Tuesday, October 27, 2015
Sunday, October 25, 2015
Tuesday, October 20, 2015
Monday, October 19, 2015
Um poema do último livro de Nuno Júdice
Luis de Menezes, Retrato da Viscondessa de Menezes, 1862
VARIAÇÃO CELESTE
Colhi a flor de um relâmpago
de entre os teus seios juntos, e quando
estremeceste foi como se uma estrela
tivesse vacilado nos ombros
da manhã.
Pus essa flor no negro
lago dos teus olhos, e as suas
raízes estenderam-se pelo fundo
da tua memória até esse dia em que
a lava do início te inundou.
E percorri com o tempo
de uma vela de moinho o arco
das tuas sobrancelhas, procurando
na sua margem o pórtico
dos teus lábios.
Nuno Júdice, A Convergência dos Ventos, Lisboa, Dom Quixote, 2015, p.40
VARIAÇÃO CELESTE
Colhi a flor de um relâmpago
de entre os teus seios juntos, e quando
estremeceste foi como se uma estrela
tivesse vacilado nos ombros
da manhã.
Pus essa flor no negro
lago dos teus olhos, e as suas
raízes estenderam-se pelo fundo
da tua memória até esse dia em que
a lava do início te inundou.
E percorri com o tempo
de uma vela de moinho o arco
das tuas sobrancelhas, procurando
na sua margem o pórtico
dos teus lábios.
Nuno Júdice, A Convergência dos Ventos, Lisboa, Dom Quixote, 2015, p.40
Um poema de "Óxido" de Gastão Cruz
Turner
EXERCÍCIOS DE MORTE
Corríamos perigo e não sabíamos
corrê-lo: cada noite era um oceano
em que nadar causava maior dano
ao acto de viver; substituíamos
toda a roupa molhada quando o mar
as ilhas submergia e refluindo
descobria lençóis de lava findo
o exercício de morrer; amar
já se encontrava aquém da ameaça
e um novo exercício começava,
princípio e fim da noite, inútil chave
da câmara fechada onde uma baça
falsa promessa o breve movimento
doutra onda traçava no mar lento
Gastão Cruz, Óxido, Lisboa, Assírio e Alvim, 2015, p. 30
EXERCÍCIOS DE MORTE
Corríamos perigo e não sabíamos
corrê-lo: cada noite era um oceano
em que nadar causava maior dano
ao acto de viver; substituíamos
toda a roupa molhada quando o mar
as ilhas submergia e refluindo
descobria lençóis de lava findo
o exercício de morrer; amar
já se encontrava aquém da ameaça
e um novo exercício começava,
princípio e fim da noite, inútil chave
da câmara fechada onde uma baça
falsa promessa o breve movimento
doutra onda traçava no mar lento
Gastão Cruz, Óxido, Lisboa, Assírio e Alvim, 2015, p. 30
Friday, October 16, 2015
Fonte
FONTE
Suspende um pouco o escorrer das palavras
entre as pedras: nenhum rio desponta
destes matos e pedregais onde a memória
nada encontra para contar.
Às vezes debrucei-me a ouvir as tuas histórias,
mas tudo eram paisagens fingidas, a cal cobria as pinturas
dos frescos deixados nos muros, toda a épica
de que te rias, campos fora.
A minha vida, dizes? Meu pai ergue uma pedra ao alto
e joga-a para longe, as montanhas estremecem,
mas logo tudo regressa a uma impossível
serenidade.
Os mosaicos escondidos sob a terra fértil.
A fonte da poesia é a história que nunca contámos.
Nunca contámos. Como se alguém
nos pudesse ouvir.
Suspende um pouco o escorrer das palavras
entre as pedras: nenhum rio desponta
destes matos e pedregais onde a memória
nada encontra para contar.
Às vezes debrucei-me a ouvir as tuas histórias,
mas tudo eram paisagens fingidas, a cal cobria as pinturas
dos frescos deixados nos muros, toda a épica
de que te rias, campos fora.
A minha vida, dizes? Meu pai ergue uma pedra ao alto
e joga-a para longe, as montanhas estremecem,
mas logo tudo regressa a uma impossível
serenidade.
Os mosaicos escondidos sob a terra fértil.
A fonte da poesia é a história que nunca contámos.
Nunca contámos. Como se alguém
nos pudesse ouvir.
Tuesday, October 13, 2015
Saturday, October 3, 2015
Saturday, September 26, 2015
Ruínas de Selinunte, Sicília
SICÍLIA, SETEMBRO
Temos perto de nós os invasores
e numa terra de ruínas e silêncio
faz-se mais luminosa esta certeza
que nada sabemos do que virá breve.
