Saturday, May 25, 2013

O caçador Simão

Em 1890, Guerra Junqueiro escreveu contra o Rei D.Carlos este poema terrível, que é uma clara incitação ao Regicídio. Que lhe aconteceu depois? Foi preso, processado, deportado? Não. Foi eleito deputado...


Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …

Papagaio real, diz-me quem passa?
-- É o príncipe Simão que vai à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …

Papagaio real, diz-me, quem passa?
-- É el-rei D. Simão que vai à caça.

Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...

Papagaio real, diz-me quem passa?
--É el-rei D. Simão que vai à caça.

A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!

Papagaio real, diz-me, quem passa?
--É el-rei D. Simão que vai à caça.

Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indomitamente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!...

Papagaio real, diz-me, quem passa?
--É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...




Friday, May 24, 2013

Thursday, May 23, 2013

Wednesday, May 22, 2013

Entretanto, em Berlim...


A filosofia dos economistas

Pangloss disait quelquefois à Candide : “Tous les événements sont enchaînés dans le meilleur des mondes possibles ; car enfin si vous n’aviez pas été chassé d’un beau château à grands coups de pied dans le derrière pour l’amour de mademoiselle Cunégonde, si vous n’aviez pas été mis à l’Inquisition, si vous n’aviez pas couru l’Amérique à pied, si vous n’aviez pas donné un bon coup d’épée au baron, si vous n’aviez pas perdu tous vos moutons du bon pays d’Eldorado, vous ne mangeriez pas ici des cédrats confits et des pistaches".

(Voltaire, Candide ou de l'optimisme)

Tuesday, May 21, 2013

A conquista do Magrebe, vista por um artista do Norte


Cleonice Berardinelli e Eduardo Lourenço: o esplendor dos 90 anos

Though nothing can bring back the hour 
Of splendour in the grass, of glory in the flower; 
      We will grieve not, rather find 
      Strength in what remains behind; 185
      In the primal sympathy 
      Which having been must ever be; 
      In the soothing thoughts that spring 
      Out of human suffering; 
      In the faith that looks through death, 190
In years that bring the philosophic mind.


(Wordsworth, dedicado aos queridos e jovens amigos Cleonice e Eduardo)

Monday, May 20, 2013

O esquecimento da Ásia

Da muito interessante e estimulante entrevista de Eduardo Lourenço a Teresa de Sousa (Publico, domingo dia 19) falarei aqui um pouco mais. Mas no meio de tanta inteligência lúcida e saudavelmente impiedosa,  uma coisa me choca: no mundo de Eduardo Lourenço existe uma Europa decadente e uma América emergente e triunfante. A Ásia pura e simplesmente nao existe.

Ora esta percepção contradiz a experiência do mundo actual, mas, na sua omissão, que foi a de todos nos, explica um pouco como fomos incapazes de nos aperceber do novo mundo que nascia. E ajuda a entender talvez muitas das armadilhas e ilusões em que se enredaram as lideranças europeias nos últimos anos.

Sunday, May 19, 2013

Um reconhecimento justo e insuspeito

Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Por Antonio Candido*, no blog da Boitempo 

O Papa disse

“Se os investimentos na banca caem, todos acham que é uma tragédia, mas se as pessoas morrem de fome, não têm de comer nem saúde, não se passa nada: está é a nossa crise de hoje! O testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra esta mentalidade”

(Papa Francisco)

Saturday, May 18, 2013

Parabéns ao Nuno Júdice



Pelo Premio Reina Sofia para um poeta laico e republicano. Grande escolha! Acertou a Espanha e estão de parabéns o Nuno e a poesia portuguesa.

Sunday, May 12, 2013

Pessoas que não conseguem educar os filhos



Eu compreendo que haja pessoas incapazes de educar os seus filhos e que, face à má educação permanente das crianças que têm, para melhor se desresponsabilizarem, lhes chamem nomes feios. No meu tempo dizia-se de um menino malcriado que era "um terrorista" (influência da Guerra Colonial, que pôs o termo em voga). Para algumas mães desesperadas, como esta, o epíteto será agora "socialista". Já para outras, perante mais uma má-criação do pimpolho, vá de lhe chamar "seu CDS-PP". Mas o problema é as mães (e os pais, claro) serem ou não capazes de educar. A confissão desta senhora, Inês Teotónio Pereira, pela coragem frontal com que admite ser incapaz de educar os seus filhos, ganha toda a nossa simpatia humana e merece toda a nossa preocupação social.


