Wednesday, April 21, 2010
Parce que ça me plaît...
O canto da terra (2)
e a guerra o estado natural,
a natureza não nos oferece paz
nem nos dá nada sem preço.
Nós não somos o que nega a natureza:
a ela pertencemos inteiros,
bem como à morte.
O que nos faz diferentes é sermos a única espécie
que sabe que vai morrer.
Tuesday, April 20, 2010
O canto da terra
Sunday, April 18, 2010
O jogo da guerra : fronteira indo-paquistanesa de Wagah
Dos dois lados da fronteira enchem-se as bancadas em anfiteatro: "Hindustan" gritam deste lado; "Pakistan" respondem do outro lado.
Começa então o desafio com grupos de crianças e suaves raparigas correndo em direcção à cancela fechada, empunhando a bandeira indiana e sorrindo de alegria : ao aproximarem-se da barreira, o soldado indiano manda-os recuar, com ar severo; mas logo vêm outros, mais e mais crianças e jovens, todos desfraldando a bandeira da Índia em direcção ao Paquistão...
Entretanto, do outro lado, velhos barbudos e honrados correm pela parada agitando a bandeira do Paquistão, a multidão entoa hinos patrióticos e os tocadores de tambor executam o seu número frenético : mas tudo acaba por ser abafado pela musica de Bollywood que sai dos altifalantes do lado indiano...
As jovens e os jovens do lado de cá começam então a dançar, numa verdadeira "disco border party", que culmina no "Jai Ho", uma dança de festa juvenil e de desafio trocista aos paquistaneses, que continuam a agitar o tambor, a cantar os hinos e a animar os velhinhos barbudos a continuar a correr com as suas bandeiras.
Surgem então os apupos e os dichotes entre as duas "claques" (a ideia do estádio é imediata) e um concurso entre um lado e o outro para ver quem consegue manter mais alto e mais tempo o seu grito de guerra...
O "Vande Mataram", hino da Índia hindu (não o hino nacional) irrompe então da bancada do lado de cá. Famílias entoam gritos patrióticos. Todos parecem satisfeitos com o que estão a fazer.
Vemos do outro lado alguns colegas diplomatas acreditados no Paquistão : acenamo-nos e sorrimos.
Postos que estão frente a frente os dois valorosos campos, tocam então as trombetas de uns e outros. Os jovens bailarinos do lado de cá e os velhos porta-bandeiras do lado de lá são mandados sair de cena, rispidamente. E têm lugar então as cerimónias militares.
Soldados de um lado e do outro avançam em passo de ganso para a cancela, logo voltando para trás, porque a fronteira só é aberta em dois momentos : no primeiro, um soldado indiano e um soldado paquistanês fixam-se muito tempo de pé, frente a frente, olhos nos olhos (mas não conseguem disfarçar a sua preocupação essencial com a compostura das respectivas fardas...); no segundo momento, há uma espécie de baile ritual entre os soldados (baile feito, entenda-se bem, apenas do cruzamentos das duas marchas), que termina com o alinhamento de todos os militares, o toque do arrear das bandeiras e a descida simultânea, lenta e solene, dos dois pavilhões...
Do cimo do anfiteatro, do outro lado, a fotografia oficial de Ali Jinnah olha para todos nós, com aquele olhar altaneiro e trágico, que hoje sabemos ser o de um homem consciente de que ia morrer em breve (dois meses), mas que só morreria depois de ter conseguido criar o seu Estado!
O oficial indiano e o oficial paquistanês apertam a mão. Terminou a cerimónia. "Este ano correu bem" comenta o meu amigo indiano "não houve muitos insultos vindos das bancadas. Bom sinal". De facto, a cerimónia é de uma inesperada bonomia. Mas é de guerra que se trata : dois predadores a rugir um para o outro, mesmo que sob a forma de gentis meninas a dançar o "Jai Ho"...
