Sunday, June 21, 2015

POEMA DE LOS DONES, Jorge Luis Borges, "El otro, el mismo", 1969




Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.

JORGE LUIS BORGES




Monday, June 15, 2015

UM ADEUS PORTUGUÊS, Alexandre O'Neill, "No Reino da Dinamarca" 1958


Nora Mitrani, fotografia de Fernando Lemos


Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill, 

Sunday, June 7, 2015

O HOMEM DA GUITARRA AZUL, Wallace Stevens, 1937


O velho guitarrista, Picasso, 1903


The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts. The day was green.

They said, “You have a blue guitar,
You do not play things as they are.”

The man replied, “Things as they are
Are changed upon the blue guitar.”

And they said then, “But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are.”

II

I cannot bring a world quite round,
Although I patch it as I can.

I sing a hero’s head, large eye
And bearded bronze, but not a man,

Although I patch him as I can
And reach through him almost to man.

If to serenade almost to man
Is to miss, by that, things as they are,

Say that it is the serenade
Of a man that plays a blue guitar.

III

Ah, but to play man number one,
To drive the dagger in his heart,

To lay his brain upon the board
And pick the acrid colors out,

To nail his thought across the door,
Its wings spread wide to rain and snow,

To strike his living hi and ho,
To tick it, tock it, turn it true,

To bang if form a savage blue,
Jangling the metal of the strings…

IV

So that’s life, then: things as they are?
It picks its way on the blue guitar.

A million people on one string?
And all their manner in the thing

And all their manner, right and wrong,
And all their manner, weak and strong?

The feelings crazily, craftily call,
Like a buzzing of flies in the autumn air,

And that’s life, then: things as they are,
This bussing of the blue guitar.
WALLACE STEVENS

ÚLTIMOS AUTO-RETRATOS DE REMBRANDT, Elizabeth Jennings, 1975


Auto-retrato de Rembrandt com 63 anos


Rembrandt's Late Self-Portraits, Elizabeth Jennings 

You are confronted with yourself. Each year
The pouches fill, the skin is uglier.
You give it all unflinchingly. You stare
Into yourself, beyond. Your brush's care
Runs with self-knowledge. Here

Is a humility at one with craft.
There is no arrogance. Pride is apart
From this self-scrutiny. You make light drift
The way you want. Your face is bruised and hurt
But there is still love left.

Love of the art and others. To the last
Experiment went on. You stared beyond
Your age, the times. You also plucked the past
And tempered it. Self-portraits understand,
And old age can divest,

With truthful changes, us of fear of death.
Look, a new anguish. There, the bloated nose,
The sadness and the joy. To paint's to breathe,
And all the darknesses are dared. You chose
What each must reckon with.

Saturday, June 6, 2015

POEMA DO MAIS TRISTE MAIO, Manuel Bandeira, "Estrela da Tarde", 1960

Rembrandt, Auto-retrato na velhice

POEMA DO MAIS TRISTE MAIO
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo.
Nas longas horas dolorosas
Pungem fundo as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam
E os versos que me vẽm, vẽm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
MANUEL BANDEIRA

Tuesday, June 2, 2015

A PRESENÇA, Carlos Poças Falcão, "Movimento e Repouso", 1994


Matisse, La Danse



Semelhante a som, aproximado a música,
Tu dás os movimentos e encorpas levemente
os corações amados. És em verdade a dança
percutida à superfície e por toda a espessura,
enrugando a terra e dispersando o ar,
marcando sobre as águas a altura da passagem
como um breve alento, um gesto de procura.
E dás calor aos corpos e a vibração da cor
estendendo os climas, direcções, as calmas
do que é mortal e imortal. Para além das sebes
tudo se arredonda, o infinito. Assim o amor dança
na rara frequência: movimento de onda, passagem e presença.


