Sunday, January 20, 2013

Sobre a Índia


Enquanto português a Índia marcou-me, não enquanto descoberta de mim através do outro (como me aconteceu no Brasil), mas como descoberta dessa "essencial heterogeneidade do ser" de que falava um poeta espanhol de que muito gosto (António Machado) essa heterogeneidade que está tão próxima, tão intimamente próxima, da nossa própria identidade. 

E agora penso que a questão deveria ser posta ao contrário: o que é que não me marcou na Índia? É difícil falar da Índia, quando se cola a tudo o que dizemos o lastro de tantos discursos, tantos olhares, tantas interpretações pelas quais tentámos, tanto nós ocidentais como vós indianos (sim, porque também há "orientalistas" no Oriente), resumir a uma fórmula, a uma interpretação, a um tratado esse "múltiplo esplendor" (gosto de citar este lugar comum da Han Suyin) pelo qual a Índia se esconde e se revela num mesmo movimento aos nossos sentidos. 

Apetecia-me falar do coração. Mas começo pela cabeça e, seguindo a lição de um clássico português, o Camilo, não esquecerei o estômago. A razão de ser da Índia moderna é evidentemente tomar o seu devido lugar no mundo com todo o peso da sua força, da sua capacidade, da sua riqueza e da sua inteligência. Mas o coração não esquece as mulheres violentadas nos autocarros de Deli, os dalits humilhados às portas das cidades ou a ternura de um inesperado olhar vindo de dentro do bairro da miséria. E o estômago: a fome combatida por esses milhões de camponeses, sem rentabilidade para os cálculos económicos modernos, mas sem alternativa à vista para os estômagos vazios. 

A modernidade e a inteligência mais sofisticada podem coincidir assim com a barbárie? Mas isso não é exclusivo da Índia, como por demais sabemos. Walter Benjamin dizia que "todo o monumento de civilização é ao mesmo tempo um monumento de barbárie". Grutas de Ajanta ou Capela Sistina, os escravos e os humilhados passaram por lá  e a sua sombra pesa na memória dos vencidos. Invasões mogóis ou ocupações portuguesas, guerras inglesas, colonizações, massacres ao fio da espada, o som e a fúria da História perduram na música obsessiva da memória. Mas eu não fui à Índia para participar na genuflexão ritual dos colonizadores ante os colonizados. Aliás poucos já se preocupam hoje na Índia com esse assunto. Quando a Europa se provincializa, certas erupções anti-coloniais têm o ridículo e o encanto de rendas velhas guardadas num cofre de cânfora. Afinal quem são hoje os colonizados?

Eu vi os pescadores de Goa escoltarem, com flâmulas vermelhas e verdes nos seus barcos, o nosso navio-escola "Sagres", que viera em visita oficial à Índia, a convite da Marinha indiana. Fizeram-no, não para sonhar com o regresso das caravelas, mas para afirmar publicamente que não queriam negar o passado. Ideia que aliás nunca ouvi a qualquer autoridade indiana em Nova Deli: bem pelo contrário, ouvi o Primeiro Ministro Manmohan Singh reconhecer publicamente o legado histórico de Portugal na Índia. E é isso que conta. 

Contrariamente ao que alguns desejariam, os escravos não se tornaram senhores para os senhores se tornarem escravos. De certo modo compreendemos hoje que somos todos, ao mesmo tempo, senhores e escravos: senhores, sim, da experiência extraordinária de globalmente nos conhecermos e de num mesmo instante nos tratarmos; escravos, sim, de um universal sistema de instantâneos efeitos, que atravessa espaços e nações e apenas conhece relações de força e diferenciais de riqueza. A cultura, poderemos dizer então, é o monumento que responde à nossa barbárie? Eu vi o sorriso elegante de Shiva na Ilha de Elefanta e o olhar apiedado de Nossa Senhora na Igreja Matriz de Pangim. De um olhar ao outro é o mais comum dos humanos que enfrenta, com uma misteriosa ironia, os avatares da História e o orgulho dos homens. 

