Sunday, July 31, 2016

Em Ítaca


Ce qui vient au monde pour ne rien troubler ne mérite ni égards ni patience
(René Char)


O regresso a Ítaca foi muito diferente do que esperava o outro Ulisses.
Ele preparara-se, é certo, para as astúcias dos pretendentes,
mas em muito mudara o Reino de Ítaca
e por isso a primeira coisa que fez foi aprender.

O cão Argos era fiel e discreto,
mas riam-se daquele homem 
que à ilha arribara em tão avançada idade.
Uma mulher, que lavava anáguas no mar,
perguntou chocarreira "Quem és tu? Que rosto
nos mostras, que propósito nos trazes? São as tuas palavras mornas
ou ardentes? São de fogo ou de cinza?"

Mas Ulisses era o dos mil ardis.
E assim o inspire o verso e a malícia.

Friday, March 25, 2016

À POESIA


Sempre voltamos. E nunca conhecemos
os cantos à casa. Caminhamos descalços
sobre tijoleira fria e abrimos a janela,
porque já estivemos nalgum lugar parecido,
mas nunca aqui. Flores secas, o piano
há muitos anos fechado. Falávamos de música?
Heard melodies are sweet
but those unheard are sweeter.
Alguém falou, por detrás desta infindável galeria de retratos
que conduz à torre assombrada.
Nós estamos habituados a ouvir os mortos.
Entramos e saímos e voltamos a entrar nesta casa,
mas nunca os corredores encontramos no mesmo sítio!
Faltam-nos, é claro as castíssimas esposas, 
que aninham as mansões de vidro transparente.
Mas este é o nosso tempo e com ele nos medimos,
às vezes irónicos, às vezes vagos ou distantes,
mas nunca fugimos dele. Nós não desertamos.
Não fugir. Suster o peso da hora.
E ouvir vozes e perder vozes e calar um verso,
porque uma palavra sobra e desequilibra.
A atenção às coisas e o voluntário esquecimento
do pormenor insidioso e biográfico,
que desponta como erva daninha
até infectar toda a cobertura da casa
com a humidade que envelhece telhas e madeiras
e acaba por corroer palavras, versos, memórias,
para nas caleiras ficarem por fim amalgamadas
as flores mais puras do engenho e da invenção.

(com versos de Keats, Cesário Verde e Cristovam Pavia)






Wednesday, March 23, 2016

Resposta a um inquérito do "Observador": 21 poemas apresentados por 21 poetas


Luís Filipe Castro Mendes

“Magnificat” de Álvaro de Campos

Cada poema é um encontro, no processo em que é escrito tanto como no processo em que é lido. Encontrei há muito tempo este poema e sei que de repente ele me veio cortar a respiração e ferir-me com a terrível consciência de que nunca poderemos sair do nosso próprio ser, nem pela vida nem pela morte. Cárcere do ser, li mais tarde no mesmo Álvaro de Campos. Mas o soco que o poema dá em nós (“e a dor dói como um soco”, Alexandre O’Neill) só o sentimos bem nesses momentos em que da ideia se passa ao espanto quase físico do encontro com uma verdade de nós que nós não sabíamos. O poeta é afinal aquele que sabe dar-nos de surpresa um soco no mais fundo do que somos. Para com isso aprendermos a ver melhor o esplendor do mundo.
Quando é que passará esta noite interna, o universo, 
E eu, a minha alma, terei o meu dia? 
Quando é que despertarei de estar acordado? 
Não sei. O sol brilha alto, 
Impossível de fitar. 
As estrelas pestanejam frio, 
Impossíveis de contar. 
O coração pulsa alheio, 
Impossível de escutar. 
Quando é que passará este drama sem teatro, 
Ou este teatro sem drama, 
E recolherei a casa? 
Onde? Como? Quando? 
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo? 
É esse! É esse! 
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; 
E então será dia. 
Sorri, dormindo, minha alma! 
Sorri, minha alma, será dia!