CARLOS POÇAS FALCÃO

Saturday, May 30, 2015

O MITO, Carlos Drummond de Andrade, "A Rosa do Povo", 1945



Di Cavalcanti, Pierrette, 1922

Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto
Fulana jamais me vê,
mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
talvez a linha do busto,
da perna, talvez o ombro.
Amo Fulana tão forte,
amo Fulana tão dor,
que todo me despedaço
e choro,menino, choro
Mas Fulana vai se rindo...
Vejam Fulana dançando
No esporte ele está sozinha
No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos,
É dama de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres,
Menos eu... que de orgulhoso
me basto pensando nela
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado,
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
nem vi pela fechadura.
mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia,
e não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo
tal como é, ou deve ser:
branca, intacta, neutra, rara,
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana,
digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo,
o meu se punge...Pois sim.
Porque preciso do corpo
para mendigar Fulana,
rogar-lhe que pise em mim,
Que me maltrate... Assim não.
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livros?
Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe,
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe
demais: até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando
em ruas de peixe e lágrima
Aos operários: a vistes?
Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não!
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.
Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
(anúncio de dentifrício)
é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia.
Venha o mar! Venham cações!
Que o farol me denuncie!
Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado,
quero das mortes a hedionda,
quero voltar repelido
pela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna,
à porta do apartamento,
para feder: de propósito,
somente para Fulana.
E Fulana apelará
para os frascos de perfume.
Abre-os todos: mas de todos
eu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá
(nem se cobriu; vai chispando)
talvez se atire lá do alto.
Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso.
Para que chatear Fulana?
Pancada na sua nuca
na minha é que vai doer.
E daí não sou criança.
Fulana estuda meu rosto.
Coitado: de raça branca.
Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá?
Esconjuro se é necrófila...
Fulana é vida, ama as flores,
as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoara
matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes,
couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário
que fez de Fulana um mito,
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;
Que a sei embebida em leite,
carne, tomate, ginástica,
e lhe colo metafísicas,
enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir
outra Fulana que não
essa de burguês sorriso
e de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lhe
um traje de transparência;
já perde a carência humana;
e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência,
mar de hipóteses. A lua
fica sendo nosso esquema
de um território mais justo.
E colocamos os dados
de um mundo sem classes e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos... que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Tuesday, May 26, 2015

Homenagem a Espanha: EL MAÑANA EFÍMERO, Antonio Machado

Velásquez, Triunfo de Baco


EL MAÑANA EFIMERO

La España de charanga y pandereta,
cerrado y sacristía,
devota de Frascuelo y de María,
de espíritu burlón y alma inquieta,
ha de tener su marmol y su día,
su infalible mañana y su poeta.
En vano ayer engendrará un mañana
vacío y por ventura pasajero.
Será un joven lechuzo y tarambana,
un sayón con hechuras de bolero,
a la moda de Francia realista
un poco al uso de París pagano
y al estilo de España especialista
en el vicio al alcance de la mano.
Esa España inferior que ora y bosteza,
vieja y tahúr, zaragatera y triste;
esa España inferior que ora y embiste,
cuando se digna usar la cabeza,
aún tendrá luengo parto de varones
amantes de sagradas tradiciones
y de sagradas formas y maneras;
florecerán las barbas apostólicas,
y otras calvas en otras calaveras
brillarán, venerables y católicas.
El vano ayer engendrará un mañana
vacío y ¡por ventura! pasajero,
la sombra de un lechuzo tarambana,
de un sayón con hechuras de bolero;
el vacuo ayer dará un mañana huero.
Como la náusea de un borracho ahíto
de vino malo, un rojo sol corona
de heces turbias las cumbres de granito;
hay un mañana estomagante escrito
en la tarde pragmática y dulzona.
Mas otra España nace,
la España del cincel y de la maza,
con esa eterna juventud que se hace
del pasado macizo de la raza.
Una España implacable y redentora,
España que alborea
con un hacha en la mano vengadora,
España de la rabia y de la idea

ANTONIO MACHADO

Sunday, May 24, 2015

A QUEVEDO, João Cabral de Melo Neto, "Museu de Tudo", 1975




Hoje que o engenho não tem praça,
que a poesia se quer mais que arte
e se denega a parte
do engenho em sua traça,

nos mostra teu travejamento
que é possível abolir o lance,
o que é acaso, chance,
mais: que o fazer é engenho.

JOÃO  CABRAL  DE  MELO  NETO

Thursday, May 21, 2015

MULHERES DE HENRY MOORE NOS JARDINS, Luiza Neto Jorge, "A Lume", 1989


O cheiro da chuva inquinou os jardins
mulheres de Henry Moore sorvem os ares.

E tu alvejas-me, filho, camuflado
na recôncava brandura desses seres.
"Morta! Estás morta!"  rejubilas.

Entre os mágicos projécteis à deriva,
já crisálidas, já arcas no dilúvio,
pedem paz elas num sossegado corpo
com a terra, seus regos, suas relvas.

Naves nossas de regresso ao solo?

