Wednesday, April 21, 2010

Parce que ça me plaît...


"mais il est beau que l'animal qui sait qu'il doit mourir arrache à l'ironie des nébuleuses le chant des constellations et qu'il le lance au hasard des siècles auxquels il imposera des paroles inconnues"

(André Malraux, Les voix du silence)

O canto da terra (2)

Porque a paz é uma invenção da humanidade
e a guerra o estado natural,
a natureza não nos oferece paz
nem nos dá nada sem preço.

Nós não somos o que nega a natureza:
a ela pertencemos inteiros,
bem como à morte.

O que nos faz diferentes é sermos a única espécie
que sabe que vai morrer.

Tuesday, April 20, 2010

O canto da terra


As paisagens não são silenciosas:
elas contam sempre a história de uma guerra
entre homens e natureza ou, se preferirem,
entre diversos modos de natureza.

A terra não foi feita para a paz:
ela existe sempre entre lutas de morte e súbitas catástrofes
e só nelas e por elas vive.


Sunday, April 18, 2010

O jogo da guerra : fronteira indo-paquistanesa de Wagah







A cerimónia do arrear das bandeiras no posto fronteiriço de Wagah, para além das exibições das marchas em passo de ganso dos soldados dos dois exércitos, conhecidas do público em geral, tem uma capacidade extraordinária de dar ao jogo bélico (e à ideia de guerra iminente que está por trás de tudo aquilo) uma dimensão espectacular, lúdica e, desse modo, catártica. Com o terror e a piedade expurgados, ficamos mais disponíveis para o enfrentamento...


Dos dois lados da fronteira enchem-se as bancadas em anfiteatro: "Hindustan" gritam deste lado; "Pakistan" respondem do outro lado.


Começa então o desafio com grupos de crianças e suaves raparigas correndo em direcção à cancela fechada, empunhando a bandeira indiana e sorrindo de alegria : ao aproximarem-se da barreira, o soldado indiano manda-os recuar, com ar severo; mas logo vêm outros, mais e mais crianças e jovens, todos desfraldando a bandeira da Índia em direcção ao Paquistão...


Entretanto, do outro lado, velhos barbudos e honrados correm pela parada agitando a bandeira do Paquistão, a multidão entoa hinos patrióticos e os tocadores de tambor executam o seu número frenético : mas tudo acaba por ser abafado pela musica de Bollywood que sai dos altifalantes do lado indiano...


As jovens e os jovens do lado de cá começam então a dançar, numa verdadeira "disco border party", que culmina no "Jai Ho", uma dança de festa juvenil e de desafio trocista aos paquistaneses, que continuam a agitar o tambor, a cantar os hinos e a animar os velhinhos barbudos a continuar a correr com as suas bandeiras.


Surgem então os apupos e os dichotes entre as duas "claques" (a ideia do estádio é imediata) e um concurso entre um lado e o outro para ver quem consegue manter mais alto e mais tempo o seu grito de guerra...


O "Vande Mataram", hino da Índia hindu (não o hino nacional) irrompe então da bancada do lado de cá. Famílias entoam gritos patrióticos. Todos parecem satisfeitos com o que estão a fazer.


Vemos do outro lado alguns colegas diplomatas acreditados no Paquistão : acenamo-nos e sorrimos.


Postos que estão frente a frente os dois valorosos campos, tocam então as trombetas de uns e outros. Os jovens bailarinos do lado de cá e os velhos porta-bandeiras do lado de lá são mandados sair de cena, rispidamente. E têm lugar então as cerimónias militares.


Soldados de um lado e do outro avançam em passo de ganso para a cancela, logo voltando para trás, porque a fronteira só é aberta em dois momentos : no primeiro, um soldado indiano e um soldado paquistanês fixam-se muito tempo de pé, frente a frente, olhos nos olhos (mas não conseguem disfarçar a sua preocupação essencial com a compostura das respectivas fardas...); no segundo momento, há uma espécie de baile ritual entre os soldados (baile feito, entenda-se bem, apenas do cruzamentos das duas marchas), que termina com o alinhamento de todos os militares, o toque do arrear das bandeiras e a descida simultânea, lenta e solene, dos dois pavilhões...