(Resposta a uma pergunta da Lusophone Society of Goa)

Wednesday, January 16, 2013

Leituras

Os artigos de Perry Anderson no "London Review of Books" sobre os chamados países  emergentes (Índia o ano passado e agora o Brasil) são de uma extraordinária lucidez e sentido crítico, esteja-se ou não de acordo com todas as (por vezes provocatórias) teses do autor.  À atenção dos que perceberam que se vivemos tempos pós-imperiais é justamente porque vivemos tempos em que a Europa se está a tornar cada vez menos central no Mundo.

Tuesday, January 15, 2013

Tratem da fama e do comer

Gazetilha

( Álvaro de Campos )


Dos LLOYD GEORGES da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

Monday, January 14, 2013

O burro e o leão

José Manuel Fernandes, antigo diretor do "Público", escreveu no seu twitter: "O dr. Mário Soares não deveria ter ido para um hospital do SNS para dar o exemplo? É só para saber, nada mais."
Não vou aqui elaborar sobre o direito de qualquer cidadão se bater pelos serviços públicos e usar, se assim entender, serviços privados. Não é o momento. O que me choca, o que me deixa mesmo próximo do vómito, é alguém aproveitar um momento destes para fazer combate político. Quem aproveita a hospitalização de um homem para o combate político, quem aproveita a fragilidade física de um adversário para o atacar, tem apenas um nome: é um cobarde. E com cobardes não se debate. Desprezam-se apenas.
 
(Daniel Oliveira)

Saturday, January 12, 2013

Un ami m'a dit...


« Il faut prendre en compte l’effet de confiance [que ressentent les marchés] » vient de déclarer hier à Bruxelles Olli Rehn, le commissaire aux affaires économiques et monétaires, afin d’exprimer son désaccord avec l’étude du FMI confirmant l’analyse d’Olivier Blanchard d’octobre dernier. Ce dernier appelle les autorités européennes à lever un peu le pied dans l’application de l’austérité budgétaire et à tempérer les contraintes imposées aux pays les plus lourdement endettés. Moins ésotérique mais non sans jésuitisme, Mario Draghi, le président de la BCE, expliquait le même jour à Francfort que « de si grands progrès accompagnés de sacrifices si importants ont déjà été accomplis qu’il ne serait pas bon de revenir à une situation qui a déjà été jugée intenable ». Comme si la question était posée…
Le rideau s’est levé sur un débat devenu public et il ne va pas retomber. Il y a malaise à propos d’une stratégie de désendettement qui n’opère pas sa magie et renvoie ses effets à bien plus tard. En visite à Lisbonne, Martin Schulz, le président du Parlement européen, a ouvertement mis en évidence les contradictions qui apparaissent, cette fois-ci au sein du FMI. Ce dernier vient de préconiser d’un côté un renforcement important des mesures d’austérité au Portugal, tout en admettant de l’autre que trop de rigueur freine la croissance. La sortie de Schulz s’est accompagnée d’un commentaire : « Ils semblent ressortir une vieille recette qu’ils estimaient pourtant mauvaise », et d’une suggestion « je propose au FMI de commencer par se mettre d’accord sur ce qu’il estime être la meilleure solution ».
(François Leclerc, no blog de Paul Jorion)

De Senectude (2)


                                                (Vincent Van Gogh)


Usei de mim o que não tinha de melhor
e o melhor que havia em mim nunca cheguei a entender.
Hoje apercebo sombras
e a minha memória erra entre imagens difusas
e palavras ríspidas.
Quem me dirá o que fui? 
  