Os guerreiros não esperavam aliados
e os comerciantes à beira de novos templos
dispunham o trigo, as tintas, as pedrinhas:
que importa o rei cunhado nas moedas?
Temos perto de nós os invasores
e o ruído da História soberana:
som e fúria, só no fim saberemos
do que estivémos tanto tempo à espera.
As ondas são mais baixas neste mar
e as civilizações, bem vês, são só a espuma...
Friday, September 25, 2015
Più nessuno mi porterá nel Sud (Salvatore Quasimodo)
Ragusa, Sicília
La luna rossa, il vento, il tuo colore
di donna del Nord, la distesa di neve…
Il mio cuore è ormai su queste praterie,
in queste acque annuvolate dalle nebbie.
Ho dimenticato il mare, la grave
conchiglia soffiata dai pastori siciliani,
le cantilene dei carri lungo le strade
dove il carrubo trema nel fumo delle stoppie,
ho dimenticato il passo degli aironi e delle gru
nell’aria dei verdi altipiani
per le terre e i fiumi della Lombardia.
Ma l’uomo grida dovunque la sorte d’una patria.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
di donna del Nord, la distesa di neve…
Il mio cuore è ormai su queste praterie,
in queste acque annuvolate dalle nebbie.
Ho dimenticato il mare, la grave
conchiglia soffiata dai pastori siciliani,
le cantilene dei carri lungo le strade
dove il carrubo trema nel fumo delle stoppie,
ho dimenticato il passo degli aironi e delle gru
nell’aria dei verdi altipiani
per le terre e i fiumi della Lombardia.
Ma l’uomo grida dovunque la sorte d’una patria.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
Oh, il Sud è stanco di trascinare morti
in riva alle paludi di malaria,
è stanco di solitudine, stanco di catene,
è stanco nella sua bocca
delle bestemmie di tutte le razze
che hanno urlato morte con l’eco dei suoi pozzi,
che hanno bevuto il sangue del suo cuore.
Per questo i suoi fanciulli tornano sui monti,
costringono i cavalli sotto coltri di stelle,
mangiano fiori d’acacia lungo le piste
nuovamente rosse, ancora rosse, ancora rosse.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
in riva alle paludi di malaria,
è stanco di solitudine, stanco di catene,
è stanco nella sua bocca
delle bestemmie di tutte le razze
che hanno urlato morte con l’eco dei suoi pozzi,
che hanno bevuto il sangue del suo cuore.
Per questo i suoi fanciulli tornano sui monti,
costringono i cavalli sotto coltri di stelle,
mangiano fiori d’acacia lungo le piste
nuovamente rosse, ancora rosse, ancora rosse.
Più nessuno mi porterà nel Sud.
E questa sera carica d’inverno
è ancora nostra, e qui ripeto a te
il mio assurdo contrappunto
di dolcezze e di furori,
un lamento d’amore senza amore.
è ancora nostra, e qui ripeto a te
il mio assurdo contrappunto
di dolcezze e di furori,
un lamento d’amore senza amore.
Salvatore Quasimodo
da “La vita non è sogno”, A. Mondadori Editore, Milano, 1949
Friday, September 4, 2015
Portugal, lâmpada marinha (Neruda)
Pablo Neruda, La lámpara marina, V
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos,
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
Wednesday, September 2, 2015
Wednesday, August 26, 2015
Sonetilho hedonista
O hedonismo meu hóbi,
a poesia meu vício,
o coração como lóbi
e o amor desperdício.
Com palavras pequeninas,
influências certeiras
rondam lóbis nas esquinas:
buscam paixões verdadeiras
que de hóbi se disfarcem
para que amor nos pareçam
e por nossos olhares passem
e nunca desapareçam.
É pura mercadoria
no que deu a poesia!
a poesia meu vício,
o coração como lóbi
e o amor desperdício.
Com palavras pequeninas,
influências certeiras
rondam lóbis nas esquinas:
buscam paixões verdadeiras
que de hóbi se disfarcem
para que amor nos pareçam
e por nossos olhares passem
e nunca desapareçam.
É pura mercadoria
no que deu a poesia!
Sunday, August 23, 2015
Verão e memória de Ruy Belo
A angústia que nasce num dia de verão
pode bem ser fugidio nevoeiro
a esvair-se no tempo da sua promessa
e a dizer-nos com força que não temos razão
em duvidar da vida e da nossa presença
junto à terra e ao mar, aqui nestas areias
onde o tempo afinal nem começa nem pensa
e o sol tudo apaga em qualquer estação.