Do cimo do anfiteatro, do outro lado, a fotografia oficial de Ali Jinnah olha para todos nós, com aquele olhar altaneiro e trágico, que hoje sabemos ser o de um homem consciente de que ia morrer em breve (dois meses), mas que só morreria depois de ter conseguido criar o seu Estado!


O oficial indiano e o oficial paquistanês apertam a mão. Terminou a cerimónia. "Este ano correu bem" comenta o meu amigo indiano "não houve muitos insultos vindos das bancadas. Bom sinal". De facto, a cerimónia é de uma inesperada bonomia. Mas é de guerra que se trata : dois predadores a rugir um para o outro, mesmo que sob a forma de gentis meninas a dançar o "Jai Ho"...

Thursday, April 15, 2010

Lendas da Índia : Amritsar, fronteira com o Paquistão


Revenir à soi - c'est revenir au reste. C'est exactement revenir à ce qui n'est pas soi.

(Paul Valéry)

Parto amanhã para Amritsar.

Tuesday, April 13, 2010

Patriotismos, nacionalismos, pós-nacionalismos


Não chego ao ponto do Dr Johnson ( o "patriotismo é o refúgio dos canalhas" ) ; nem creio que tenhamos já chegado na Europa àquela fase "pós-nacional", que Habermas nos anunciava. Os últimos desenvolvimentos no nosso continente mostram que os Estados-nações continuam no essencial no posto de comando e preparemo-nos agora para enfrentar as questões da nacionalidade dos húngaros que vivem fora da Hungria com toda a paciência dos Habsburgos ... a paciência que justamente falta à Rainha da Prússia para lidar com os parceiros pobres do euro!

Mas depois de mais um encontro de intelectuais indianos e europeus não posso deixar de notar a diferença de atitudes face ao nacionalismo, de um e do outro lado.

O nosso nacionalismo é velado pelo manto diáfano da União Europeia : o nacionalismo indiano tem a mesma assertividade e certeza do nosso passado nacionalista romântico, que foi emancipalista primeiro e totalitário depois. Se pensarmos que o mesmo nacionalismo é sentido pelos chineses e, claro, pelos russos, começamos a perceber algum incómodo na nossa pele...

Valha-nos ser a Índia uma democracia!

Friday, April 9, 2010

A um poeta que rejeitou a sua obra


Não entres de bom modo nesta noite escura, disse outro poeta,
não entres sem deixar atroar pelas paredes todas
a violência do teu "não".

Querem sempre reduzir-nos a uma pequena frase
de resumo e simplificação,
la petite phrase qui va vers le monde plus vrai de l'art
e assim nos vem roubar toda a música do mundo,
não é isto?
Não consintas.

Se nada podemos fazer contra a estátua de pedra
ou de sal
em que nos querem transformar,
ao menos deixemos ficar o grito
dissonante
da nossa recusa,
com toda a raiva e o amor que os brutos não entendem.

E só depois morrer.


Monday, April 5, 2010

Há mais coisas no céu e na terra...


Às pequeninas traições eu não respondo:
e as grandes, essas, atiro-as para a beira da estrada,
porque logo vem uma curva
e tudo fica para trás,
sem remédio e sem lembrança.

De muitas coisas é feito o mundo.
Mais do que sabe a tua filosofia.

Bartleby, o que foi poeta (2)


Só sei responder à vida com poemas:
e a alternativa é viver a vida
sem dar por ela,

sem lhe responder, fingindo
não lhe dar troco,
esgueirando-me entre as suas voltas

para poder não escrever.
Porque se eu tivesse aprendido alguma coisa,
se eu tivesse mesmo
alguma coisa para dizer,

por certo não responderia à vida com poemas.

Friday, April 2, 2010

Um soneto de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

Ah um Soneto!!!