LUIZA NETO JORGE

("Draped Reclined Figure" Henry Moore) 

Thursday, May 14, 2015

ANUNCIAÇÃO (DESENHOS DE MIGUEL ÂNGELO), Fernando Echevarria



Miguel Ângelo, Anunciação


Estampaste o espanto do aparecimento.
Desentranhando foste, brusca, a forma
da ruptura dos rins que vem, de dentro,
transtornar a cintura. Que se dobra

sob esse impacto estranho de silêncio,
cujo repente varre para a orla
a desenhada torção de sofrimento
que o susto de anjo, do outro lado informa.

Mas, entre os dois, sem que o desenhes, deixas
tuas figuras desenhar um espaço
onde a pura rajada desvaneça

pra só ficar estrondo mudo de anjo
a iluminar a virgindade intensa
do rosto demudado pelo espanto.

Wednesday, May 13, 2015

A Poesia chama

O telefone ficou a tocar muito tempo
e a Musa devia estar em férias, é costume por  aí...
Vejo-te entre destroços
e planos antigos para os quais olhas com cepticismo
e com aquele passivo cansaço, que rima insuportavelmente com "lasso",
e que já não se aguenta!
Acédia, meu menino? Falta de trabalho,
de atenção às coisas e de fino pensamento*,
é o que é.
Mando-te este sms para te dizer que me exasperas.
Passa bem.


a) Poesia


* Camões




 

Tuesday, May 12, 2015

A PIAF, Jorge de Sena, "Arte de música", 1968



Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do "Ça ira",
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não te tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

6 outubro 64

JORGE DE SENA

Sunday, May 10, 2015

MUSÉE DES BEAUX ARTS, W.H. Auden



(Paisagem com a Queda de Ícaro, Bruegel, Musée des Beaux Arts, Bruxelas)


About suffering they were never wrong, 
The Old Masters; how well, they understood 
Its human position; how it takes place 
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along; 
How, when the aged are reverently, passionately waiting 
For the miraculous birth, there always must be 
Children who did not specially want it to happen, skating 
On a pond at the edge of the wood: 
They never forgot 
That even the dreadful martyrdom must run its course 
Anyhow in a corner, some untidy spot 
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse 
Scratches its innocent behind on a tree. 
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away 
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may 
Have heard the splash, the forsaken cry, 
But for him it was not an important failure; the sun shone 
As it had to on the white legs disappearing into the green 
Water; and the expensive delicate ship that must have seen 
Something amazing, a boy falling out of the sky, 
had somewhere to get to and sailed calmly on.

W. H. AUDEN

Thursday, May 7, 2015

BOSCH, O INÍCIO : O CARRO DE FENO, António Osório, "A Ignorância da Morte", 1978



Hyeronimus Bosch, O Carro de feno


Esta raiva
para que serve, contra quem
desapiedado se dirige?

A quem pode pedir contas
a alma de um bobo
ou vesgo ou anão ostentando
a disforme cabeça?

Que mal impenetrável
fez o homem ao homem, quem corrompeu
Deus em Deus, quem responderá
por tudo e por todos no juízo final?

ANTÓNIO OSÓRIO


Sunday, May 3, 2015

BACH SEGÓVIA GUITARRA, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia", 1967



(Gavottes de J.S.Bach por Andrés Segóvia)


A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia

Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra

A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada

Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa

Por companheira tenho
A voz da guitarra

E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada

E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Saturday, May 2, 2015

O PIJAMA DE MATISSE, Miguel-Manso, "Persianas", 2015



(Henri Matisse, Autoportrait)

a fotografia

libertou a pintura e a pintura (feroz
entre donatellos)
aprisionou Matisse ao coxim da idade
à doença

o cabo comprido da broxa
de pêlo redondo a riscar a parede ao fundo
a tesoura a recortar figuras
de jazzístico entusiasmo para lá da marroquina
maneira

sobre o colo

e três aves sobre a gaiola aberta
ao lume do dia

falei já de padrões de tecido
pigmentos detalhes
trovo agora sobre o fêmeo prazer
de pintar

do ofício de pôr no mundo clarões
e sombreados
retinianos provimentos obstados por atormentadas
vanguardas

a última: o dinheiro

o que hoje redijo é pobreza
e desenho
esboço hesitado a dar notícia
do que ficou por olhar à retaguarda
longe do pelotão que progride
do simulacro para o simulacro pelo
simulacro

também eu repeti em tempos: a pintura morreu

do alto de uma infeliz sobranceria
articulando a um canto da juventude
o compósito equívoco de uma
instalação

recostado nos séculos (os que foram
os que ainda)
e trabalhando de pijama (mamai desta largueza ó
sadios empregados-por-conta-de-outrem)
o velho Matisse ensina-nos pelo menos duas
coisas:

a morrer
aproximando-se


Tuesday, April 28, 2015

A VÉNUS AO ESPELHO, Vasco Graça Moura, "Laocoonte", 2005


Velásquez, Vénus ao espelho , National Gallery, Londres

se a vénus ao espelho fosse
uma oliveira a arder por dentro
com sua chama de óleo doce
e tudo em brasa desde o centro,

se o seu espelho acaso fosse
embaciado pelo alento
que algum cupido em voo trouxe
entre desejo e atrevimento,

se o ar no quarto depois fosse
feito luz táctil do aposento
e se entranhasse a tomar posse
da nudez rósea no cinzento,

e se velázquez então fosse
pintar-lhe o ensimesmamento
eu te diria: misturou-se
ao próprio instinto o pensamento.

Vasco Graça Moura, em Laocoonte, rimas várias, andamentos graves, 2005


Monday, April 27, 2015

ESPLENDOR NA RELVA, Ruy Belo, em "Homem de Palavra(s)", 1970



Natalie Wood, em "Splendor in the Grass" de Elia Kazan, 1961

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

(Ruy Belo, "Homem de Palavra(s), 1970) 

Sunday, April 26, 2015

DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA, Carlos de Oliveira, "Entre duas memórias", 1971



Guernica, Pablo Picasso, 1937, Museu do Prado, Madrid

I

Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.


II

As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.


III

Ao alto; à esquerda;
onde aparece
a linha da garganta,
a curva distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros; sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele; inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro.


IV

Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos duma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? quem
tentou salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?


V

Mesa, madeira posta
próximo dos homens: pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós;
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com o amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinado há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.


VI

O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo doutros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atônito, abra as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor e sumir-se.


VII

Cavalo; reprodutor
de luz nos prados; quando
respira, os brônquios;
dois frêmitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
numa crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano, ao furor.


VIII

Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar; e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.


IX

Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
beberam o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.


X

O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.

SANTA SALOMÉ poema de Nuno Júdice, "O fruto da gramática", 2014



As razões pelas quais dom joão quinto mandou construir
a capela de são joão baptista, na igreja de são roque, têm sido
atribuídas ao desejo de exibir a ostentação da sua corte,
o poder do dinheiro, a vontade de ficar na História por esse
acto magnânimo para com o santo protector da peste. Os
próprios artesãos do ouro e do mármore, os pintores, os
joalheiros, entregaram-se ao cego cumprimento dessa ordem
de não poupar para que o resultado brilhasse, atraindo
os olhares dos crentes que, desse modo, se desviariam
do que os padres diziam no púlpito de onde pregavam,
após o que publicavam os sermões dedicados ao rei. No
entanto uma única razão levou o rei a escolher são joão
baptista: a celebração de salomé; e o que ele pretendeu
foi pôr no prato a cabeça do santo para que ela saísse
dos ouros e das tapeçarias e repetisse, à sua frente,
a dança que se para sempre a condenou. Seria, então,
um altar em honra de uma salomé que o papa deveria
elevar ao estatuto de santa não por ter dançado quase nua
sob os véus transparentes em frente de herodes mas
por ter conseguido que a cabeça de são joão baptista,
no prato de porcelana em que os pintores a colocam,
tivesse feito dele o primeiro de todos os santos. E
em vez de admirarmos a arte da capela de são joão
baptista na igreja de são roque, o que deveríamos fazer
era rezar a salomé, que dom joão quinto santificou,
por ter pedido a cabeça de são joão baptista, para que
nunca deixe de dançar, sob os véus transparentes
da sua nudez, pelos séculos dos séculos.

Poema Santa Salomé de Nuno Júdice, in O fruto da gramática, 2014

Capela de São João Baptista, Igreja de São Roque, Lisboa

Saturday, April 25, 2015

Pranto pelo Nepal



Hergé, Tintin au Tibet

25 de Abril


Maria Helena Vieira da Silva

Sunday, April 19, 2015

RETRATO DE UM DESCONHECIDO, Jorge de Sena, "Metamorfoses", 1963

Fita-nos, como o pintor pensou,
não como jamais fitou alguém.
Ele próprio se não conheceu nunca
nesse retrato que a família, que os amigos,
sempre acharam todos parecido.
O Mestre, anos depois, que por acaso
viu, sem voltar a ver já o modelo,
o quadro esplêndido, achou pintura má
no que fizera; e não reconheceu
aquele olhar tão variamente fundo,
diverso do que, em tintas, punha sobre o mundo.

Mas tudo conjectura, apenas.