Citação do dia


The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

(William Butler Yeats)

Thursday, January 10, 2013

De Cora Rónai


Da coluna de Cora Rónai no "Globo", com um "abraçaço" para ela:
O Facebook deu de fazer perguntas aos usuários. Agora mesmo me perguntou como eu estava me sentindo, mas não lhe fiz caso. A ideia é, suponho, dar um empurrãozinho nos novatos que não sabem ainda se comunicar na rede social. O truque, que funciona nos EUA, de onde foi importado, não dá certo entre nós, latinos, que não carecemos de assunto. O resultado é que a maioria das pessoas responde, quando responde, com maus modos e irritação. Mas há quem responda com humor e elegância, como o poeta e diplomata português Luis Filipe de Castro Mendes, que há alguns anos serviu como cônsul aqui no Rio:
“Ainda bem que pergunta. Realmente ninguém tem interesse em saber como eu me sinto (rabujento, irritado com as notícias, saudoso do futuro, esfíngico e fatal, com os pés frios, acabrunhado pela miséria do mundo, já com um bocado de sono, cheio de fome e de sede de infinito, tenebroso, belo, inconsolável, contribuinte sem dívidas ao fisco, um pouco blasé, príncipe de Aquitânia com a torre abolida, lúcido, merda, lúcido, com a televisão já desligada, caminhando radioso sobre a minha miséria, se quiserem continuo…). E é isto, só o Facebook quer saber como me sinto. Ninguém mais. Nem eu.”
(O Globo, 10.1.2013)

O nada que é tudo


Poema em Linha Recta' de Álvaro de Campos


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso, arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas do hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,


Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste mundo que me confesse que uma vez já foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

Quando nada mais fica


            ODE À INCOMPREENSÃO


De todas estas palavras não ficará, bem sei,
um eco para depois da minha morte
que as disse vagarosamente pela minha boca.
Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,
ou nem sonhei ou nem pensei
ou apenas sofri de não ter sofrido tanto
como aterradamente esperara -
nenhum eco haverá de outras canções
não ditas, guardadas nos corações
alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.

Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,
não encontrou eco. Por tudo o que,
para ecoar, ficou silencioso, imóvel -
- isso me dói como se ausência a música
não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,
eminente, destinado, isso me dói
dolorosamente, amargamente, na distância
do saber tão claro, da visão tão lúcida,
que para longe afasta o compassado ardor
das vibrações do sangue pelos corpos próximos.

Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,
da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos
a imensa altura para que me arrebatas
- meu palpitar de imagem à beira da alegria,
meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,
tão longe, que já não meus erros regressassem
como verdade envenenando o dia a dia alheio.

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!

E quem, ó minha imagem, foi contigo?

(De mim a ti, a mim,
quem de tão longe alguma vez regressa?)

Jorge de Sena

Wednesday, January 9, 2013

Gérard Depardieu



"It's odd that people should feel so shocked by Depardieu's decision. After all, in escaping from a messy, expensive democracy to a cheaper and simpler autocracy, the actor is only doing what thousands of Western multinational corporations do every day by moving their factories to China and their management to the United Arab Emirates.

For example, when it invests in China, a company like Apple can reap all the benefits of totalitarianism - streamlined governance, low wages and no labor unrest - at the same time as it opts out of the abuses, restrictions and indignities faced by ordinary Chinese people.

Depardieu has done the same thing."

(Vadim Nikitin,  International Herald Tribune, 9/1)


Apocalypsis cum figuris


                                         (Albrecht Durer, Apocalypsis cum figuris)


