Monday, May 9, 2011

Um poema deVasco Graça Moura

ELEGIA BREVE À POESIA

fugitivo passar pela retina,
no virar de uma esquina ou de um silêncio,
a tua ausência é este ensombramento,

porém que a despedida seja breve
e que voltes com um relâmpago, um
desvendar-se do mundo entrecortando

dobras desamparadas do real.
e eu pergunto: que vozes do crepúsculo
se apagavam então? talvez o vento

agitasse tristezas na folhagem,
e esse fosse o frémito dos seus
melancólicos sinais rumurejando,

ou talvez fosse a cama de um hospital
e o branco desolado das paredes
e a mudez de estranhos aparelhos,

ou talvez fosse o próprio esquecimento
de que irias voltar, ou resvalar
numa lenta passagem de tercetos.

[in Revista Relâmpago n.º 27, com data de Outubro de 2010, mas distribuída agora]

(copiado do blog do João Mário Silva, com as minhas desculpas)

Sunday, May 8, 2011

Mitterrand : eleito Presidente no dia 10 de Maio de 1981


Jean Daniel, hoje, sobre Mitterrand:

"Je l'ai vu un mois avant sa mort. Je lui ai demandé si depuis l'affaire Bousquet des amis ne venaient plus le voir. "Cher Jean Daniel, les amis qui cessent d'être vos amis, quelle que soit la raison, ne devraient pas être vos amis"."

Saturday, May 7, 2011

Conversa


É estranho, dizes, voltar a habitar a terra
e reaprender antigos costumes :
pedaços de conversa cortados,
interpelações sem destino,
música a perder-se
é só isso que ouves
quase sempre, quase sempre.

Anjo de asas cortadas,
fala comigo!

Ainda o tempo e o regresso


"Pour Bergson, le temps linéaire est spatialisation du temps en vue de l'action sur la matière, laquelle est l'oeuvre de l'intelligence. Le temps originaire s'appelle durée, devenir où chaque instant est lourd de tout le passé et gros de tout l'avenir. La durée est vécue par une descente en soi. Chaque instant est là, rien n'est définitif puisque chaque instant refait le passé"

(Emmanuel Levinas, "La mort et le temps", L'Herne, Paris, 1991)

Friday, May 6, 2011

Dia da Língua Portuguesa



Comemorou-se na UNESCO o Dia da Língua Portuguesa.

Esteve tudo bem : a organização e a intervenção pública e oficial de Angola, presidente em exercício da CPLP, os quitutes do Brasil, os vinhos de Portugal, os livros à venda pela Livraria Portuguesa de Michel Chandeigne, a música de Cabo Verde, a exposição do grande pintor de Moçambique Malangatana ... Mas o que mais me tocou foi a contribuição, com desenhos, trabalhos escritos e poemas, dada pela Secção Portuguesa do Liceu Internacional de Saint Germain en Laye.

Wednesday, May 4, 2011

Não há regresso

"Le voyageur revient à son point de départ, mais il a vieilli entre-temps ! [...] S'il était agi d'un simple voyage dans l'espace, Ulysse' n'aurait pas
été déçu; l'irrémédiable, ce n'est pas que l'exilé ait quitté la terre natale: l'irrémédiable, c'est que l'exilé ait quitté cette terre natale il y a vingt ans. L'exilé voudrait retrouver non seulement le lieu natal, mais le jeune homme qu'il était lui-même autrefois quand il l'habitait. [...] Ulysse est maintenant un autre Ulysse, qui retrouve une autre Pénélope... Et Ithaque aussi est une autre île, à la même place, mais non pas à la même date; c'est une patrie d'un autre temps. L'exilé courait à la recherche de lui-même, à la poursuite de sa propre image et de sa propre jeunesse, et il ne se retrouve pas. Et l'exilé courait aussi à la recherche de sa patrie, et maintenant qu'elle est retrouvée il ne la reconnaît plus. Ulysse, Pénélope, Ithaque : chaque être, à chaque instant, devient par altération un autre que lui-même, et un autre que cet autre. Infinie est l'altérité de tout être, universel le flux insaisissable de la temporalité. C'est cette ouverture temporelle dans la clôture spatiale qui passionne et pathétise l'inquiétude nostalgique. Car le retour, de par sa durée même, a toujours quelque chose d'inachevé : si le Revenir renverse l'aller, le « dédevenir », lui, est une manière de devenir; ou mieux: le retour neutralise l'aller dans l'espace, et le prolonge dans le temps ; et quant au circuit fermé, il prend rang à la suite des expériences antérieures dans une futurition' ouverte qui jamais ne s'interrompt: Ulysse, comme le Fils prodigue', revient à la maison transformé par les aventures, mûri par les épreuves et enrichi par l'expérience d'un long voyage. [...] Mais à un autre point de vue le voyageur revient appauvri, ayant laissé sur son chemin ce que nulle force au monde ne peut lui rendre : la jeunesse, les années perdues, les printemps perdus, les rencontres sans lendemain et toutes les premières-dernières fois perdues dont notre route est semée.
Vladimir Jankélévitch, L'Irréversible et la Nostalgie, Éd. Flammarion, 1983, p. 300.

Sunday, May 1, 2011

Resposta ao poema anterior


Da notável entrevista do filósofo Trindade Santos a Anabela Mota Ribeiro, na "Pública" de hoje:

P:Podemos ser engolidos pelo passado?

R:Toda a gente o é. Creonte deixou-se engolir pelo passado. Antígona deixou-se engolir pelo passado. E o resultado é a morte, a destruição, a loucura. É preciso ter sempre os olhos abertos para a frente.


P:O que implica aprender a distinguir o essencial do acessório. Só assim podemos olhar para a frente.


R:Exactamente. Somos o nosso passado. A lição vem-me de (...) Bergson. O nosso passado está a refazer-se constantemente no nosso presente. Isso implica que não possamos parar e olhar para trás. O nosso passado está a acontecer agora.


Visita à Feira do Livro de Lisboa


Todos os poetas cantaram no exílio,
em tempos de indigência ou de massacre.
Nunca se calou essa meia dúzia.
"Só o parvo de um poeta ou um louco...".

Hoje temos saudades de Sião
e quanto nela passámos.
Chove na Feira do Livro e uma amiga diz-me:
"este já não é o nosso tempo".

Pois não. O passado é um país estrangeiro,
mas é esse para sempre o nosso país.

Wednesday, April 27, 2011

Páscoa


O 25 de Abril à sombra das azinheiras...

Tuesday, April 26, 2011

Análise económica da conjuntura




Discursos à nação portuguesa


" Il faut donc se sentir coupable. Nous voilà traînés au confessionnal laïque , le pire de tous"

(Albert Camus)

Monday, April 25, 2011

Memória


Nós não esquecemos.

No dia seguinte, no restaurante ao lado do "República", a sensação estranha de se poder falar de política em voz alta, sem receio dos pides à escuta na mesa do lado.

Dois dias depois, na chegada de Mário Soares a Santa Apolónia, a sensação estranha de estarmos ali todos em aberta manifestação, sem esperarmos a polícia de choque.

Para muitos isto não quererá dizer nada. Para alguns os pides seriam uns pacíficos funcionários públicos e os polícias de choque eram como os de todo o mundo.

E políticos, quantos mais fossem exilados ou presos melhor : não havia então uma união nacional para salvar a Pátria?

Mas nós não esquecemos.

Thursday, April 21, 2011

Um momento de desânimo


""Quand j'aborde une situation, elle me dégoûte d'avance par sa vulgarité - Je ne fais autre chose que de doser de la merde - C'est pour cela que j'ai tant de mal à écrire"

(Gustave Flaubert, carta a Louise Colet)

Wednesday, April 20, 2011

A resposta de Steinbroken, num soneto


Sou finlandês : meu coração é frio,
enquanto não nos dão vodka gelado!
Não sou pior que tu no desafio,
rico alemão que temes juro dado...

Inglês, tu deves e não temes, bem:
assim é que se porta um cavalheiro!
Franceses rodam todos num vaivém,
ao sul falta-vos "rating" e dinheiro...

Sou finlandês : meu coração é frio.
Mas que querem que faça desta Europa?
Na Líbia falta o ganho, sobra o brio.
Há um cheiro de fascismo à nossa porta:

no Báltico, em Paris, pelo Danúbio
e por toda essa Europa num conúbio!

Tuesday, April 19, 2011

Patria perduta?

Citando os clássicos : Marx

"I would never become a member of a country club that would accept me as a member" -- Groucho Marx

Sunday, April 17, 2011

Citando os clássicos : Nobre e a vaidade



Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

António Nobre, in 'Só'

Citando os clássicos : Eça de Queirós

"O marquês carambolara, ganhando a partida, e triunfava também:

- Você trouxe-me a sorte, Carlos!

Steinbroken depusera logo o taco e alinhava já sobre a tabela, lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.

Mas o marquês, de giz na mão, reclamava-o para outras refregas, esfaimado de ouro finlandês.

- Nada mach... Você hoje 'stá têrível! - dizia o diplomata, no seu português fluente, mas de acento bárbaro.

O marquês insistia, plantado diante dele, de taco ao ombro como uma vara de campino, dominando-o com a sua maciça, desempenada estatura. E ameaçava-o de destinos medonhos numa voz possante habituada a ressoar nas lezírias; queria-o arruinar ao bilhar, forçá-lo a empenhar aqueles belos anéis, levá-lo a ele, ministro da Finlândia e representante de uma raça de reis fortes, a vender senhas à porta da rua dos Condes!

Todos riam; e Steinbroken também, mas com um riso franzido e difícil, fixando no marquês o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo da sua miopia a dureza dum metal. Apesar da sua simpatia pela ilustre casa de Sousela, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaças, incompatíveis com a sua dignidade e com a dignidade da Finlândia."


(Eça de Queirós, "Os Maias", cap. V)

Saturday, April 16, 2011

Citando os clássicos : Jerome K. Jerome

"Ambição é apenas vaidade enobrecida."
( Jerome K. Jerome )

Dito por Marlon Brando, no filme de Mankiewicz

Relendo os clássicos : Shakespeare, discurso de Marco António

'Friends. Roman, countrymen, lend me your ears.

I come to bury Caesar, not to praise him."

(Shakespeare, "Julius Caesar")

Sunday, April 10, 2011

Relendo os clássicos : Molière

« Géronte. — Il me semble que vous les placez autrement qu'ils ne sont ; que le cœur est du côté gauche, et le foie du côté droit.

Sganarelle. — Oui, cela était autrefois ainsi, mais nous avons changé tout cela. »



Molière, "Le Médecin malgré lui" (Acte II, scène IV)

Monday, April 4, 2011

Leituras da Índia (2) : diplomatas escritores...

Excerto de "Mémoire" de Catherine Clément:

"En anglais, en allemand, en français, la conversation connaissait avec moi un parcours immuable.

- À quoi employez-vous votre temps? Le golf ou le tennis?

- Non, j´écris.

- Votre journal, alors?

- Non, des livres.

- Ah! Et vous pensez être un jour publiée?"

Por esta altura (1987), a senhora embaixatriz Catherine Clément já tinha publicado onze livros de sua autoria e cinco em colaboração!

Leituras da Índia

Não é presunção : Catherine Clément é uma notável escritora e intelectual, estudou a Índia com toda a seriedade enraizada na sua formação na École Normale Supérieure, na sua condição de discípula de Claude Lévi-Strauss e na sua identidade de prolixa, respeitada e diversificada autora, da escola de Barthes e de Lacan. Ela sem dúvida soube tirar partido de forma inteligente e criadora da sua condição acidental de embaixatriz na Índia entre 1987 e 1991. O seu "Les Dieux de l'Inde" é uma boa introdução ao Hinduísmo, feita em termos simples e acessíveis. Contou, de forma atractiva e empolgante, mas sem qualquer voyeurismo, o romance entre Nehru e Edwina Mountbatten ("Pour l'Amour de l'Inde"). Mas esta "Mémoire" que no ano passado publicou, na parte que respeita à Índia, faz-me sentir um misto de insatisfação e de empatia, que peço por favor não tomem por presunção. Catherine Clément, como eu, leu a Índia, dialogou com a Índia, procurou entender, com o empenhamento do seu afecto e com os seus instrumentos teóricos (por certo, bem superiores aos meus) aquela realidade prodigiosa. Mas não chega (como eu não cheguei) ao essencial...

Malraux, esse, inventou a Índia. Mas é bem mais forte o que ele escreve e, por falso que possa ser, faz-nos chegar mais longe!

Será que só mentindo um pouco conseguimos entender o Outro?

"Je suis un mensonge qui dit toujours la vérité" (Jean Cocteau)

Sunday, April 3, 2011

Dos bancos (2)

Um dos senhores que dirigia um desses bancos falidos que sobrecarregam hoje o nosso défice explicou-me em tempos idos, com muita cortesia e gentileza, durante um jantar aliás simpático, que eu, enquanto funcionário público, representava um puro encargo e um entrave para o país e para os verdadeiros criadores de riqueza, como ele próprio. Senti-me miseravelmente culpado pela estagnação nacional.

Dos bancos (1)

Ainda me lembro quando a minha filha comprou a sua casa : ela tinha, por herança deixada pela mãe, dinheiro suficiente para comprar a casa a pronto pagamento.

O banco explicou então que a decisão racional, dadas as taxas de juro praticadas à época, era a minha filha deixar as suas poupanças depositadas no banco e pedir um empréstimo para pagar a casa.

Do ponto de vista da racionalidade económica, o banco até tinha razão. Além de vir ganhar os juros de mais um empréstimo.

Mas a minha filha tinha um pai careta e pouco business-friendly, que resolveu que a casa se pagaria a pronto e não haveria empréstimo nenhum. Os funcionários do banco acusaram-me logo de deixar a minha filha "sem liquidez".

Claro que a maioria das pessoas que se endividaram para pagar casa não tinham sequer esta escolha. Mas não me venham agora dizer que a culpa do endividamento brutal da banca portuguesa foi dos gananciosos e irresponsáveis cidadãos e não dessas vestais sagradas (ia dizer vacas sagradas) da economia financeira...

Saturday, April 2, 2011

Abril

April is the cruelest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.

(T.S. Eliot, "The Waste Land")

"Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte" (Álvaro de Campos)

Em nenhum lugar terás refúgio:
mas o que julgas condenação é o altivo destino
da tua liberdade.

Friday, April 1, 2011

Poesia em tempos de indigência

Perda

Não serás visto nem ouvido.
Os teus olhos a afagar o escuro,
a escada breve a interromper-se já.
E nunca temos a certeza de uma perda.

Foi um ruído ao longe,
que imaginámos ser música.