnant of a line
Such as the Doric mothers bore;
And there, perhaps, some seed is sown,
The Heracleidan blood might own.
Trust not for freedom to the Franks —
They have a king who buys and sells;
In native swords, and native ranks,
The only hope of courage dwells;
But Turkish force, and Latin fraud,
Would break your shield, however broad.
Fill high the bowl with Samian wine!
Our virgins dance beneath the shade —
I see their glorious black eyes shine;
But gazing on each glowing maid,
My own the burning tear-drop laves,
To think such breasts must suckle slaves
Place me on Sunium's marbled steep,
Where nothing, save the waves and I,
May hear our mutual murmurs sweep;
There, swan-like, let me sing and die:
A land of slaves shall ne'er be mine —
Dash down yon cup of Samian wine!
BYRON
Friday, June 26, 2015
Thursday, June 25, 2015
HOW CLEAR, HOW LOVELY BRIGHT, A. E. Housman
Edvard Munch, Pôr do sol
How Clear, How Lovely Bright
How clear, how lovely bright,
How beautiful to sight
Those beams of morning play;
How heaven laughs out with glee
Where, like a bird set free,
Up from the eastern sea
Soars the delightful day.
To-day I shall be strong,
No more shall yield to wrong,
Shall squander life no more;
Days lost, I know not how,
I shall retrieve them now;
Now I shall keep the vow
I never kept before.
Ensanguining the skies
How heavily it dies
Into the west away;
Past touch and sight and sound
Not further to be found,
How hopeless under ground
Falls the remorseful day.
How beautiful to sight
Those beams of morning play;
How heaven laughs out with glee
Where, like a bird set free,
Up from the eastern sea
Soars the delightful day.
To-day I shall be strong,
No more shall yield to wrong,
Shall squander life no more;
Days lost, I know not how,
I shall retrieve them now;
Now I shall keep the vow
I never kept before.
Ensanguining the skies
How heavily it dies
Into the west away;
Past touch and sight and sound
Not further to be found,
How hopeless under ground
Falls the remorseful day.
A. E. HOUSMAN
THE SECOND COMING, William Butler Yeats, "Michael Robartes and the Dancer", 1920
Ticiano, O Rapto de Europa
THE SECOND COMING
Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: a waste of desert sand;
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Wind shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?
WILLIAM BUTLER YEATS
Da MENSAGEM de Fernando Pessoa: A Europa jaz...
Géricault, Le Radeau de la Méduse
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
FERNANDO PESSOA
Sunday, June 21, 2015
De "Papoila e Memória", Paul Celan, 1952, tradução de Fiama Hasse Pais Brandão
Arnold Boecklin, A Praga
RANGER de sapatos de ferro, na cerejeira.
O Verão a ser-te escumado de elmos. O sombrio cuco
pinta com adamantino esporão a sua imagem nos portões do céu.
O Verão a ser-te escumado de elmos. O sombrio cuco
pinta com adamantino esporão a sua imagem nos portões do céu.
De cabeça descoberta eleva-se sobre a folhagem o cavaleiro.
No seu escudo ele traz crepuscular teu sorriso,
pregado no sudário de aço do inimigo.
Prometido lhe foi o jardim dos sonhadores
e aprontadas tem lanças, para que a rosa trepe...
No seu escudo ele traz crepuscular teu sorriso,
pregado no sudário de aço do inimigo.
Prometido lhe foi o jardim dos sonhadores
e aprontadas tem lanças, para que a rosa trepe...
Descalço porém vem pelo ar aquele que mais te é semelhante:
com sapatos de ferro afivelados nas afiladas mãos
dorme abolindo a luta e o Verão. Por ele é que a cereja sangra.
com sapatos de ferro afivelados nas afiladas mãos
dorme abolindo a luta e o Verão. Por ele é que a cereja sangra.
"Papoila e Memória"
Tradução Fiama Hasse Pais Brandão,
Tradução Fiama Hasse Pais Brandão,
PAUL CELAN
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