Não sei se são só os meus filhos que são socialistas ou se são todas as crianças que sofrem do mesmo mal. Mas tenho a certeza do que falo em relação aos meus. E nada disto é deformação educacional – eles têm sido insistentemente educados no sentido inverso. Mas a natureza das criaturas resiste à benéfica influência paternal como a aldeia do Astérix resistiu culturalmente aos romanos. Os garotos são estóicos e defendem com resistência a bandeira marxista sem fazerem ideia de quem é o senhor.
Ora o primeiro sintoma desta deformação ideológica tem que ver com os direitos. Os meus filhos só têm direitos. Direitos materiais, emocionais, futuros, ambíguos e todos eles adquiridos. É tudo, absolutamente tudo, adquirido. Ele dão como adquirido o divertimento, as férias, a boleia para a escola, a escola, os ténis novos, o computador, a roupinha lavada, a televisão e até eu. Deveres, não têm nenhum. Quanto muito lavam um prato por dia e puxam o edredão da cama para cima, pouco mais. Vivem literalmente de mão estendida sem qualquer vergonha ou humildade. Na cabecinha socialista deles não existe o conceito de bem comum, só o bem deles. Muito, muito deles.
O segundo sintoma tem que ver com o aparecimento desses direitos. Como aparecem esses direitos. Não sabem. Sabem que basta abrirem a torneira que a água vem quente, que dentro do frigorífico está invariavelmente leite fresquinho, que os livros da escola aparecem forradinhos todos os anos, que o carro tem sempre gasolina e que o dinheiro nasce na parede onde estão as máquinas de multibanco. A única diferença entre eles e os socialistas com cartão de militante é que, justiça seja feita, estes últimos já não acreditam na parede – são os bancos que imprimem dinheiro e pronto, ele nunca falta.
Outro sintoma alarmante é a visão de futuro. O futuro para os meus filhos é qualquer coisa que se vai passar logo à noite, o mais tardar. Eles não vão mais longe do que isto. Na sua cabecinha não há planeamento, só gastamento, só o imediato. Se há, come-se, gasta-se, esgota-se, e depois logo se vê. Poupar não é com eles. Um saco de gomas ou uma caixa de chocolates deixada no meio da sala da minha casa tem o mesmo destino que um crédito de milhões endereçado ao Largo do Rato: acaba tudo no esgoto. E não foi ninguém...
O quarto tique socialista das minhas crianças é estarem convictas de que nada depende delas. Como são só crianças, acham que nada do que fazem tem importância ou consequências. Ora esta visão do mundo e da vida faz com que os meus filhos achem que podem fazer todo o tipo de asneiras que alguém irá depois apanhar os cacos. Eles ficam de castigo é certo (mais ou mesmo as mesma coisa que perder eleições), mas quem apanha os cacos sou eu. Os meus filhos nasceram desresponsabilizados. A responsabilidade é sempre de outro qualquer: o outro que paga, o outro que assina, o outro que limpa. No caso dos meus filhos o outro sou eu, no caso dos socialistas encartados o outro é o governo seguinte.
Por fim, o último mas não menos aterrorizador sintoma muito socialista dos meus filhos é a inveja: eles não podem ver nada que já querem. Acham que têm de ter tudo o que o do lado tem quer mereçam quer não. São autênticos novos-ricos sem cheta. Acham que todos temos de ter o mesmo e se não dá para repartir ninguém tem. Ou comem todos ou não come nenhum. Senão vão à luta. Eu não posso dar mais dinheiro a um do que a outro ou tenho o mesmo destino que Nicolau II. Mesmo que um ajude mais que outro e tenha melhores notas, a “cultura democrática” em minha casa não permite essa diferenciação. Os meus filhos chamam a esta inveja disfarçada, justiça, os socialistas deram-lhe o nome de justiça social.
A minha sorte é que os meus filhos crescem. Já os socialistas são crianças a vida inteira.


(Inês Teotónio Pereira, no jornal i)








A greve dos diplomatas israelitas




No Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel os diplomatas não apenas deixaram de usar gravata: vêm trabalhar de jeans, com sandálias, camisa aberta, enfim, como veraneantes...

Instruções do ministro, por razões ecológicas? Não. Uma greve. Uma greve de diplomatas.