Eu lembro Ruy Belo no final deste verão,
mas a vida larguei aqui por esta praia
e o reencontro fez-se contida paixão
com o verso a fluir e a vida tão escassa...
A angústia que nasce num dia de verão
é do tempo e da terra uma só comunhão.
Monday, August 17, 2015
Sigmaringen, Galeria Portuguesa
Tinham-lhes prometido Madrid, a Coroa das Espanhas
( príncipes alemães reinavam pela Europa toda...).
Já a irmã Estefânia casara com o rei português,
moço novo, de muitas leituras,
e a ele, Leopoldo de Hohenzollern -Sigmaringen
com sua jovem mulher Antónia de Bragança, a portuguesa,
caberia reinar sobre os espanhóis, com o assentimento das suas Cortes
e a benevolência dos seus generais. Tudo manobrado por Bismarck...
Até que Napoleão III ( como os prussianos previam)
caiu na esparrela e, como mosca alucinada,
entrou na teia urdida por Berlim
opondo-se terminantemente a que um Hohenzollern reinasse em Espanha.
E a Prússia veio assim a ter a guerra que queria,
com o fervor patriótico a mover todos os alemães em sua volta.
Sigmaringen ainda hoje e não mais que duas ruas e uma praça
a volta do castelo.
Para consolar Antónia, Leopoldo construiu então a Galeria Portuguesa,
onde todas as noites se ouvia Schubert
e se recitava Goethe. Antónia passou com melancolia aqueles anos,
marcados pela solidão do castelo, lutos pelo irmão e pela cunhada,
guerras que marcaram a supremacia final da Prússia
sobre as outras Alemanhas...
O marido caçava
pelos montes.
Hitler não se apercebeu certamente da ironia,
quando enxotou Pétain e os seus fantoches
para aquele castelo, a partir do qual Bismarck, noutra época,
começara a tecer a intriga que derrotara os franceses e levantara o Reich!
Eles, pauvres cons, sempre à escuta de Paris,
deambulavam por aquelas galerias, atontados,
d'un château l'autre, com o Céline e a sua cantora,
para medicar e animar aquela gente,
de quem justamente desconfiavam os camponeses do Wurtemberg.
A Galeria Portuguesa abre-se em vidraças sobre o campo alemão,
onde caçavam principes e os camponeses
seguiam o ritmo das estações. Tem a delicadeza de uma dádiva
ao que não pôde ser.
Tinham-lhes prometido Madrid, a Coroa das Espanhas
( príncipes alemães reinavam pela Europa toda...).
Já a irmã Estefânia casara com o rei português,
moço novo, de muitas leituras,
e a ele, Leopoldo de Hohenzollern -Sigmaringen
com sua jovem mulher Antónia de Bragança, a portuguesa,
caberia reinar sobre os espanhóis, com o assentimento das suas Cortes
e a benevolência dos seus generais. Tudo manobrado por Bismarck...
Até que Napoleão III ( como os prussianos previam)
caiu na esparrela e, como mosca alucinada,
entrou na teia urdida por Berlim
opondo-se terminantemente a que um Hohenzollern reinasse em Espanha.
E a Prússia veio assim a ter a guerra que queria,
com o fervor patriótico a mover todos os alemães em sua volta.
Sigmaringen ainda hoje e não mais que duas ruas e uma praça
a volta do castelo.
Para consolar Antónia, Leopoldo construiu então a Galeria Portuguesa,
onde todas as noites se ouvia Schubert
e se recitava Goethe. Antónia passou com melancolia aqueles anos,
marcados pela solidão do castelo, lutos pelo irmão e pela cunhada,
guerras que marcaram a supremacia final da Prússia
sobre as outras Alemanhas...
O marido caçava
pelos montes.
Hitler não se apercebeu certamente da ironia,
quando enxotou Pétain e os seus fantoches
para aquele castelo, a partir do qual Bismarck, noutra época,
começara a tecer a intriga que derrotara os franceses e levantara o Reich!
Eles, pauvres cons, sempre à escuta de Paris,
deambulavam por aquelas galerias, atontados,
d'un château l'autre, com o Céline e a sua cantora,
para medicar e animar aquela gente,
de quem justamente desconfiavam os camponeses do Wurtemberg.
A Galeria Portuguesa abre-se em vidraças sobre o campo alemão,
onde caçavam principes e os camponeses
seguiam o ritmo das estações. Tem a delicadeza de uma dádiva
ao que não pôde ser.