Thursday, April 15, 2010
Lendas da Índia : Amritsar, fronteira com o Paquistão
Tuesday, April 13, 2010
Patriotismos, nacionalismos, pós-nacionalismos
Friday, April 9, 2010
A um poeta que rejeitou a sua obra
Monday, April 5, 2010
Há mais coisas no céu e na terra...
Bartleby, o que foi poeta (2)
Friday, April 2, 2010
Um soneto de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...
No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...
Fernando Pessoa
Thursday, April 1, 2010
Um judeu alemão (poema de Hans Magnus Enzensberger, trad M Hamburger)
karl heinrich marx
Hans Magnus Enzensberger
gigantic grandfather
jehovah-beardedon
brown daguerrotypes
i see your face in the snow-white aura
despotic quarrelsome
and your papers in the linen press:
butcher's bills
inaugural addresses
warrants for your arrest
your massive body
i see in the "wanted" book
gigantic traitor
displaced person
in tail coat and plastron
consumptive sleepless
your gall-bladder scorched
by heavy cigars
salted gherkins
laudanum and liqueur
i see your house
in the rue d'alliance
dean street grafton terrace
gigantic bourgeois
domestic tyrant
in worn-out slippers:
soot and "economic shit" *
usury "as usual" *
children's coffins
backstair calamities
no machine-gun
in your prophet's hand:
i see it calmly
in the british museum
under the green lampbreak
up your own house
with a terrible patience
gigantic founder
for the sake of other houses
in which you never woke up
gigantic zaddik
i see you betrayed by your disciples:
only your enemies remained what they were:
I see your face on the last picture of april eighty-two:
an iron mask:
an iron mask of freedom*
Quotations from Marx's letters to Engels in the 1850s and 1860s.
Tuesday, March 30, 2010
"Não te metas na vida dos outros, se não queres lá ficar"
Quando não se respeita essa alteridade, cai-se numa promiscuidade de identificação elegíaca ou num ruminado ressentimento, digno da "moral dos escravos" (velho Nietzsche!) , que, ambos, têm de ser resolutamente esquecidos.
Não quero esquecer Goa : quero simplesmente dizer que não tenho que responder pelos sofrimentos identitários dos meus amigos goeses. As tragédias entre nós já aconteceram há muitos séculos e um judeu alemão do século XIX que eu muito admiro dizia que na História repetir as tragédias redunda sempre em farsas!
Dixi et salvavi animam meam.
Ironias e cansaços
A curiosidade deixa-se embaçar. Sei que algum cansaço pode transparecer das minhas palavras - volto-me para dentro, para tudo o que não resolvi comigo próprio, bem contra o programa aqui definido de me virar para o movimento do mundo e de fugir dos mitos da "vida interior"...
Talvez uma irritação crescente com os temas identitários/comunitários e toda essa xaropada de autenticidades e identidades de olhos em alvo me tenha feito voltar ao jardim das recordações pessoais - para descobrir plantas daninhas e pragas por curar...
A Índia não tem culpa disso - porque a Índia é um grande revelador de nós próprios. Alguns indianos doentes com a sua identidade provocaram em mim irritação e impaciência. Mas a grandeza está ali fora, ao alcance dos meus olhos : e o sofrimento identitário dessas criaturas (por muito encenado que possa ser) merece também ser tido em consideração. Como uma realidade mais.
Como um facto da vida.
Monday, March 29, 2010
Memento mori
Saturday, March 27, 2010
Mother India
Friday, March 26, 2010
Estamos todos de parabéns...
Tintin Some time ago, we created a poll, asking you, the fans, which is your favourite Tintin album. After almost a thousand votes, it's time for some results! The clear winner is the wonderful "Tintin in Tibet", which was Hergé's favourite album.
Wednesday, March 24, 2010
Identidades : fed up!
Saturday, March 20, 2010
Os emergentes e os submergentes
Uma Europa sem rumo e uma América hesitante estão a dar ilusões perigosas (para eles próprios) a estes simpáticos emergentes. Um ministro indiano dizia "se há nações emergentes, também há nações submergentes". Somos nós, a Europa.