Profissões privilegiadas
Segundo o relatório do FMI, elaborado em conjunto com a Comissão Europeia, os salários da função pública são “relativamente elevados” e privilegiam “trabalhadores com baixas qualificações”, uma vez que a diferenciação nos salários acontece em função da antiguidade e não do desempenho. 
O documento refere que há classes profissionais (polícias, militares, professores, médicos e juízes) que têm “demasiadas regalias”, que os médicos têm salários excessivamente elevados (principalmente devido ao pagamento de horas extraordinárias) e os magistrados beneficiam de um regime especial que aumenta as pensões dos juízes em linha com os salários.
Esta é uma das mudanças propostas pelo relatório que, afirma o Jornal de Negócios, o Governo está a analisar. A progressividade dos salários do Estado deve passar a ser feita em função do desempenho e não da antiguidade, como forma de “atrair profissionais mais motivados e qualificados”, como escreve o jornal.
Mexer nas pensões
Uma segunda área de acção encontra-se nas pensões da Caixa Geral de Aposentações, diz o relatório do FMI. Neste campo, a instituição dirigida por Christine Lagarde propõe dois caminhos: a extensão do corte nos subsídios de férias e de Natal conjugado com um segundo corte de 15% nas pensões acima de um valor mínimo (não determinado). Um segundo caminho passa por alterações nas regras de cálculo das pensões.
Diz o FMI que o Estado pode considerar a extensão da idade de reforma até aos 55 anos e a proibição expressa de reformas antes dos 65 anos. O Governo pode ainda estudar a possibilidade de alterar o cálculo do valor das pensões em função das condições orçamentais e assumir um ajuste periódico nestes valores.
Neste sentido, o Estado pode somar um corte de 20% a todas as pensões da Caixa Geral de Aposentações, além das novas formas de cálculo para os pensionistas.
O FMI chama também a atenção para o sistema de protecção social, que diz ser “demasiado dispendioso, injusto,  especialmente para os mais jovens”, defendendo que o “subsídio de desemprego continua demasiado longo e elevado.”
(Jornal de Negócios de hoje)

Leituras para o nosso tempo


A Bíblia dos pobres


                               (Viridiana, Luis Buñuel)

Nesse tempo

    
                     NESSE TEMPO É QUE ERA BOM

Os pobres ficavam à porta à espera que
lhes levassem a comida. Olhavam para dentro da casa, às escondidas,
e viam as paredes de mármore, o chão de azulejos, as escadarias
de pedra, as portas de grandes salões onde nunca iriam
entrar. Quando lhes traziam os restos de comida, embrulhados
em papel, pegavam neles, de olhos no chão, e iam-se
embora sem uma palavra. Nunca soube
se os comiam, às escondidas, para que
outros não tivessem a tentação de lhes roubar
as sobras do banquete; se os levavam para o casebre,
e os partilhavam com os filhos que tremiam de febre,
embrulhados em mantas; ou se iriam ser atacados
pelas matilhas de cães tão esfomeadas como
eles. Os pobres não sabiam o que fazer
com as suas vidas; mas eu sabia o que lhes iria
acontecer de cada vez que ouvia o sino dobrar,
e corria para o cemitério onde o coveiro,
com todo o tempo do mundo, cavava um buraco,
dando tempo ao corpo, embrulhado na manta
grosseira, para arrefecer, até ser deitado na cova.

(Nuno Júdice, Fórmulas de uma luz inexplicável, Dom Quixote, 2012)



Take the money and run

Le beurre et l'argent du beurre

Histoire exemplaire de ce qu’est le capitalisme financier, AIG est aussi en passe de devenir une histoire édifiante ! En 2008, il avait été évité que l’assureur américain, alors leader mondial, sombre brutalement – risquant d’entrainer avec lui de nombreuses banques américaine et étrangères dans le cadre d’une réaction systémique à la portée imprévisible – grâce à l’apport par l’État américain de 182 milliards de dollars sous forme de liquidités et de garanties.
Aujourd’hui, les actionnaires « historiques », d’AIG derrière lesquels se cache son ancien patron et ex-premier actionnaire Hank Greenberg, réclament 25 milliards de dollars au gouvernement, s’estimant lésé en raison des profits réalisés depuis par la Fed et le Trésor dans le cadre de ce sauvetage, soit respectivement 17,7 et 5 milliards de dollars…
Le conseil d’administration d’AIG va discuter aujourd’hui de l’éventualité d’engager également une action, alors que l’entreprise a lancé une grande campagne publicitaire sur le thème « Merci l’Amérique ! » pour remercier de leur sauvetage les contribuables américains. A-t-elle vocation à être un solde de tout compte ?