Saturday, March 19, 2016

Dia do Pai: um poema meu

MEMENTO MORI


Death is not in life

(Wittgenstein)

Eu vi morrer três pessoas:
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava de vida
ou porventura o que lhe sobrava de morte;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio,
que nunca soube a quem serviu depois.

Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez o amor.

O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer

e o amor também.

(de Lendas da Índia, 2011)

Dia Mundial da Poesia

The functions of the poetical faculty are twofold: by one it creates new materials of knowledge, and power, and pleasure; by the other it engenders in the mind a desire to reproduce and arrange them according to a certain rhythm and order which may be called the beautiful and the good. The cultivation of poetry is never more to be desired than at periods when, from an excess of the selfish and calculating principle, the accumulation of the materials of external life exceed the quantity of the power of assimilating them to the internal laws of human nature. The body has then become too unwidely for that which animates it.

(Shelley, "Defence of Poetry", 1821)

Friday, March 18, 2016

No Dia Mundial da Poesia

No Dia Mundial da Poesia
"Le déni de la poésie n'est pas une affaire littéraire, ou il ne l'est que secondairement. Il est politique. Réduire la poésie à un charmant artefact ou à une pratique très particulière, intransitive et séparée, du langage, censée sauver l'honneur d'une communauté qui l'ignore, lui déniant ainsi toute dimension sociale transgressive et agissante, c'est qu'on le veuille ou non un choix politique"
Jean-Pierre Siméon, director do festival "Printemps des Poètes"

Saturday, February 20, 2016

Soneto


A madrugada interrompeu-me os sonhos,
nem o silêncio do mundo me restava.
À paisagem deserta dos meus olhos
acudia a beleza que durava

num só triunfo feito em alvorada
a que os nossos sentidos se prendiam.
Mas nem um eco veio da chamada
em que o meu coração se comprazia.

Talvez venha a memória consentir
palavras sem fulgor e sem perdão.
Talvez deixemos fogo por abrir
e pedras ou poemas no desvão

do dia que se abria noutro dia
pois assim em palavras nos mentia.

Poema breve


Para quê um poema mais,
um brilho breve, uma modulação,
um trilho?
Tudo se apaga na noite comum
e nos caminhos desfeitos
entre palavras
daninhas. 

Saturday, February 13, 2016

O sonho de Schauble

O SONHO DE SCHAUBLE

O SONHO DE SCHAUBLE
Estavam os mercados em sossego
dos seus juros colhendo doce fruto
naquele encanto de alma ledo e cego
que o Centeno não deixa durar muito;
as bolsas escalando com apego,
os olhos das agências bem enxutos,
saltando e sorrindo sem cuidado:
mas eis que Portugal tem outro fado!
Dos bancos alemães te respondiam
As lembranças que os créditos duravam,
Que sempre ante teus olhos te traziam,
Quando dos seus formosos se apartavam;
De noite, em doces ratings que mentiam,
De dia, em orçamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
De outras vãs políticas francesas
Ou de Keynes ciência vil enjeita,
Que tu, enfim, só o mercado prezas
Pois seu gesto suave te sujeita.
Vendo outras namoradas estranhezas,
O Teutão sesudo, que rejeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do pobre que a ruína não queria
Tirar Centeno ao mundo determina,
Por lhe tirar o juro que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar da rebeldia o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Boche, fosse alevantada
Contra ua fraca pátria delicada?
Traziam-a os horríficos algozes
À Comissão, movida a piedade;
O alemão, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua os persuade.
As espadas banhando, e os atrozes
Défices de mentira e de verdade
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
(continua)

Sunday, February 7, 2016

Os velhos mestres: Dante


Dante descobria a ordem das esferas celestes,
mas ao mesmo tempo não poupava os seus inimigos
e passava para os tercetos toda a raiva que lhe inspiravam
os políticos de Florença,
sem cuidar de estranhar as coisas do Céu
dos negócios da Cidade
nem o sagrado da poesia do profano
das coisas públicas.

São perfeitos os tercetos: melhor assim
para poder caminhar para Deus e ao mesmo tempo
deixar em pedaços a reputação dos adversários.
O poeta que Platão temia, o inimigo dos mestres pensadores
a inscrever na abóboda divina pintada por Giotto
os insultos do real quotidiano:
esta é a mestria!