O líder do sindicato dos diplomatas israelitas falou ao "Monde". Obviamente mais radical que os outros, vinha descalço, por barbear e com uma t-shirt provocadora. Explicou que o congelamento dos vencimentos dos diplomatas  causava as maiores dificuldades à carreira:  baixo nível de remunerações(2150 €/mês, ao fim de 15 anos de serviço) relativamente a outros sectores,  cônjuges que têm que escolher entre a separação física e o desemprego, reformas a decrescer,  tudo isto faz com que, passados dez anos de carreira, 30% dos diplomatas vão trabalhar para o sector privado e 10% dos postos nas embaixadas fiquem vagos.

Esta primeira forma de luta, a vestimentária, não exclui, segundo o presidente do sindicato dos diplomatas israelitas, outras mais radicais, desde a greve aos telegramas até à recusa de passar passaportes diplomáticos, de prestar assistência aos governantes no estrangeiro ou mesmo de fechar todos os serviços consulares de Israel!

O pior é que esta ideia está a alastrar:  segundo o mesmo "Monde", o sindicato dos diplomatas americanos sugeriu que os diplomatas, como forma de luta, viessem trabalhar para o State Department...em roupa interior!

(Fonte: Le Monde, 12-13 de maio)  

Saturday, May 11, 2013

Carta aos meus amigos brasileiros

Caros amigos brasileiros
O vosso ministro da Educação, Aloizio Mercadante, decidiu suspender todas as bolsas de investigação para brasileiros em Portugal.
A razão alegada é que a escolha de Portugal seria feita apenas por falta de competência dos candidatos brasileiros em falar outras línguas e desta forma, impedindo-os de vir para o nosso país, eles passariam a ser obrigados a falar inglês, como toda a gente.
É bem verdade que o inglês se tornou a língua universal da ciência (e não só), de tal modo que aqui em Portugal (sabiam?) até temos cursos ministrados em inglês.
Mas na generalidade dos países, mesmo pequenininhos que não são superpotências emergentes como o Brasil (a Noruega, a Holanda, a Suíça), e até em alguns dos vossos pares (a China - talvez isso explique por que a China atrai hoje cientistas de todo o mundo e o Brasil não) a solução tem consistido em ensinar inglês aos meninos na escola. É o que temos feito também aqui em Portugal. Uma ideia interessante, não acham?
Com muita amizade

Habermas: a solidariedade é do interesse da Alemanha


(...)
In the wake of the shock of the defeat of 1945 and the moral catastrophe of the Holocaust, prudential reasons of regaining the international reputation destroyed by its own actions already made it imperative for the Federal Republic of Germany to promote an alliance with France and to pursue European unification. In addition, being embedded in a context of neighboring European countries under the hegemonic protection of the United States provided the context in which the German population at large could develop a liberal self-understanding for the first time. This arduous transformation of a political mentality, which in the old Federal Republic remained captive to fateful continuities for decades, can not be taken for granted. That shift in mindset occurred in tandem with a cautiously cooperative promotion of European unification. Moreover, the success of this policy was an important precondition for solving a more long-standing historical problem that I am concerned with in the first place.
After the foundation of the German Empire in 1871, Germany assumed a fatal “semi-hegemonic status” in Europe — in Ludwig Dehios’s words, it was “too weak to dominate the continent, but too strong to bring itself into line.”[13] It is in Germany's interest to avoid a revival of this dilemma that was overcome only thanks to European unification. This is why the European question, which has been intensified by the crisis, also involves a domestic political challenge for Germans. The leadership role that falls to Germany today for demographic and economic reasons is not only awakening historical ghosts all around us but also tempts us to choose a unilateral national course, or even to succumb to power fantasies of a “German Europe” instead of a “Germany in Europe”. We Germans should have learned from the catastrophes of the first half of the twentieth century that it is in our national interest to avoid permanently the dilemma of a semi-hegemonic status that can hardly held up without sliding into conflicts. Helmut Kohl’s achievement is not the reunification and the reestablishment of a certain national normality per se, but the fact that this happy event was coupled with the consistent promotion of a policy that binds Germany tightly into Europe.
Germany not only has an interest in a policy of solidarity; I would propose that it has even a corresponding normative obligation. Claus Offe tries to defend this thesis with three contested arguments. To date, Germany has derived the greatest benefit from the single currency through the increase in its exports. Because of these export surpluses Germany furthermore contributes to aggravating the economic imbalances within the monetary union and, in its role as a contributory cause, is part of the problem. Finally, Germany itself is even profiting from the crisis, because the increase in interest rates for the government bonds of the crisis-hit countries is matched by a decrease in the interest rates on German government bonds.[14] Even if we accept the arguments, the normative premise that these asymmetric effects of the politically unregulated interdependencies between the national economies entail an obligation to act in solidarity is not quite easy to explain.