(do blog de Paul Jorion)

Sunday, January 6, 2013

Aqui a troika não vai ter problemas constitucionais


Depois do surpreendente discurso de Ano Novo, em que abordou o tema da reconciliação com o Sul, soube-se agora que o Presidente da Coreia do Norte está a ser aconselhado por economistas e advogados alemães, que têm como tarefa apontar o caminho para o desenvolvimento da economia do país.
Um dos economistas envolvidos no processo, citado pelo diário alemãoFrankfurt Allgemeine Zeitung, afirma que o regime da Coreia do Norte tem já um "plano director", com o objectivo de promover a abertura económica "ainda este ano".
                                                  (Público de hoje)

Aqui d'El-Rei!




Vasco Pulido Valente (sempre esse homem fatal) no "Público" de hoje:

"Vivendo num mar de ilegalidade desde, pelo menos, 1910, custa perceber como de repente esta extraordinária revelação desceu sobre a cabeça do indígena."

Indígenas: vamos repor a legalidade! Viva El-Rei! Viva a Carta Constitucional! Viva 1909! 

O caderno novo


— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adiçăo infinita.

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.


(João Cabral de Melo Neto)

Saturday, January 5, 2013

Os Seminários Diplomáticos de antigamente

                                       Hans Holbein, Os Embaixadores

Tuesday, January 1, 2013

Mais um defensor da frieza da solidariedade contra o calor da caridade

O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos.

(Bento XVI)

Bom Ano Novo!

Sunday, December 30, 2012

A Inglaterra de que eu gosto

Comentário a um artigo de Vasco Pulido Valente

Sobre o artigo no "Público" de hoje: a crença de Vasco Pulido Valente na Inglaterra, essa grande praça de especuladores financeiros situada num país arruinado, enquanto potência alternativa à Alemanha é tão comovedora como a crença das crianças no Pai Natal! Por muito que pese ao eterno doutorando de Oxford, o nosso destino joga-se entre Berlim e um (possível?) eixo do Sul que seja capaz de se consolidar. A Inglaterra de hoje é a de Francis Drake, não a de Winston Churchill.

Saturday, December 29, 2012

Com música de "Vale mais ser alegre que ser triste" ( Vinicius)

Vale mais ser saudável que doente,
se adoeço nao há quem aguente
os remédios para me tratar.

Mas se não há um pouquinho de doença,
como vamos morrer, você não pensa,
e para sempre na despesa cortar?

Friday, December 28, 2012

To have done instead of not doing


What thou lovest well remains,
                              the rest is dross
What thou lov'st well shall not be reft from thee
What thou lov'st well is thy true heritage
Whose world, or mine or theirs
                         or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
     Elysium, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov'st well shall not be reft from thee



The ant's a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
     Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
                  Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.



"Master thyself, then others shall thee beare"
     Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst'ou wing from tail
Pull down thy vanity
               How mean thy hates
Fostered in falsity,
               Pull down thy vanity,
Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
               I say pull down.



But to have done instead of not doing
               This is not vanity
To have, with decency, knocked
That a Blunt should open
          To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
this is not vanity.
     Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered . . .

(Ezra Pound, The Pisan Cantos)


Casa à beira da linha do comboio

                                          Edward Hopper

De Senectude



Um artigo de Vítor Bento:

Uma das histórias contadas na minha infância – creio que integrava um dos livros de leitura – falava de uma terra onde os filhos costumavam levar os pais velhos, que já não podiam trabalhar, para o cimo de um monte, onde ficavam sozinhos, à espera do fim.
Certa vez, quando um dos filhos dessa terra cumpria o ritual, colocando o velho pai no tal monte e deixando-lhe uma manta para se abrigar do frio enquanto sobrevivesse, o ancião perguntou-lhe se não teria por acaso uma faca consigo.
Ao que o filho respondeu: "Tenho, sim senhor. Para que a quer?". "Para que cortes esta manta ao meio e guardes metade para ti, para quando o teu filho te trouxer para este lugar!".
Como estas histórias eram destinadas a retirar uma consequência moralizadora, o rapaz percebeu o alcance do pedido, levou o pai de volta para casa e com isso se acabou o terrível costume.
Lembrei-me da história a propósito do artigo 76º do OE 2013 (versão da proposta) e, muito em particular, em particular do seu número 2. Este preceito exige dos reformados - e só deles! - o pagamento de uma "contribuição extraordinária de solidariedade", que, em termos marginais, pode ir até aos 50%, para além do corte de 90% de um subsidio e dos impostos a que as pensões já estão sujeitas - nomeadamente o IRS, progressivo. Isto provoca, em muitos casos, uma drástica redução de rendimento para quem, tendo planeado a fase final do seu ciclo de vida com base numa promessa do contrato social, nuns casos, ou de puros contratos, noutros casos, já não dispõe de condições nem de tempo para reajustar o seu plano de vida à violenta quebra dessa promessa e ao consequente desmoronamento da fase final desse seu plano.
Por isso - e a não ser que me esteja a escapar qualquer coisa que torne este meu raciocínio num grave erro - me parece que aquela norma viola tantos princípios da justiça distributiva - da justiça intergeracional, à equidade, à igualdade, à proporcionalidade, ... -, que não vejo como tal manta possa escapar à faca da vigilância constitucional. E, se não escapar, será um risco desnecessário para a execução orçamental.
E não é apenas a justiça distributiva que está em jogo. É que, ao estender-se às pensões oriundas de fundos de pensões e às rendas vitalícias - que não constituem uma redistribuição contemporânea de rendimento, como é o caso das pensões da Segurança Social ou da Caixa Geral de Aposentações, mas são a distribuição de património já acumulado e que, por direito, pertence aos beneficiários dessas pensões -, a norma pode ainda ser vista como um verdadeiro confisco de património privado.
É pena que tal zelo nunca tenha sido aplicado às rendas no sector não transaccionável. Não só por questões suscitáveis em sede de equidade na distribuição dos imperativos de solidariedade, mas porque aquelas constituem um factor de erosão da competitividade do sector transaccionável, de que depende a recuperação e a sustentabilidade do crescimento da economia.
Enfim, tal como uma andorinha não faz a primavera, uma medida injusta não contamina todo um programa, nem define, só por si, a justiça global desse programa. Embora possa contribuir, desnecessariamente, para a erosão do consenso social e político de que depende o seu sucesso. Preserve-se, pois, o essencial - em que é preciso perseverar, com paciência e estoicismo -, porque ele é indispensável.
Vitor Bento, Economista
(Diário Económico)

Thursday, December 27, 2012

Ainda o burlão: o poder do bacalhau


Ana Gaspar, da VIDA, explicou ao que Baptista da Silva se apresentou na associação em Agosto, dizendo que queria colaborar e que poderia ser útil pelos conhecimentos em economia social e pelos seus contactos. Confrontados com o estudo sobre pobreza e crescimento, com gráficos digitalizados e em papel normal, começaram a surgir dúvidas, lembra Ana Gaspar, recordando ainda que, internamente, questionaram o facto de o cartão de um consultor da ONU ter um logótipo errado e um email do Gmail em vez de um endereço oficial.
Numa pesquisa na internet, além de não encontrarem referências a Baptista da Silva, perceberam facilmente que a faculdade do Wisconsin não existia e a tese era plagiada. Na continuação da análise da informação dada por Baptista da Silva sucederam--se as incongruências: dizia-se fundador do Instituto Piaget, algo desmentido; dizia-se bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, também em sustentação; mais demorado foi conseguir o desmentido da ONU, mas também esse contacto arranjaram. Ainda em Setembro ficou concluída a investigação, com o veredicto de impostor. Sem faltar a informação de que Baptista da Silva tinha cadastro, obtida na polícia. “Não o voltámos a contactar e decidimos avisar outras organizações”, disse Ana Gaspar, confessando- -se surpresa por, ao contrário do que fez a Associação Abril, o International Club of Portugal ter acusado a recepção do email e ter mantido a conferência.
Questionado sobre como foi possível ignorar um email que continha links para a tese plagiada e contactos da ONU em Nova Iorque, Manuel Ramalho lamentou não lhe ter dado atenção “em tempo útil”, explicando que pesou o contexto em que foram apresentados: um almoço em Maio na Academia do Bacalhau.
(jornal i, ed. digital de hoje)