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

Fernando Pessoa

Thursday, April 1, 2010

Um judeu alemão (poema de Hans Magnus Enzensberger, trad M Hamburger)

karl heinrich marx

Hans Magnus Enzensberger

gigantic grandfather

jehovah-beardedon

brown daguerrotypes

i see your face in the snow-white aura

despotic quarrelsome

and your papers in the linen press:

butcher's bills

inaugural addresses

warrants for your arrest

your massive body

i see in the "wanted" book

gigantic traitor

displaced person

in tail coat and plastron

consumptive sleepless

your gall-bladder scorched

by heavy cigars

salted gherkins

laudanum and liqueur

i see your house

in the rue d'alliance

dean street grafton terrace

gigantic bourgeois

domestic tyrant

in worn-out slippers:

soot and "economic shit" *

usury "as usual" *

children's coffins

backstair calamities

no machine-gun

in your prophet's hand:

i see it calmly

in the british museum

under the green lampbreak

up your own house

with a terrible patience

gigantic founder

for the sake of other houses

in which you never woke up

gigantic zaddik

i see you betrayed by your disciples:

only your enemies remained what they were:

I see your face on the last picture of april eighty-two:

an iron mask:

an iron mask of freedom*

Quotations from Marx's letters to Engels in the 1850s and 1860s.

Tuesday, March 30, 2010

"Não te metas na vida dos outros, se não queres lá ficar"

O que eu quis dizer quando invoquei esta citação de Almada Negreiros a propósito da nossa relação de portugueses com Goa não foi de modo algum que devêssemos esquecer Goa : quis apenas dizer que não nos podemos esquecer que os goeses são outros em relação a nós . E felizmente que assim é, porque a amizade faz-se entre pessoas (pessoas, não comunidades imaginadas!) diferentes naquilo que são, comuns naquilo que partilham e iguais naquilo a que têm direito!


Quando não se respeita essa alteridade, cai-se numa promiscuidade de identificação elegíaca ou num ruminado ressentimento, digno da "moral dos escravos" (velho Nietzsche!) , que, ambos, têm de ser resolutamente esquecidos.


Não quero esquecer Goa : quero simplesmente dizer que não tenho que responder pelos sofrimentos identitários dos meus amigos goeses. As tragédias entre nós já aconteceram há muitos séculos e um judeu alemão do século XIX que eu muito admiro dizia que na História repetir as tragédias redunda sempre em farsas!


Dixi et salvavi animam meam.

Ironias e cansaços

A curiosidade deixa-se embaçar. Sei que algum cansaço pode transparecer das minhas palavras - volto-me para dentro, para tudo o que não resolvi comigo próprio, bem contra o programa aqui definido de me virar para o movimento do mundo e de fugir dos mitos da "vida interior"...

Talvez uma irritação crescente com os temas identitários/comunitários e toda essa xaropada de autenticidades e identidades de olhos em alvo me tenha feito voltar ao jardim das recordações pessoais - para descobrir plantas daninhas e pragas por curar...

A Índia não tem culpa disso - porque a Índia é um grande revelador de nós próprios. Alguns indianos doentes com a sua identidade provocaram em mim irritação e impaciência. Mas a grandeza está ali fora, ao alcance dos meus olhos : e o sofrimento identitário dessas criaturas (por muito encenado que possa ser) merece também ser tido em consideração. Como uma realidade mais.

Como um facto da vida.

Monday, March 29, 2010

Memento mori


Death is not in life

(Wittgenstein)

Eu vi morrer três pessoas:
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava de vida
ou porventura o que lhe sobrava de morte;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio,
que nunca soube a quem serviu depois.

Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez o amor.

O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer
e o amor também.

Saturday, March 27, 2010

Mother India


Nada sei de ti,
dos múltiplos tus em que te desdobras,
em que sobrevives e renasces
cada dia.


E não saber é a minha única força
face a ti.

Friday, March 26, 2010

Oliveira da Figueira : o Português no Mundo...

Estamos todos de parabéns...

Tintin Some time ago, we created a poll, asking you, the fans, which is your favourite Tintin album. After almost a thousand votes, it's time for some results! The clear winner is the wonderful "Tintin in Tibet", which was Hergé's favourite album.