Saturday, August 15, 2015
Ao soneto
És tu soneto um realejo amigo
que me estende da aranha a teia fina
onde este pensamento que persigo
se desfaz só no verso, só na rima?
Serás então do verso falso amigo,
mecanismo voraz e tentador
a destruir no ovo o que consigo,
tornando o pensamento um só rumor?
Se palavras apenas nossos versos
e as ideias ficaram para trás,
que direi dos meus actos, tão diversos
de tudo o que de nós a vida faz?
És tu soneto aranha e sua teia,
um engano desfeito na areia...
Thursday, August 13, 2015
E A POESIA SURGE NA FIGURA DE UMA JOVEM GNR A CAVALO
E A POESIA SURGE NA FIGURA DE UMA JOVEM GNR A CAVALO
Tu ladeavas o cavalo, rindo
da tua tão perfeita novidade.
Qual amazona de um destino findo,
o tempo não mudava a tua idade.
A pistola exibias sobre a coxa
e do meu desejo tua troça ria.
Enredado na lírica mais frouxa,
um soneto pobríssimo eu trazia
só para teu controle e vistoria.
Mas logo se soltou o teu cavalo
para bem longe de mim e da poesia.
E se guardo teu riso enquanto falo
e me digo e desdigo em cada dia,
guarda republicana, em teu cavalo
trouxeste troça feita melodia.
Tu ladeavas o cavalo, rindo
da tua tão perfeita novidade.
Qual amazona de um destino findo,
o tempo não mudava a tua idade.
A pistola exibias sobre a coxa
e do meu desejo tua troça ria.
Enredado na lírica mais frouxa,
um soneto pobríssimo eu trazia
só para teu controle e vistoria.
Mas logo se soltou o teu cavalo
para bem longe de mim e da poesia.
E se guardo teu riso enquanto falo
e me digo e desdigo em cada dia,
guarda republicana, em teu cavalo
trouxeste troça feita melodia.
Wednesday, August 12, 2015
Sem escrita
Transformation
I haven't written a single poem
in months.
I've lived humbly, reading the paper,
pondering the riddle of power
and the reasons for obedience.
I've watched sunsets
(crimson, anxious),
I've heard the birds grow quiet
and night's muteness.
I've seen sunflowers dangling
their heads at dusk, as if a careless hangman
had gone strolling through the gardens.
September's sweet dust gathered
on the windowsill and lizards
hid in the bends of walls.
I've taken long walks,
craving one thing only:
lightning,
transformation,
you.
in months.
I've lived humbly, reading the paper,
pondering the riddle of power
and the reasons for obedience.
I've watched sunsets
(crimson, anxious),
I've heard the birds grow quiet
and night's muteness.
I've seen sunflowers dangling
their heads at dusk, as if a careless hangman
had gone strolling through the gardens.
September's sweet dust gathered
on the windowsill and lizards
hid in the bends of walls.
I've taken long walks,
craving one thing only:
lightning,
transformation,
you.
Adam Zagajewski, Without End, New and selected poems,
Farrar, Straus and Giroux, N.Y., 2002
Farrar, Straus and Giroux, N.Y., 2002
Monday, July 27, 2015
Todtnauberg 3
TODTNAUBERG 3
O vazio de tudo, antes corria um vento
e sons longínquos davam-nos conta de um acontecer,
fluir magistral do rio sempre pela primeira vez,
o aviso sonoro do corvo
e o caminho a perder-se na montanha.
Vendrá viniendo con venir eterno,
dizia Unamuno.
O mestre não conheceu Unamuno,
porque só há duas línguas decentes para a Filosofia, o grego e o alemão.
E depois só há um povo decente, mas não vamos por aí...
Hannah, Paul, vocês sabem que eu nunca traí.
Nem o Reitorado me deixaram...
O vazio de tudo, antes corria um vento
e sons longínquos davam-nos conta de um acontecer,
fluir magistral do rio sempre pela primeira vez,
o aviso sonoro do corvo
e o caminho a perder-se na montanha.
Vendrá viniendo con venir eterno,
dizia Unamuno.
O mestre não conheceu Unamuno,
porque só há duas línguas decentes para a Filosofia, o grego e o alemão.
E depois só há um povo decente, mas não vamos por aí...
Hannah, Paul, vocês sabem que eu nunca traí.
Nem o Reitorado me deixaram...
TODTNAUBERG 2
TODTNAUBERG 2
Há um campo liso por detrás de todas as montanhas
a lembrar-nos que a beleza conduz ao vazio
e quem não souber glosar este tema
pode sempre patinar por cima de gelo liso,
"paraíso para quem sabe dançar", dizia o outro, o de Sils Maria,
antes de enlouquecer.
