Tuesday, March 9, 2010

Ainda Calcutá


Agora entendo porque amo Calcutá, cidade que nada faz para nos seduzir : gosto de Calcutá exactamente pelas mesmas razões por que Pavan Varma detesta Calcutá!

Calcutá é uma cidade indiana que se apropriou do legado ocidental, o trabalhou, entrosou e soube criar nessa síntese (com antagonismos, claro, estas coisas não são feitas de harmonia!) uma cultura rica e produtiva.

O bengali e o urdu são as duas grandes línguas literárias da Índia, as línguas de Tagore e de Ghalib: será duro para alguns hindus ouvir isto, mas é verdade...

Nalgumas coisa, Calcutá (tão diferente!) lembra-me Goa.

A Índia será múltipla ou não será. Compreendo que os inimigos da Índia não a queiram múltipla. Não compreendo esse leque ideológico que vai de Pavan Varma ao Hindutva...

Visita a uma escola


Visita a uma escola primária na periferia de Deli, onde algumas ONGs indianas apoiadas pela União Europeia festejam o Dia da Mulher.

As crianças desenharam algumas figuras da opressão das mulheres e não esqueceram o sati (suicídio ritual das viúvas na pira funerária do marido).

Uma criança explica-me que ainda é preciso lutar contra o sati (abolido e proibido desde o século XIX), porque in some villages inside our country, sir, have you read recently in the papers...?

Lembro-me que a proibição do sati se deveu muito a homens como Raja Ramun Roy e aos seus companheiros do Brahmo Saj, os mesmos que Pavan Varma e Ashis Nandy acusam de terem desfigurado e ocidentalizado a Índia em benefício dos colonizadores...

Não digo que estes senhores pós-coloniais defendam o sati ou a excisão (em África). Não quero ser demagógico. Mas a gente tem tendência para ligar as coisas...


O jargão da autenticidade


Percorrer o último livro de Pavan Varma fez-me lembrar esta velha expressão, com que Adorno criticava Heidegger. Confesso que ao ler todas as suas profissões de fé anti-ocidentais, anti- língua inglesa e pró-autenticidade hindu (o que é?) me ocorreu, ainda menos piedosamente, a philosophie de l'authenticité africaine defendida pelo falecido Presidente Mobutu Sese Seko.

A identité française de Eric Besson provoca-me, aliás, exactamente a mesma reacção. Mas como dizia o poeta Couto Viana

sou avestruz,
sou ave bem educada!

e mais não digo, portanto.

(Pavan Varma, Becoming Indian, Delhi, 2010)

O regresso das caravelas, agora como farsa


Voltaremos a estas praias
num dia claro como a pedra de onde vimos,
voltaremos a estas praias
sem vos pedirmos desculpa
nem louvores.

Voltaremos a estas praias,
tão pobres como viemos daquela terra,
voltaremos a estas praias
só para continuarmos
uma conversa antiga.

A História repete-se, primeiro
como tragédia
e mais tarde como farsa.
Leram o vosso Marx?
Ou esse judeu era demasiado eurocêntrico
para vocês?

Sunday, March 7, 2010

Questão de método



O livro será feito na sua maior parte do que irá escrito neste blog... mas, como é evidente, a sua montagem, os andaimes, o cimento, as junturas, tudo isso será feito por fora, cá atrás, no back office.

Ouso invocar a protecção de Ganesha!

Lendas da Índia



A praia onde mandaram fundear os barcos de Vasco da Gama fica a uma dezena de quilómetros de Calicute e longe do lugar onde os ingleses mandaram edificar uma medonha pirâmide comemorativa. Segundo o historiador indiano que nos acompanhava, foi ao largo dessa praia que Gama esperou durante dias a resposta do Samorim ao seu pedido de audiência.

Na praia havia uma barraquinha de gelados e refrescos e meia dúzia de rapazes a apanhar mariscos. Uma mesquita a encimar o morro a recordar a continuação da História. Ninguém na praia. Algumas mulheres de véu, com crianças agarradas aos joelhos. E avançámos então por cima das rochas para ver a praia, deserta e branca, onde naquele tempo se cruzaram embarcações e se marcaram encontros.

Tive menos dificuldade em encontrar o descendente do Samorim, um suave aristocrata intelectual, dono de um colégio privado da melhor reputação. Com o bispo, o imã muçulmano e o deputado do Indian Congress Party, recordei o medo de Vasco da Gama de se acolher aqui em pousada alheia e a confusão que fez ao julgar ver igrejas cristãs nos templos hindus...

Começaram aqui as lendas da Índia. Este é, ou quer ser, apenas um livro de aprendizagem. Porque somos sempre aprendizes na Índia. Mas o que a Índia nos dá é tão somente tudo o que em nós estava adormecido ou esquecido e que ela nos soube fazer reencontrar. Se é certo que nunca entendi bem o que era ser português antes de viver no Brasil, ousaria hoje dizer (com alguma pretensão) que na Índia aprendi a entender mais o que é ser-se humano. E vem-me à memória um verso de Jorge de Sena : isto que é ser-se humano passo a passo mais.

Começam aqui as Lendas da Índia.


O soluço do homem branco...


É interessante que um marxista crítico como Slavoj Zizek retome a crítica feita em tempos por Pascal Bruckner contra a culpabilidade colonial da Europa.

Não se trata de reabilitar, justificar ou dourar o colonialismo : trata-se simplesmente de nos darmos conta que atribuir todos os males do Mundo à Europa (e os norte-americanos souberam utilizar em seu proveito esta culpabilidade europeia, como bem notou Perry Anderson) é apenas uma forma perversamente narcisista de ficcionarmos que a Europa continua a ser o centro do Mundo, ideia que há muito deixou de passar pela cabeça do resto do Mundo...

Nos stigmatisations bruyantes ne servent qu'à masquer cette blessure d'amour-propre: nous ne faisons plus la loi, como observava pertinentemente Bruckner (La Tyrannie de la pénitence : essai sur le masochisme occidental, 2006).

Sobre este assunto, vale a pena ler as muito estimulantes e pertinentes reflexões do goês Jason Keith Fernandes no seu blog dervishnotes.blogspot.com/.

Uma pedra no charco da nossa boa consciência colonial e anti-colonial (vejo-as como duas faces da mesma moeda) foi o livro de Isabela Figueiredo, que aqui já mencionei.

Continuo a considerar o nosso grande livro pós colonial O Esplendor de Portugal de António Lobo Antunes...


Saturday, March 6, 2010

Profilaxias : Regra de Jogo Nº 1



"Par conséquent, une des façons de pratiquer la critique de l'idéologie est d'inventer des stratégies pour démasquer cette hypocrisie de la "vie intérieure" et des émotions "sincères" qui y sont attachées. L'expérience que nous avons de nos vies à partir du dedans, l'histoire que nous nous racontons sur nous mêmes afin de rendre compte de ce que nous faisons, est donc un mensonge - la vérité se situe plutôt au dehors, dans ce que nous faisons."

Slavoj Zizek, Après la Tragédie la Farce ou comment l'Histoire se répète, Flammarion, 2010

(ou se preferirem, First As Tragedy, Than As Farce, Verso, 2009)

Continuar

Essayer encore. Rater encore. Rater mieux.

Samuel Beckett, Cap au pire

Friday, March 5, 2010

Michael Foot (1913 - 2010)

" Men of power have no time for read, yet the men who do not read are unfit for power"

Wednesday, March 3, 2010

A religião do meu tempo



Sim, meus caros, é mágoa, é desalento
e se uma leitora ao menos der por isso,
vale a pena a gente fingir
o que deveras sente.

Os toldos vermelhos fecharam-se nas praias.
Faltam homens sem qualidades.
Já todos nós entendemos
que acabou um tempo.

Acabou o seu tempo,
dizia-me o psicanalista, lá nos anos 70,
a acordar num bocejo e a olhar para o relógio.


Tuesday, March 2, 2010

Tirei da gaveta o Ezra Pound...



Porque só permanecerá aquilo que amaste
e o resto é escória,
de mim nada pergunto nem escondo.
É só em ti e nos seres e nos lugares que amei
que poderei alguma vez saber
o que quis dizer passar por aqui.

Saturday, February 27, 2010

A Medusa Índia (2)


Quando eu cheguei a ti, era tão tarde:
o mundo meio percorrido, a tua estranheza longe
das minhas interrogações...

Agora és a minha obsessão,
o enigma que eu não consigo decifrar,
a Esfinge que está entre mim e essa parte de mim
que passou a pertencer-te,
todas as perguntas para que não tenho resposta.

Medusa,
só de olhar para ti
as palavras secam
no seu deserto...

Calcutá : alguém que sente como eu



(...) And yet I find that for some initially inexpressible reason, I cannot stop feeling an intense fondness for the place
(Calcutá), and I still puzzle over exactly why that might be.

Simon Winchester, Calcutta, Lonely Planet, 2004


Da desgraça de ser latino, católico e moreno...



Lord Megnad Desai é um eminente académico indiano (nascido no Gujarate), que, depois de uma brilhante carreira nos Estados Unidos e na Inglaterra, se tornou cidadão britânico, político trabalhista e actualmente membro da Câmara dos Lordes. Tem uma casa de férias em Goa, reconhece com lucidez (o que não é frequente) a identidade própria dos goeses e aquilo a que chama a "dificuldade de integração" de Goa na narrativa nacionalista indiana, mas a sua opinião dos portugueses não é brilhante:

The Portuguese Empire lasted twice as long as the British in India, but the modernizing effects of the latter were sadly missing in the former. This is because the Enlightenment did not affect the Catholic kingdoms of Iberia the way it did Britain and France. Even among imperialisms there are differences.

Dito de outra maneira, a civilização acaba nos Pirinéus, como finamente notava um autor francês do século XVIII...

No Brasil, nos anos 40 e 50, autores como Sérgio Buarque de Hollanda, Vianna Moog e Raymundo Faoro consideravam a colonização ibérica a raiz das desgraças e atrasos da América Latina e da sua inferioridade face aos norte-americanos, brancos, anglo-saxões e protestantes...

E hoje somos PIGS...

Friday, February 26, 2010

Calcutá

Sensação de que esta é a minha cidade na Índia : a mais culta e a mais determinada, a mais aristocrata e a mais miserável, sobretudo aquela que menos se importa connosco . Que nos não quer seduzir nem atrair.

Invenção minha?

Ainda o Oberoi de Calcutá

É rigorosamente proibida qualquer gorjeta; cobram a internet exactamente pelo nosso tempo de utilização, sem extrapolações. As malas chegam ao quarto em dois minutos.

Não há sorrisos nem lisonjas : só o essencial da cortesia.

Estamos na Índia?

Thursday, February 25, 2010

Calcutá : I like it here

É-nos familiar esta frieza de Calcutá : estamos longe da exuberante e barroca hospitalidade indiana! Somos tratados no Oberoi como num hotel de Paris ou de Berlim - com uma polida e burocrática indiferença, sem "namastés" nem grinaldas de flores...

Estamos em casa. Algo de profundamente europeu se misturou aqui com a Índia - não já a latinidade de Goa, mas o desencantamento do Mundo trazido pela nossa modernidade...

Compreendo agora Ashis Nandy quando ele diz que o Brahmo Saj (o movimento religioso de sincretismo ocidental - oriental aqui fundado e cujo prosélito mais eminente foi Tagore) abriu o caminho ao secularismo e ao distanciamento do religioso por parte da élite indiana... Eu visitei aqui o templo de Ramakrishna e li os textos de Vivekananda : é uma religiosidade diluída e baça, tão longe do som e da fúria de Benarés! Mas ao contrário de Ashis Nandy, eu gosto mesmo disto. Porque aqui nasceu a Índia moderna. Mesmo que nos tratem nos hotéis com esta indiferença gelada que é apanágio e glória do nosso laicismo. I like it here...

Tuesday, February 23, 2010

Canções do exílio : Brasil



É o mais difícil para mim.
Como falar de quem amamos por nos não amar
quando mais nos ama?
Nunca saímos dessa encabulação,
antes de uma boa gargalhada, de um chope ou de uma cachaça:
antes de chegarmos a entender que rir é toda a metafísica em acto.



"Conversa à beira do Ganges"

"A morte faz parte da vida
e espera-nos, com o sorriso aberto" ;
mas isso, meu caro amigo, não precisava de vir aprender à Índia:
você leu esse poema no Rilke, não leu?


Reparou na festa com que atiramos os deuses para o rio?
Morrer é passar a curva da estrada, mas reincarnar não é a perfeição,
é continuar a aventura sem fim do karma. Por isso
morrer no Ganges (dizem) pode ser a libertação.
E assim não serás reincarnado. Bom golpe!


O seu Deus incarnou só uma vez, não foi?
Pouca coisa, para os nossos padrões...
É certo que os nossos deuses não pretendem
redimir a Humanidade,
mas prestam aqueles serviços humanos que vocês passaram para os santos
e acreditem que isso vale muito mais para o homem comum
do que a grandeza da vossa Redenção!


Bebi demais, sweetie? O nosso amigo português
acompanha-nos com vinho... One for the road!

Monday, February 22, 2010

Uma infância em Deli (2)



E os portugueses, sabes,
eram aquela imagem de um homem de barbas compridas
com um chapéu bicudo,
que abria no nosso manual de História o capítulo chamado
"A era de Gama".

(Já não está na moda!)


Uma infância em Deli



E de noite sentíamos a respiração do deserto,
os lençóis molhados sobre os nossos corpos,
deitados no chão do terraço da casa nova.

Ouvíamos chacais.
Mas muito longe.

Momento

Em momentos assim é mais difícil:

não dá para disfarçar o peso do mundo.

A angústia enrola-se na garganta como um agasalho usado,

e há toda uma vida (que pretensão!) a clamar por dentro

"porque me abandonaste?".

Em momentos assim é mais difícil

fingir que só se está a escrever um poema.

Sunday, February 21, 2010

Opiário ou o Sentimento de um Desoriental...

( ... )

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?


( ... )


Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Se ao menos eu por fora fosse tão

Interessante como sou por dentro!

Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.

Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...


( ... )



Do Senhor Engenheiro Álvaro de Campos, de regresso da Índia

1498: Modernidade do Samorim

Não causou estranheza ao Samorim que o Gama usasse com ele o verbo "descobrir":
tinham menos sensibilidade colonial aqueles reis
e o "olhar antropológico" era para eles uma questão de mercado.


É verdade que o verdadeiro mundo colonial só veio depois.
Subrahmanyam estranha que o Samorim tenha deixado o Gama dizer
que viera "descobrir" aquelas terras, de todos conhecidas,
e insinua confusão dos tradutores árabes.


Mas o Samorim pensava
que estava tanto a descobrir aquela gente como a nossa gente
o estava a descobrir a ele.
O comércio tinha que crescer
e a concorrência era proveitosa.
Não era nem um combatente da liberdade nem um leal colonizado:
era o Samorim!



Damão : aproveitamentos políticos...

Já o ter dançado o Malhão, Malhão, na companhia do deputado do BJP por Damão, pode ter constituído um óbvio aproveitamento político, uma forma deste partido hindu radical mostrar a sua amizade pelo eleitorado católico e indo-português; mas a prontidão com que o representante do Partido do Congresso em Damão se veio juntar a nós no palanque, mostrou que o adversário político está atento e cultiva o mesmo eleitorado...

Difícil será dizer qual de nós três dançou melhor ... e as gargalhadas subsequentes do público não foram um indicador suficientemente claro neste sentido!

Calicute, 512 anos depois...

Se Vasco da Gama veio encontrar em Calicute a benevolência (algo condescendente) dos hindus e a hostilidade compreensível dos muçulmanos, este modesto representante da soberania portuguesa, 512 anos depois, foi convidado de honra da cerimónia de inauguração da reconstruída Catedral de Calicute (obra financiada, por certo, pela Fundação Calouste Gulbenkian ...), na presença, além naturalmente do Arcebispo e dos Bispos da Igreja Católica local, do Samudri Raja, descendente directo do Samorim (de profissão professor, sendo proprietário e director do melhor colégio privado da cidade), do líder religioso muçulmano e do deputado do Partido do Congresso (hindu). As religiões unidas - porém...

Não cometi qualquer ingerência na vida política local, mas a ausência na cerimónia de qualquer autoridade estadual ou municipal do Partido Comunista (que governa o estado do Kerala) pareceu-me significar um aproveitamento político do evento (de que ninguém, obviamente, me falou nem me fez qualquer referência) por parte da recente aliança política cristã - muçulmana - Partido do Congresso (o BJP praticamente não existe no Kerala) contra os comunistas, que há vinte anos governam o Kerala (com as melhores taxas de literacia e mortalidade infantil da Índia, mas com graves carências no investimento).

O resultado eleitoral das legislativas gerais , que pouco tempo antes tinham tido lugar, constituíra de facto uma pesadíssima derrota para o PC do Kerala; mas até às próximas eleições estaduais, o governo comunista continuará a exercer o poder no estado com toda a legitimidade...

Não foi só Vasco da Gama que se viu metido no meio de conflitos locais ... com a diferença que, estando nós aqui numa democracia, a minha neutralidade diplomática saíu perfeitamente limpa e isenta e os aproveitamentos políticos subsequentes ficarão para quem os fizer!

Saturday, February 20, 2010

Aos leitores, se houver...

É muito tarde; gostava de saber
qual é o livro que quero que aconteça.
Alguma vez o sabemos de antemão?

O trabalho sobre o acontecimento,
a atitude séria de pensar
vão esbarrar nas vozes múltiplas, nos atalhos improváveis,
nas falas entrecortadas,
nos caminhos que cortam outros caminhos,
nisto que em toda a parte nos solicita e efabula.

Não tereis a Índia pensada
nem sequer sonhada:
lendas da Índia, eu vos disse.
Lembrança e memória
dos bens e males passados.


Lendas da Índia

A ideia de trabalhar num livro a partir das notas, artigos e poemas publicados neste blog tem sempre permanecido enquanto horizonte de possibilidade, que deu talvez alguma consistência ao que aqui se foi escrevendo.
Octavio Paz, sabedor fino e profundo das coisas da Índia, intitulou o seu livro Vislumbres de la India : Vislumbrar: atisbar, columbrar, distinguir apenas, entrever. Vislumbres : realidades percibidas entre la luz y la sombra - explica e define. Essa Índia que entrevemos de luzes e de sombras é a mesma que se nos dirige, assertiva e barroca, floreada e dialéctica, nos mercados de rua ou nos mais sofisticados debates académicos?
E será esta Índia política a mesma que o nosso ressabiado goês anti-brâmane Moniz Barreto descrevia em 1888 como dotada de essa faculdade superior, que é a essência do génio político, isto é, o dom de ver num relance um coração inteiro e muitos corações com seus vícios e virtudes, forças e fraquezas, e o partido que pode tirar de cada um destes elementos uma inteligência habituada a servir-se das almas como das peças de uma máquina?
É uma ousadia escrever sobre a Índia. Mas não será sempre uma ousadia impensável o acto de escrever?
Um poeta de língua telugu (aqui traduzido para inglês) não teve dúvida em responder:
Blank white paper
is more important
than what I write now.
My poetry
is in the white spaces between the words.
(Nara, pseudónimo de Velcheru Narayana Rao, nascido em 1932, autor de When God is a Customer, publicado em 1994)
Mas sem pretender a plenitude em branco do papel (ou da tela do computador) que la blancheur défend, como igualmente dizia Mallarmé, sente quem aqui escreve (e sentirá quem lê?) a necessidade de organizar este material. Mas mais do que organizar : de desenvolver observações, de afinar descrições e, sobretudo, de não ter medo de pensar.
Por isso não teremos vislumbres, como na inteligência poética de Paz, mas lendas, como na narrativa do nosso Gaspar Correia : Nenhuma cousa desta vida humana he tão aproueitiuel aos viuentes que lembrança e memoria dos bens e males passados (Aos Senhores Letores, Lendas da Índia).
De lembrança e de memória de bens e de males se há-de fazer esse livro que virá... Virá?