O Ulisses de Jorge Luis Borges

ODISEA, LIBRO VIGÉSIMO TERCERO

Ya la espada de hierro ha ejecutado
la debida labor de la venganza;
ya los ásperos dardos y la lanza
la sangre del perverso han prodigado.
A despecho de un dios y de sus mares
a su reino y su reina ha vuelto Ulises,
a despecho de un dios y de los grises
vientos y del estrépito de Ares.
Ya en el amor del compartido lecho
duerme la clara reina sobre el pecho
de su rey pero ¿dónde está aquel hombre
que en los días y noches del destierro
erraba por el mundo como un perro
y decía que Nadie era su nombre?
JORGE LUIS BORGES

Thursday, February 4, 2016

Homenagem a Dona Cleonice


ROMANCE DE DONA CLEONICE BERARDINELLI

De Cleonice, senhora
em seu saber assentada,
venho dizer sem demora
seu louvor: seja louvada
por quanto de si nos deu,
com o tranquilo fulgor
de tudo o que mereceu.
Esta só prova de amor
à língua e às suas artes
deu-nos a todos a flor
portuguesa em todas partes:
dos sertões e das veredas,
do verso mais fingidor,
de Camões até às sedas
da Índia e mais em redor;
do caminho e mais da pedra,
da faca gume sem dor,
da concha donde não medra
Vénus, mas seu esplendor.
E são alusões marinhas
e são caminhos imensos,
língua tua quando minha
nos percursos mais intensos:
o que se diz literatura,
o que poesia se chama
em tão profunda cultura
teu viver luz e proclama.
Nós passeámos por Praga,
por seus becos e travessas,
numa insaciável saga
de viagens e conversas,
que prolongavam a maga
fascinação com diversas
leituras e descobertas
de uma vida que no Rio
tinha as janelas abertas
para o mundo e pra seu fio
de linhas longas e certas
em que a língua se redoura,
com orgulho em sua oferta.
 Pois Cleonice, senhora,
do saber sempre vivido
numa língua que aflora
em povos, versos, sentidos
viveres que aqui se misturam
no riso sempre entendido,
aqui deixo a homenagem
do amigo comedido,
que sem fazer a viagem
deixa o seu preito sentido.







Thursday, January 28, 2016

Variações François Villon


Irmãos humanos,
de nós futuros,
endurecei
o coração:
o que deixámos
foram monturos,
coisas sem lei
e sem razão.
Irmãos humanos
não perdoeis!

Nenhuma pena
nem compaixão
merecerá
o que fizémos.
De nós acena
vil confusão
que durará
no que dissémos.
Irmãos humanos,
não perdoeis!

Nem o futuro
merecemos ter:
fiquem na sombra
os nossos actos;
um manto escuro
para esconder
baças e rombas
obras e factos.
Irmãos humanos,
não perdoeis!








Wednesday, January 27, 2016

Soneto do croquete (variações Bocage)


Embaixador eu fui: e do croquete
provei sem hesitar as mil maneiras.
Enquanto o mundo me fazia o frete,
com cinismo eu comia e sem fronteiras.

Do Tony não ouvia as melodias,
o povo português eu desprezava:
Ah, se me crestes, ó leitoras pias,
jogai meus versos para as amoras bravas.

Outro peralta fui. Eu desprezei
o que mais sabe e vale o povo meu!
E se em croquetes vãos vida gastei,
o destino me deu inferno e céu.

A reforma e meus dias derradeiros
passarei a ouvir o Quim Barreiros.