(...)

These European states assumed their present-day form of welfare states only after the catastrophes of the two world wars. In the course of economic globalization, these states find themselves in turn exposed to the explosive pressure of economic interdependencies that now tacitly permeate national borders. Systemic constraints again shatter the established relations of solidarity and compel us to reconstruct the challenged forms of political integration of the nation state. This time, the uncontrolled systemic contingencies of a form of capitalism driven by unrestrained financial markets are transformed into tensions between the member states of the European Monetary Union. If one wants to preserve the Monetary Union, it is no longer enough, given the structural imbalances between the national economies, to provide loans to over-indebted states so that each should improve its competitiveness by its own efforts. What is required is solidarity instead, a cooperative effort from a shared political perspective to promote growth and competitiveness in the euro zone as a whole.
Such an effort would require Germany and several other countries to accept short- and medium-term negative redistribution effects in its own longer-term self-interest — a classic example of solidarity, at least on the conceptual analysis I have presented.

Democracy, Solidarity and the European Crisis

Lecture delivered by Professor Jürgen Habermas on 26 April 2013 in Leuven



   

O debate em Portugal entre os grandes economistas



O presidente do FC Porto diz que o clube vai deixar de ser cliente da EDP.
É a reacção de Pinto da Costa à entrevista do presidente da EDP ao Diário Economico e à Antena 1, em que António Mexia, pedindo desculpas aos adeptos do Dragão, defendeu que uma vitória do Benfica na Primeira Liga, "seria bom para o PIB" português.
Pinto da Costa não gostou das palavras do presidente da eléctrica portuguesa e, em declarações aos jornalistas, confessou que ouviu a "entrevista do António Mexia, que formulou o desejo que o Benfica vencesse o campeonato porque era bom para o país e para o PIB".
"É lamentável uma atitude destas. Os portistas não esquecerão estas palavras. Tudo farei para o FC Porto tenha uma alternativa à EDP enquanto ele lá estiver. Fica aqui o meu lamento", conclui Pinto da Costa.
(Diário Económico de hoje)

Thursday, May 9, 2013

Saudades da grandeza


                    Charola da Igreja do Convento de Cristo em Tomar

Wednesday, May 8, 2013

Preocupação


UMA MÁ NOTÍCIA
A Comissão Europeia acaba de me confirmar que a solução de capitalização de bancos em dificuldades, com recurso ao dinheiro dos depositantes, tal qual aconteceu no Chipre, poderá ser extensiva aos demais países.
De acordo com a resposta do Comissário Barnier, "para minimizar o impacto sobre os contribuintes, o instrumento de resgate interno («bail-in») previsto nesse enquadramento permitirá a um banco ser recapitalizado através da anulação ou diluição das participações accionistas e da redução ou conversão em acções dos créditos dos credores. Os depósitos inferiores a 100 000 euros continuarão a ser plenamente garantidos e são explicitamente excluídos deste instrumento."
Significa então que os valores dos depósitos acima dos 100 000 euros, poderão ser utilizados na capitalização dos bancos, convertidos em acções, ou mesmo sem qualquer contrapartida para os clientes (redução).
Considero a solução injusta e desproporcionada, porque desonera quem de alguma forma tem intervenção na actividade bancária ou na sua fiscalização, e responsabiliza unicamente quem não teve qualquer culpa.
O BCE tem hoje responsabilidades de supervisão. Se não for capaz de detectar práticas insolventes de um banco, não responderá por isso.
Os Bancos Centrais têm responsabilidades de supervisão e autorizam os produtos que os bancos dos respectivos países comercializam. Se não forem capazes de detectar práticas insolventes, também não responderão por isso.
No limite, nem em relação aos administradores que promoveram tais práticas, a resposta refere qualquer responsabilidade particular, para além da que decorre da lei.
Já os depositantes, convencidos por todos estes intervenientes da credibilidade e robustez de um banco em particular, que depois venha a revelar dificuldades, serão precisamente quem poderá ser chamado a suportar a sua capitalização, perdendo o dinheiro dos respectivos depósitos acima dos 100 000 euros.
Normal seria que a capitalização dos bancos em dificuldades fosse assegurada unicamente pelos próprios bancos, através de um fundo capaz, para que todos contribuíssem e ao qual aqueles que tivessem dificuldades pudessem recorrer, devolvendo posteriormente o respectivo montante ao fundo, nos termos que viessem a ser acordados. E esta, era francamente a resposta que esperava e gostaria de ter lido da Comissão Europeia.