Wednesday, March 24, 2010

Democracia e Nação


"Uma nação é um referendo permanente"

(Renan)

Identidades : fed up!



A constante angústia dos goeses (1 milhão num país de mil milhões) com a possível perda da sua identidade; o livro pedante de Pavan Varma, clamando pela preservação da identidade cultural da Índia neste mundo perversamente globalizado... Huntington, volta, estás perdoado!

Nunca houve identidades nacionais, culturais ou étnicas que permanecessem fixas e imutáveis na sua essência, a não ser nas cabecinhas alemãs dos senhores Herder, Spengler, Keyserling e outros mestres alemães menos recomendáveis... Até os estudos de DNA mostraram que quando os arianos invadiram a Índia já estavam geneticamente misturados!

As identidades mudam e transformam-se constantemente e as pátrias são puras escolhas políticas, como dizia o velho Renan e nos confirma Mattoso, para o nosso caso português, em Identificação de um País.

As crises identitárias são próprias dos homens do ressentimento...


Saturday, March 20, 2010

Os emergentes e os submergentes

Dizem que os asiáticos são arrogantes e estão convencidos que nos enterram com esta crise. Bom, acabo de ler um artigo brasileiro que vai no mesmo sentido : os caras acham que vão acabar por se tornar dentro da relação de forças mundial tão fortes como já são no futebol!

Uma Europa sem rumo e uma América hesitante estão a dar ilusões perigosas (para eles próprios) a estes simpáticos emergentes. Um ministro indiano dizia "se há nações emergentes, também há nações submergentes". Somos nós, a Europa.

E somos nós, europeus, os culpados deste estado de coisas : não só os PIGS ou os GYPSYS, como nos chamam agora, mas sobretudo países como a Alemanha, que acham que não é nada com eles, porque são luteranos e seguem apenas os ditames da sua consciência. Os autistas do Mundo...

Os Estados Unidos serão por muito tempo a maior força militar a nível mundial, por muitos problemas que tenham ou possam vir a ter. Onde eu vejo declínio e indecisão é na Europa. Onde eu vejo determinação, calma e estratégia fria é na China.

A Índia pode ser arrogante no coração, mas é sempre discreta e prudente na acção. O Brasil que guarde o seu entusiasmo para a Copa e continue a trabalhar bem, que tem ganho muito, muito mesmo, em termos de posicionamento internacional : não precisa de fazer mais espalhafato...

Só me atrevo a dizer isto pela profunda amizade que tenho pelo Brasil (e sobretudo pelos brasileiros, porque, como disse, não há afectos por nações, só há afectos por pessoas)!

Friday, March 19, 2010

Violação consentida

Foi num dos primeiros encontros que tive na Índia. Câmara do Comércio de Bombaim, casa cheia.
A certa altura levanta-se um senhor exaltado que pergunta como ousam os portugueses vir fazer negócios com a Índia, depois dos crimes, massacres, perseguições e opressões que tinham exercido sobre o martirizado povo de Goa .
Respondi-lhe perguntando como justificava ele então o volume de negócios que a Índia mantinha com o Reino Unido.
Abrindo um sorriso de gozo profundamente libidinal, retorquiu-me o senhor : "O meu caro embaixador nunca ouviu falar em violações consentidas?"

Bangalore

Bangalore foi uma surpresa : um ambiente cultural cosmopolita e aberto, o gosto indiano pela discussão sem limites, gente interessante e interessada.

Ainda bem que aceitei vir ao "Encontro Cultural Indo - Português", promovido pelo Instituto Camões de Goa, com o José Luís Peixoto, duas exposições de cartazes e a nossa fadista goesa... É o que podemos oferecer! Mas a conversa tem valido a pena (o papo está bom, como dizem os brasileiros). Escritores, antigos embaixadores, pintores, músicos... De Karnataka, de Bombaim, do Gujarate. E os goeses, sempre uma presença amiga e solidária, sobretudo fora de Goa...

É bom encontrar estes goeses e ouvir o gosto com que falam português! Respeito-os e estimo-os profundamente. Só não quero, como nunca quis, ficar na vida deles...