Tuesday, January 26, 2016

Thursday, January 21, 2016

Mudança possui tudo

Notre Mouvement

Nous vivons dans l'oubli de nos métamorphoses
Le jour est paresseux mais la nuit est active
Un bol d'air à midi la nuit le filtre et l'use
La nuit ne laisse pas de poussière sur nous


Mais cet écho qui roule tout le long du jour
Cet écho hors du temps d'angoisse ou de caresses
Cet enchaînement brut des mondes insipides
Et des mondes sensibles son soleil est double

Sommes-nous près ou loin de notre conscience
Où sont nos bornes nos racines notre but
Le long plaisir pourtant de nos métamorphoses
Squelettes s'animant dans les murs pourrissants

Les rendez-vous donnés aux formes insensées
À la chair ingénieuse aux aveugles voyants
Les rendez-vous donnés par la face au profil
Par la souffrance à la santé par la lumière

À la forêt par la montagne à la vallée
Par la mine à la fleur par la perle au soleil
Nous sommes corps à corps nous sommes terre à terre
Nous naissons de partout nous sommes sans limites

PAUL ÉLUARD

Ítaca


É verdade que nunca saí de Ítaca:
sou um funcionário cansado, à beira da reforma,
que andou de país em país, sem nunca ter podido fugir
dos corredores e das intrigas dos pretendentes.

Napoleão (excusez du peu...)
em todas as suas campanhas, do Egipto a Waterloo,
fazia cada dia a mesma pergunta : Que dirá Paris?

Intitular-me Ulisses foi apenas uma liberdade,
diria mesmo uma licença,
que a distraída pátria me permitiu.


Monday, January 18, 2016

Dante, "Divina Comedia", "Inferno": encontro com Ulisses

Io stava sovra 'l ponte a veder surto,
sì che s'io non avessi un ronchion preso,
caduto sarei giù sanz' esser urto.

E 'l duca che mi vide tanto atteso,
disse: «Dentro dai fuochi son li spirti;
catun si fascia di quel ch'elli è inceso».

«Maestro mio», rispuos' io, «per udirti
son io più certo; ma già m'era avviso
che così fosse, e già voleva dirti:

chi è 'n quel foco che vien sì diviso
di sopra, che par surger de la pira
dov' Eteòcle col fratel fu miso?».

Rispuose a me: «Là dentro si martira
Ulisse e Dïomede, e così insieme
a la vendetta vanno come a l'ira;

e dentro da la lor fiamma si geme
l'agguato del caval che fé la porta
onde uscì de' Romani il gentil seme.

Piangevisi entro l'arte per che, morta,
Deïdamìa ancor si duol d'Achille,
e del Palladio pena vi si porta».

«S'ei posson dentro da quelle faville
parlar», diss' io, «maestro, assai ten priego
e ripriego, che 'l priego vaglia mille,

che non mi facci de l'attender niego
fin che la fiamma cornuta qua vegna;
vedi che del disio ver' lei mi piego!».

Ed elli a me: «La tua preghiera è degna
di molta loda, e io però l'accetto;
ma fa che la tua lingua si sostegna.

Lascia parlare a me, ch'i' ho concetto
ciò che tu vuoi; ch'ei sarebbero schivi,
perch' e' fuor greci, forse del tuo detto».

Poi che la fiamma fu venuta quivi
dove parve al mio duca tempo e loco,
in questa forma lui parlare audivi:

«O voi che siete due dentro ad un foco,
s'io meritai di voi mentre ch'io vissi,
s'io meritai di voi assai o poco

quando nel mondo li alti versi scrissi,
non vi movete; ma l'un di voi dica
dove, per lui, perduto a morir gissi».

Lo maggior corno de la fiamma antica
cominciò a crollarsi mormorando,
pur come quella cui vento affatica;

indi la cima qua e là menando,
come fosse la lingua che parlasse,
gittò voce di fuori e disse: «Quando

mi diparti' da Circe, che sottrasse
me più d'un anno là presso a Gaeta,
prima che sì Enëa la nomasse,

né dolcezza di figlio, né la pieta
del vecchio padre, né 'l debito amore
lo qual dovea Penelopè far lieta,

vincer potero dentro a me l'ardore
ch'i' ebbi a divenir del mondo esperto
e de li vizi umani e del valore;

ma misi me per l'alto mare aperto
sol con un legno e con quella compagna
picciola da la qual non fui diserto.

L'un lito e l'altro vidi infin la Spagna,
fin nel Morrocco, e l'isola d'i Sardi,
e l'altre che quel mare intorno bagna.