(Nuno Melo, deputado do CDS-PP no Parlamento Europeu)

Tuesday, May 7, 2013

O poeta


                                        CAIXADÒCLOS




- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.

- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha da cobra!

- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é dos que fala sozinho na rua...

- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!

- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...

- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...

- Ah, agora sim, fazem-me justiça!

- Olha o caixadóclos todo satisfeito
a ler as notícias...


Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa



Viagens na minha terra: autores em Tomar


E tivémos a Helena Buescu a explicar como levar o Camões às criancinhas (mais uma combatente pela causa do ensino da literatura), o Carlos Reis a falar-nos com profundidade do tema da viagem em Garrett, Eça de Queirós e Saramago, o Miguel Miranda e o Nuno Júdice a contarem-nos as suas viagens e façanhas, de ritmos bem diferentes, o Zé Pacheco Pereira a descrever-nos as proezas dos livros digitais e a apresentação de um belíssimo livro sobre a culinária na pintura de Josefa de Óbidos.

Por mim, fiz uma exposição, que muito me divertiu escrever, intitulada Um estranho animal de duas cabeças: o poeta-diplomata, título que me foi inspirado pelo seguinte texto do meu amigo e colega embaixador e escritor Maurizio Serra:


A variante do escritor-diplomata faz confusão. Que quer esse estranho animal de duas cabeças? Não lhe bastaria uma, como aos outros mortais? Mas se contamos na literatura universal negociantes de vinhos, inspectores dos monumentos históricos, caçadores de baleias,  jogadores cobertos de dívidas, empregados de seguros, detectives privados e mesmo grandes criminosos, porque seria negado esse privilégio aos diplomatas?






Viagens na minha terra: a glória é incompatível com a actual esperança de vida


Fui convidado, juntamente com o Paulo Castilho (na foto, os dois autores com as suas respectivas musas), para falar sobre os escritores-diplomatas.  O convite fora-nos feito pelo nosso comum amigo e finíssimo memorialista e contista António Pinto da França, que iria orientar o debate. Tal não foi possível e desejo daqui as melhoras e a pronta recuperação do nosso colega e amigo, alguém "fino como um coral", como antigamente se dizia e um dos diplomatas que eu conheci mais capazes de compreender e de se deixar transformar (sem se converter) por uma cultura estranha, por um modo de vida diferente, pelo plural e mestiço tecido das civilizações. Fazem tanta falta pessoas assim!

A conclusão ingénua de uma interveniente não deixou de nos perturbar: concluo assim que os diplomatas que são ao mesmo tempo escritores só são reconhecidos depois de morrerem. Olhei para o Paulo e o Paulo para mim: era este então para nós o preço da glória? Abdicando do reconhecimento e da campa, fomos então jantar magnificamente no Chico Elias, seguindo assim o conselho do Álvaro de Campos na Gazetilha:

                             Tratem da fama e do comer
                             que amanhã é dos loucos de hoje.

E mesmo que nos falte a fama, o comer tratou-nos muito bem e ajudou-nos a adiar a morte e a glória.


Viagens na minha terra (2)

Logo à chegada ao aeroporto de Lisboa , um rosto amigo nos saúda

Viagens na minha terra



Fui a Tomar a um encontro de escritores, professores de Português e bibliotecários. Todos em prol de duas coisas simples, mas que estão em crescente risco, como tantas outras coisas essenciais:  que se leia; e que se não esqueça a literatura.

O ensino do Português nos últimos anos tem considerado a literatura como uma forma de expressão linguística a par das outras, com a mesma dignidade de um anúncio de um jornal ou de um diálogo de telenovela. Têm saído deste ensino resultados bem manifestos no recente concurso de admissão à carreira diplomática, em que 98% dos candidatos (todos com esse grau académico que hoje se chama mestre) desconheciam de todo quem tinha escrito  os versos Eu quero amar, amar perdidamente/ amar só por amar, aqui, além. E, francamente, se os nossos génios económicos, a quem o país deve toda a prosperidade reinante, consideram inútil o estudo da História, para que nos servirão versos de um poeta ou de um louco, como dizia (ironicamente, sabem, agora é preciso explicar tudo) o Fernando Pessoa na Apostilha?