Wednesday, March 17, 2010

Esquecer a Índia



É muito difícil esquecer a Índia : ela transformou-nos sem nos ensinar, deu-nos uma nova dimensão das coisas sem nos preparar. Tudo aqui foi abrupto e contingente.

Aprendo cada dia o melhor e o pior do ser humano aqui na Índia. A grandeza da humanidade passa também pela sua barbárie, miséria e derisão. Nós caminhamos radiosos sobre a nossa miséria (Hoelderlin).

E é toda a riqueza do mundo que passa agora por aqui, com o seu terrível cortejo de miséria atrás...


Tuesday, March 16, 2010

A propósito do "Toldo Vermelho" de J M Magalhães


Eu compreendo o movimento que leva alguém a querer destruir a sua obra : a obra é algo que ficou para trás de nós, que se tornou independente de nós, que se cola à nossa pessoa até ao âmago, sem nos deixar margem nem respiração...

Quem quer continuar a ser, tem que rejeitar todo o peso de uma obra que o amarra para sempre a uma identidade única.

Todos somos múltiplos ao nascer e únicos na morte, dizia Heidegger.

Alguns não querem tornar-se únicos. Alguns não querem morrer.

N.B. Quando digo que compreendo não quero dizer que propugno. Não me vejam a gritar: Poetas, destruam as vossas obras. Apenas gosto de compreender. E mais ainda aqueles com quem não simpatizo.

Monday, March 15, 2010

O que as boas almas nunca entenderão

"Toda a obra de civilização é ao mesmo tempo uma obra de barbárie"

(Walter Benjamin)

Reflexões intempestivas

Qual é o mecanismo da desilusão?

Lembram-se de "Un Amour de Swann": o protagonista pergunta-se como pôde passar anos da sua vida absorvido numa paixão extrema por "quelqu'un qui n'était même pas son genre"...

Só temos desilusões quando deixámos criar ilusões de afecto. Ora os afectos só existem entre pessoas singulares. Entre povos e colectividades em geral rege a máxima de ouro dos diplomatas : não há amigos, há interesses; não há inimigos permanentes, há situações objectivas e relações de forças.

Não há povos amigos nem povos inimigos (lembrar a boutade de Pavese, em 1940 : as mulheres são um povo inimigo, como o povo alemão). Pode haver povos irmãos ou primos, mas não povos amigos, só porque a família, ao contrário da amizade, não se escolhe.

Tudo o resto é contingência. A História é contingência.

Saturday, March 13, 2010

Escrito em Goa

Amar algo em geral é sempre um mau começo para a compreensão das coisas e dos seres!
Erico Veríssimo dizia, com carradas de razão : não amo povos, nem pátrias, nem terras : só amo pessoas, pessoas concretas e únicas!

As Caves do Vaticano

Artigo do eminente historiador goês, residente em Portugal, Teotónio de Souza, num jornal de Goa : propõe a criação de um Museu da Inquisição em Goa, para contrapôr ao Museu de Arte Sacra Indo - Portuguesa...

O que eu mais admiro na Igreja Católica é a sua profunda vontade de não deixar que sejam esquecidas as grandes instituições que historicamente criou.

Já a sua tradição medieval auto-flagelante, que persevera ainda hoje nos cilícios, confesso que me atrai menos...

Mas fala um pobre pecador!

Aditamento : O Professor Teotónio de Souza escreve-me a esclarecer que já não é padre.

Esse esclarecimento esvazia de facto a ironia contida neste comentário, que se liga com considerações atrás feitas neste blog sobre a culpabilidade colonial e o seu aproveitamento ideológico.

O autor deste blog foi membro em 1970 dos Comités de Luta Anti Colonial e defenderia sem reservas a criação de um Museu da Inquisição em Lisboa. Quanto a Goa, os goeses que decidam.



Regresso a Goa

Condecorar ontem Mário Miranda na sua casa de Loutulim foi uma honra e uma alegria rara e conto a amizade do Mário e da Habiba entre os mais caros privilégios que eu e a Margarida ganhámos na vida.

13/3/2010

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro

Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento