Tuesday, April 28, 2015

A VÉNUS AO ESPELHO, Vasco Graça Moura, "Laocoonte", 2005


Velásquez, Vénus ao espelho , National Gallery, Londres

se a vénus ao espelho fosse
uma oliveira a arder por dentro
com sua chama de óleo doce
e tudo em brasa desde o centro,

se o seu espelho acaso fosse
embaciado pelo alento
que algum cupido em voo trouxe
entre desejo e atrevimento,

se o ar no quarto depois fosse
feito luz táctil do aposento
e se entranhasse a tomar posse
da nudez rósea no cinzento,

e se velázquez então fosse
pintar-lhe o ensimesmamento
eu te diria: misturou-se
ao próprio instinto o pensamento.

Vasco Graça Moura, em Laocoonte, rimas várias, andamentos graves, 2005


2 comments:

  1. Obrigada, Luís, por nos recordar Vasco Graça Moura! Que grande poema! Beijo.

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