E somos nós, europeus, os culpados deste estado de coisas : não só os PIGS ou os GYPSYS, como nos chamam agora, mas sobretudo países como a Alemanha, que acham que não é nada com eles, porque são luteranos e seguem apenas os ditames da sua consciência. Os autistas do Mundo...
Os Estados Unidos serão por muito tempo a maior força militar a nível mundial, por muitos problemas que tenham ou possam vir a ter. Onde eu vejo declínio e indecisão é na Europa. Onde eu vejo determinação, calma e estratégia fria é na China.
A Índia pode ser arrogante no coração, mas é sempre discreta e prudente na acção. O Brasil que guarde o seu entusiasmo para a Copa e continue a trabalhar bem, que tem ganho muito, muito mesmo, em termos de posicionamento internacional : não precisa de fazer mais espalhafato...
Só me atrevo a dizer isto pela profunda amizade que tenho pelo Brasil (e sobretudo pelos brasileiros, porque, como disse, não há afectos por nações, só há afectos por pessoas)!
Friday, March 19, 2010
Violação consentida
A certa altura levanta-se um senhor exaltado que pergunta como ousam os portugueses vir fazer negócios com a Índia, depois dos crimes, massacres, perseguições e opressões que tinham exercido sobre o martirizado povo de Goa .
Respondi-lhe perguntando como justificava ele então o volume de negócios que a Índia mantinha com o Reino Unido.
Abrindo um sorriso de gozo profundamente libidinal, retorquiu-me o senhor : "O meu caro embaixador nunca ouviu falar em violações consentidas?"
Bangalore
Bangalore foi uma surpresa : um ambiente cultural cosmopolita e aberto, o gosto indiano pela discussão sem limites, gente interessante e interessada.
Ainda bem que aceitei vir ao "Encontro Cultural Indo - Português", promovido pelo Instituto Camões de Goa, com o José Luís Peixoto, duas exposições de cartazes e a nossa fadista goesa... É o que podemos oferecer! Mas a conversa tem valido a pena (o papo está bom, como dizem os brasileiros). Escritores, antigos embaixadores, pintores, músicos... De Karnataka, de Bombaim, do Gujarate. E os goeses, sempre uma presença amiga e solidária, sobretudo fora de Goa...
É bom encontrar estes goeses e ouvir o gosto com que falam português! Respeito-os e estimo-os profundamente. Só não quero, como nunca quis, ficar na vida deles...
Wednesday, March 17, 2010
Esquecer a Índia
Tuesday, March 16, 2010
A propósito do "Toldo Vermelho" de J M Magalhães
Monday, March 15, 2010
O que as boas almas nunca entenderão
Reflexões intempestivas
Lembram-se de "Un Amour de Swann": o protagonista pergunta-se como pôde passar anos da sua vida absorvido numa paixão extrema por "quelqu'un qui n'était même pas son genre"...
Só temos desilusões quando deixámos criar ilusões de afecto. Ora os afectos só existem entre pessoas singulares. Entre povos e colectividades em geral rege a máxima de ouro dos diplomatas : não há amigos, há interesses; não há inimigos permanentes, há situações objectivas e relações de forças.
Não há povos amigos nem povos inimigos (lembrar a boutade de Pavese, em 1940 : as mulheres são um povo inimigo, como o povo alemão). Pode haver povos irmãos ou primos, mas não povos amigos, só porque a família, ao contrário da amizade, não se escolhe.
Tudo o resto é contingência. A História é contingência.
Saturday, March 13, 2010
Escrito em Goa
Erico Veríssimo dizia, com carradas de razão : não amo povos, nem pátrias, nem terras : só amo pessoas, pessoas concretas e únicas!
As Caves do Vaticano
O que eu mais admiro na Igreja Católica é a sua profunda vontade de não deixar que sejam esquecidas as grandes instituições que historicamente criou.
Já a sua tradição medieval auto-flagelante, que persevera ainda hoje nos cilícios, confesso que me atrai menos...
Mas fala um pobre pecador!
Regresso a Goa
13/3/2010
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