O velho não enlouqueceu. Sabedoria manhosa dos camponeses de Bade.
Esperar no dia a dia do sendo o acontecimento do Ser,
virado para a Morte no regaço do Tempo
(em alemão é assim, sempre com maiúsculas) e entretanto mentir,
mentir à mulher, mentir aos alemães, aos nazis, aos americanos
e depois aos franceses e finalmente receber os judeus,
ele "o mestre vindo da Alemanha" a olhar "os teus cabelos negros, Sulamita"
nos caracóis da Hannah Arendt. "Tantos anos" murmurou...
Habitava poeticamente, como dissera do outro de Tubingen,
numa cabana pequena e sem nada de particular,
fechada agora e na posse da família.
Sabedoria dos camponeses
de Bade Wurtenberg...
(citações do poema Fuga da Morte de Paul Celan)
Há um campo liso por detrás de todas as montanhas
a lembrar-nos que a beleza conduz ao vazio
e quem não souber glosar este tema
pode sempre patinar por cima de gelo liso,
"paraíso para quem sabe dançar", dizia o outro, o de Sils Maria,
antes de enlouquecer.
O velho não enlouqueceu. Sabedoria manhosa dos camponeses de Bade.
Esperar no dia a dia do sendo o acontecimento do Ser,
virado para a Morte no regaço do Tempo
(em alemão é assim, sempre com maiúsculas) e entretanto mentir,
mentir à mulher, mentir aos alemães, aos nazis, aos americanos
e depois aos franceses e finalmente receber os judeus,
ele "o mestre vindo da Alemanha" a olhar "os teus cabelos negros, Sulamita"
nos caracóis da Hannah Arendt. "Tantos anos" murmurou...
Habitava poeticamente, como dissera do outro de Tubingen,
numa cabana pequena e sem nada de particular,
fechada agora e na posse da família.
Sabedoria dos camponeses
de Bade Wurtenberg...
(citações do poema Fuga da Morte de Paul Celan)
Todtnauberg
TODTNAUBERG
Também eu, aqui. Um grupo de escuteiros
nos caminhos do bosque a pedir boleia
para o grande albergue de juventude no cimo do monte,
donde irradiam marchas a pé boas para a saúde e para a forma. Fitness.
Num abrigo dos Serviços de Turismo da Floresta Negra
um mapa mostra o "Heidegger weg",
alguns quilómetros de marcha contra o esquecimento do Ser
e todos os outros esquecimentos. Fitness.
"Palavras cruas" ouviu o motorista de Celan
e o poema reproduziu desencantados dizeres,
meio ardidos, como palavras decifradas num papel desfeito em cinzas
na lareira de uma longínqua cabana de montanha.
Elfriede tomava conta de todos os passos dele,
sabedora de que a benevolência só conduz à devassidão.
Quando Hannah Arendt chegou, ao fim de todos aqueles anos, ela afastou-se discretamente,
mas fez saber, minuto a minuto, da sua presença na cabana:
ruídos, passos, preparativos domésticos, vozes abafadas...
O velho caminhava por sendeiros
onde hoje só passam escuteiros...
Também eu, aqui. Um grupo de escuteiros
nos caminhos do bosque a pedir boleia
para o grande albergue de juventude no cimo do monte,
donde irradiam marchas a pé boas para a saúde e para a forma. Fitness.
Num abrigo dos Serviços de Turismo da Floresta Negra
um mapa mostra o "Heidegger weg",
alguns quilómetros de marcha contra o esquecimento do Ser
e todos os outros esquecimentos. Fitness.
"Palavras cruas" ouviu o motorista de Celan
e o poema reproduziu desencantados dizeres,
meio ardidos, como palavras decifradas num papel desfeito em cinzas
na lareira de uma longínqua cabana de montanha.
Elfriede tomava conta de todos os passos dele,
sabedora de que a benevolência só conduz à devassidão.
Quando Hannah Arendt chegou, ao fim de todos aqueles anos, ela afastou-se discretamente,
mas fez saber, minuto a minuto, da sua presença na cabana:
ruídos, passos, preparativos domésticos, vozes abafadas...
O velho caminhava por sendeiros
onde hoje só passam escuteiros...
Friday, July 24, 2015
Thursday, July 23, 2015
Tuesday, July 21, 2015
Tuesday, July 14, 2015
Sophia, hoje
Pranto pelo Dia de Hoje
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
Monday, July 13, 2015
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