Io e ' compagni eravam vecchi e tardi
quando venimmo a quella foce stretta
dov' Ercule segnò li suoi riguardi

acciò che l'uom più oltre non si metta;
da la man destra mi lasciai Sibilia,
da l'altra già m'avea lasciata Setta.

"O frati", dissi, "che per cento milia
perigli siete giunti a l'occidente,
a questa tanto picciola vigilia

d'i nostri sensi ch'è del rimanente
non vogliate negar l'esperïenza,
di retro al sol, del mondo sanza gente.

Considerate la vostra semenza:
fatti non foste a viver come bruti,
ma per seguir virtute e canoscenza".

Li miei compagni fec' io sì aguti,
con questa orazion picciola, al cammino,
che a pena poscia li avrei ritenuti;

e volta nostra poppa nel mattino,
de' remi facemmo ali al folle volo,
sempre acquistando dal lato mancino.

Tutte le stelle già de l'altro polo
vedea la notte, e 'l nostro tanto basso,
che non surgëa fuor del marin suolo.

Cinque volte racceso e tante casso
lo lume era di sotto da la luna,
poi che 'ntrati eravam ne l'alto passo,

quando n'apparve una montagna, bruna
per la distanza, e parvemi alta tanto
quanto veduta non avëa alcuna.

Noi ci allegrammo, e tosto tornò in pianto;
ché de la nova terra un turbo nacque
e percosse del legno il primo canto.

Tre volte il fé girar con tutte l'acque;
a la quarta levar la poppa in suso
e la prora ire in giù, com' altrui piacque,

infin che 'l mar fu sovra noi richiuso».

DANTE

Alfred, Lord Tennyson, "Ulysses"

It little profits that an idle king, 
By this still hearth, among these barren crags, 
Match'd with an aged wife, I mete and dole 
Unequal laws unto a savage race, 
That hoard, and sleep, and feed, and know not me. 
I cannot rest from travel: I will drink 
Life to the lees: All times I have enjoy'd 
Greatly, have suffer'd greatly, both with those 
That loved me, and alone, on shore, and when 
Thro' scudding drifts the rainy Hyades 
Vext the dim sea: I am become a name; 
For always roaming with a hungry heart 
Much have I seen and known; cities of men 
And manners, climates, councils, governments, 
Myself not least, but honour'd of them all; 
And drunk delight of battle with my peers, 
Far on the ringing plains of windy Troy. 
I am a part of all that I have met; 
Yet all experience is an arch wherethro' 
Gleams that untravell'd world whose margin fades 
For ever and forever when I move. 
How dull it is to pause, to make an end, 
To rust unburnish'd, not to shine in use! 
As tho' to breathe were life! Life piled on life 
Were all too little, and of one to me 
Little remains: but every hour is saved 
From that eternal silence, something more, 
A bringer of new things; and vile it were 
For some three suns to store and hoard myself, 
And this gray spirit yearning in desire 
To follow knowledge like a sinking star, 
Beyond the utmost bound of human thought. 

         This is my son, mine own Telemachus, 
To whom I leave the sceptre and the isle,— 
Well-loved of me, discerning to fulfil 
This labour, by slow prudence to make mild 
A rugged people, and thro' soft degrees 
Subdue them to the useful and the good. 
Most blameless is he, centred in the sphere 
Of common duties, decent not to fail 
In offices of tenderness, and pay 
Meet adoration to my household gods, 
When I am gone. He works his work, I mine. 

         There lies the port; the vessel puffs her sail: 
There gloom the dark, broad seas. My mariners, 
Souls that have toil'd, and wrought, and thought with me— 
That ever with a frolic welcome took 
The thunder and the sunshine, and opposed 
Free hearts, free foreheads—you and I are old; 
Old age hath yet his honour and his toil; 
Death closes all: but something ere the end, 
Some work of noble note, may yet be done, 
Not unbecoming men that strove with Gods. 
The lights begin to twinkle from the rocks: 
The long day wanes: the slow moon climbs: the deep 
Moans round with many voices. Come, my friends, 
'T is not too late to seek a newer world. 
Push off, and sitting well in order smite 
The sounding furrows; for my purpose holds 
To sail beyond the sunset, and the baths 
Of all the western stars, until I die. 
It may be that the gulfs will wash us down: 
It may be we shall touch the Happy Isles, 
And see the great Achilles, whom we knew. 
Tho' much is taken, much abides; and tho' 
We are not now that strength which in old days 
Moved earth and heaven, that which we are, we are; 
One equal temper of heroic hearts, 
Made weak by time and fate, but strong in will 
To strive, to seek, to find, and not to yield.
TENNYSON

Thursday, January 14, 2016

A propósito da edição do "Mein Kampf" pela revista SABADO

A propósito da edição popular do "Mein Kampf" pela revista SABADO:
Simone Weil, dans "L'Enracinement":
"On sait par une des biographies d'Hitler qu'un des livres qui ont exercé la plus profonde influence sur sa jeunesse était un ouvrage de dixième ordre sur Sylla. Qu'importe que l'ouvrage ait été de dixième ordre ? Il reflétait l'attitude de ceux qu'on nomme l'élite. Qui écrirait sur Sylla avec mépris ? Si Hitler a désiré l'espèce de grandeur qu'il voyait glorifiée dans ce livre et partout, il n'y a pas eu erreur de sa part. C'est bien cette grandeur-là qu'il a atteinte, celle même devant laquelle nous nous inclinons tous bassement dès que nous tournons les yeux vers le passé.(...)
Qu'on imagine cet adolescent misérable, déraciné, errant dans les rues de Vienne, affamé de grandeur. Il était bien de sa part d'être affamé de grandeur. À qui la faute s'il n'a pas discerné d'autre mode de grandeur que le crime ? Depuis que le peuple sait lire et n'a plus de traditions orales, ce sont les gens capables de manier une plume qui fournissent au public des conceptions de la grandeur et des exemples susceptibles de les illustrer. L'auteur de ce livre médiocre sur Sylla, tous ceux qui en écrivant sur Sylla ou sur Rome avaient rendu possible l'atmosphère où ce livre a été écrit, plus généralement tous ceux qui, ayant autorité pour manier la parole ou la plume, ont contribué à l'atmosphère de pensée où Hitler adolescent a grandi, tous ceux-là sont peut-être plus coupables qu'Hitler des crimes qu'il commet. La plupart sont morts ; mais ceux d'aujourd'hui sont pareils à leur aînés, et ne peuvent être rendus plus innocents par le hasard d'une date de naissance.
On parle de châtier Hitler. Mais on ne peut pas le châtier. Il désirait une seule chose et il l’a : c'est d'être dans l'histoire. Qu'on le tue, qu'on le torture, qu'on l'enferme, qu'on l'humilie, l'histoire sera toujours là pour protéger son âme contre toute atteinte de la souffrance et de la mort. Ce qu'on lui infligera, ce sera inévitablement de la mort historique, de la souffrance historique ; de l'histoire.
(...) Quoi qu'on inflige à Hitler, cela ne l'empêchera pas de se sentir un être grandiose. Surtout cela n'empêchera pas, dans vingt, cinquante, cent ou deux cents ans, un petit garçon rêveur et solitaire, allemand ou non, de penser qu'Hitler a été un être grandiose, a eu de bout en bout un destin grandiose, et de désirer de toute son âme un destin semblable. En ce cas, malheur à ses contemporains. Le seul châtiment capable de punir Hitler et de détourner de son exemple les petits garçons assoiffés de grandeur des siècles à venir, c'est une transformation si totale du sens de la grandeur qu'il en soit exclu.
C'est une chimère, due à l'aveuglement des haines nationales, que de croire qu'on puisse exclure Hitler de la grandeur sans une transformation totale, parmi les hommes d'aujourd'hui, de la conception et du sens de la grandeur. Et pour contribuer à cette transformation, il faut l'avoir accomplie en soi-même. Chacun peut en cet instant même commencer le châtiment d'Hitler dans l'intérieur de sa propre âme, en modifiant la distribution du sentiment de la grandeur. C'est loin d'être facile, car une pression sociale aussi lourde et enveloppante que celle de l'atmosphère s'y oppose. Il faut, pour y parvenir, s'exclure spirituellement de la société. C'est pourquoi Platon disait que la capacité de discerner le bien n'existe que chez les âmes prédestinées qui ont reçu une éducation directe de la part de Dieu."
(SIMONE WEIL. "L'enracinement", 1949, redigido em 1943, quando a autora lutava na Resistência)

Sunday, January 10, 2016

Alegria


Quizás no tiene historia la alegria

(Luis Rosales)

Cansaço


Porque há o cansaço, sabem?, do próprio cansaço.

A Porta Fechada


Silêncio do outro lado da porta:
porque se calaram, porque apagaram as luzes?
Esta aldraba de bater à porta
continua a ressoar e nem as paredes se iluminam
nem cai a noite vingadora
sobre as estrelas de uma constelação menor.

Nenhum dos meus passos me levaria aqui.
Mas eu sonhei a casa e o por dentro da casa,
o piano desafinado, as flores murchas,
os relógios sem corda.
Como se um saber desconhecido mo ordenasse
e o passado pudesse desvanecer-se enfim

no que aqui digo.



Friday, January 1, 2016

Deuses novos

Deuses novos, vindos do Oriente,
sorriem apenas e nada nos dizem.
Salvação, perdição? Esquecido vocabulário.
Existimos junto deles, respiramos
e consentimos a vida cada dia.

Saturday, December 26, 2015

Estrelas e pirilampos


Tantas luzes se apagam na terra:
como reconhecer os caminhos?
Pois aqui sumiram os vagalumes
e respira o mundo no escuro e depois
o luar emerge sobre rochas vagas
sem distinguir a terra do mar.

Estrelas da Ursa, ajudai os homens
a enfrentar este escuro que vem de dentro!

Depois da festa


Basta olhares-me nos olhos: estão vazios.
Das imagens e das luzes que passaram
ficou o rasto amargo de memórias
que melhor não fossem ditas nem pensadas.
Tu não guardas nada, tu atravessas
as coisas que foram vida e alegria
e no que te demoras há o rasto
do que para sempre sobrou da tua vida.
O fim da festa é sempre um bom momento
para tomares por ti o peso à alegria
e sorrires com os teus olhos: estão vazios.
Nunca teve uma história o que te deram
nem a tua sombra na terra fez o dia.

Friday, December 25, 2015

Bom Natal


Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio
No prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos. 
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A casa, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
DAVID MOURÃO FERREIRA

Bom Natal

Bom Natal

Tuesday, December 15, 2015

Poesia avulsa

INSÓNIA


Nem sequer uma mão morta
vem bater à minha porta

(Alexandre O'Neill)



Gelo fino à minha porta,
uma noite sem dormir:
nem sequer uma mão morta
para as janelas abrir...

Porque dentro do meu quarto
a tempestade do sonho
são palavras que reparto
e que esqueço quando ponho

numa forma de poema
no forno pela manhã,
sem que sequer a mão trema
de fúria ou febre terçã.

Esqueci o que ia dizer.
Bom, o dia vai nascer.






Friday, December 11, 2015

NÃO TENDO OUTRO MODO DE ENVIAR A TODOS E A CADA UM DOS MEUS AMIGOS VOTOS DE BOAS FESTAS, REQUENTEI ESTES VERSOS, QUE PEÇO LEIAM A BEBER UM BOM VINHO


É em vão? Talvez o seja.
Estarão fora de moda:
versos em que me reveja,
como saudade da prosa*...


Não sei porque vou teimar
na redondilha maior,
quando o verso vai saltar
dentro de um computador

e partir ao vosso encontro
na rede da internet,
como anacrónico monstro
que não sabe nem promete.

É em vão? É, certamente.
Mas ele há vícios piores!
Seja pois este presente
para os meus poucos leitores...


*citação de Manuel António Pina "poesia, saudade da prosa"