Por isso, honra a estas pessoas que teimam em promover a leitura, as bibliotecas e a promoção do livro no meio escolar. Merecem o nosso apoio, a nossa solidariedade, a nossa compreensão. E o nosso remorso por um ensino cego à escrita e à cultura, obcecado em nivelar por baixo, contra o qual estas pessoas tentam erguer a sua "barragem contra o Pacífico".

A beleza do Convento de Cristo de Tomar  e da sua Charola (que um amigo historiador de arte me explica estar entre os grandes exemplos de arte renascentista na Europa) leva-me a pensar como Portugal é maior que os portugueses. Ou melhor: como o nosso povo é infinitamente superior às nossas élites, cujas elucubrações venho ler no Expresso matinal, no café do largo.  Portugal, meu remorso de todos nós (Alexandre O'Neill).

Wednesday, May 1, 2013

Da esquerda e da direita

Fazem-me falta dois amigos de quem tenho saudades. Fazem-me falta. E fazem muita falta para nos ajudar a entender o que esta a acontecer.

Penso no Leonardo Ferraz de Carvalho e no Joao Martins Pereira. Esquerda, direita? Eram dois homens inteligentes e sensatos, que sabiam economia e nao pensavam por chavões nem por equações. Fazem falta.

Saudade dos amigos perdidos.

Da Europa alemã




Laocoon, tel que représenté dans une célèbre sculpture grecque, montre une noble simplicité et une grandeur tranquille (comme les autres chefs d'oeuvre grecs selon Winckelmann). Malgré les pires souffrances, il ne pousse pas le cri terrible que Virgile met dans sa bouche. C'est un gémissement étouffé et plein d'angoisse. Sa douleur atteint notre âme, mais nous voudrions pouvoir la supporter comme ce grand homme.
La sagesse de l'artiste a été de ne pas exprimer tout le pathétique de la douleur.
Pourtant, Philoctète chez Sophocle crie et s'exclame, et chez Homère, même les dieux pleurent et profèrent des insultes. Hercule se plaint et gémit. Mais cela se passe au théatre.
Chez les grecs, la beauté était la première des lois plastiques. Les sentiments inconciliables avec la beauté, comme la fureur, n'étaient pas représentés ou atténués. 

(Lessing, Laocoon)

Da Alemanha

Nous autres Allemands ne manquons pas de livres à système. Déduire, en partant de quelques définitions et dans le plus bel ordre possible, tout ce que nous voulons, c’est à quoi nous nous entendons mieux que personne au monde.

(Lessing (1729-1781), Laocoon)

Sunday, April 28, 2013

Saudades da grandeza





I think continually of those who were truly great.
Who, from the womb, remembered the soul's history
Through corridors of light where the hours are suns
Endless and singing. Whose lovely ambition
Was that their lips, still touched with fire,
Should tell of the Spirit clothed from head to foot in song.
And who hoarded from the Spring branches
The desires falling across their bodies like blossoms.

What is precious is never to forget
The essential delight of the blood drawn from ageless springs
Breaking through rocks in worlds before our earth.
Never to deny its pleasure in the morning simple light
Nor its grave evening demand for love.
Never to allow gradually the traffic to smother
With noise and fog the flowering of the spirit.

Near the snow, near the sun, in the highest fields
See how these names are feted by the waving grass
And by the streamers of white cloud
And whispers of wind in the listening sky.
The names of those who in their lives fought for life
Who wore at their hearts the fire's centre.
Born of the sun they travelled a short while towards the sun,
And left the vivid air signed with their honour. 

Thursday, April 25, 2013

Os derrotados de Abril


Preferiam a guerra, os anos de cinza,
a morte devagar distribuída
e os muros pintados a cal.

E eles pensam : terá voltado a nossa hora?
Mas é tudo tão diferente.
O dinheiro nunca teve cor, mas agora
não tem mundo nem maneiras.

Seja como for, por caminhos ínvios
ou por mecanismos que não se entendem,
mas que filhos de gente conhecida explicam,
ainda que fiquemos sem o nosso dinheiro,
o importante é que os pobres vão perder a grimpa
e o arrojo:
o nosso tempo voltou.




Tuesday, April 23, 2013