Quem era? Qual o nome? Não sabemos
nada, inteiramente nada. A fronte límpida,
a boca que se fecha num desdém tão vago,
os olhos falsamente juvenis, irónicos,
o róseo, o negro, a terra, a leve pincelada
parecem falar. Apenas o parecem. E,
dele, como do Mestre, não sabemos nada.
E quanto à data... a data é muito incerta.

Magnífica pintura.  Oh!  Sem dúvida,
de uma importante personagem. Inda
dependeremos desse jovem? Mas quem era?
Será que ele o sabia? Ou que o pintor o soube
naquel' momento de olhos em que o mundo coube?

Retrato de Jovem Cavaleiro, Escola Portuguesa do século XVI, Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa

Do livro Metamorfoses, 1963

Saturday, April 18, 2015

ILHA DE CAPRI, poema de João Miguel Fernandes Jorge, em "Mirleos", 2015

O odor o mar os figos
o sal cortava as ruelas
o vento sobre os terraços
entre os ramos dos limoeiros
na agrura do fruto da piteira
no cipreste no muito alto do céu. Répteis
senhores do muro de pedra
guardiães de vinhedos
cepas arrancadas ao chão do Vesúvio. A
rapariga certeza lembrada de cristal
sabor de pão recém-saído do forno
pisou a tela do moço Henrique
ficou prisioneira na paisagem no colorido
no meio do ar
o rosto límpida figura de faiança antiga
tão perto dos séculos

depois
e bem antes do sentimento
à luz da água marinha
soltou os cabelos do lenço vermelho
p'la extrema do horizonte

Ilha de Capri, óleo sobre madeira, Henrique Pousão, 1883, Museu Machado de Castro, Coimbra

Zé Mariano


Vão-se embora assim, sem avisar.
Tudo nos diz, é verdade, que o nosso tempo passou
e que agora destroem tudo o que fizemos com tenaz paciência
e álacre vontade.
É certo.
Mas podiam ao menos deixar-nos ficar a um canto
a rememorar ladainhas, a entoar antigos motes,
a viver, em suma.
Mas tu não querias isso. Tu ficaste até ao fim
e sorrias e respondias à vida com o teu trabalho constante,
como outros respondem com poemas vagos
e vidas vãs.
Adeus, Zé Mariano, aos dezassete anos falávamos de Cesariny
em casa do Jorge Silva Melo
e há três anos a nossa última conversa
foi para preparar com todo o rigor a visita à UNESCO
do teu sucessor no Ministério.
Ali em Paris, onde nos corredores do horrendo edifício da Fontenoy,
lembrávamos juntos o Cesariny e o "coitado do Jorge".  Adeus, Zé Mariano.


Tuesday, March 24, 2015

Herberto Helder

Este foi o primeiro poema que li de Herberto Helder. Em Chaves, 1965.


O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte. 

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte. 

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva. 

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. 

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos. 

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua. 

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes. 

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras. 

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

                             Herberto Helder

Tuesday, March 17, 2015

Tecer palavras

Many diplomats have used poetry in their diplomatic work: wrapping words in silk is the diplomat’s job. A diplomat may turn a lie into a ‘constructive ambiguity’ – which is a way of defining poetry. Some poets have been diplomats – Neruda, Claudel, St. John Perse. It’s an occupational hazard: the stimulating place, the sheltered existence – and the ability to paraphrase the unknowable. Few diplomats will admit to using poetry as a survival strategy.
Diplomats are like sentinels at an outpost scrutinising the desert beyond. Expecting the barbarians never to appear over the hazy horizon, they sceptically await the inevitable improbable. Meanwhile, drill replaces skill. From dawn till dusk and deep into the night beyond, on the parade grounds, they are made to practice coherence and coordination as if their career depended on it. In an attempt to strengthen morale and impart character, chanting of ‘public diplomacy’ mantras has been taken up. Numbing menial jobs – arranging ministerial junkets, tripping bleary-eyed through dilapidated factories – replace detention.
Diplomats are like watchmakers: their art is hidden inside a bland, if polished, case. Only a couple of hands, forever going round and round to no apparent purpose, betray the existence of an intelligent design. The best designer is the one who leaves no signature – just invariant perfection. Creating a masterpiece, however, is a rare opportunity.
In daily diplomatic routine one is to judge the quality of a negotiated text not by its content, but by its discards. At the end of the day, under a diplomat’s table one may find crumpled amendments, execrable points of order, and many a plain word. The box of useless qualifiers, the well of slimy compromises, lie about empty.
To survive, a diplomat needs poetry. Filed amidst the many layers of the brief, the short poem will refresh the bleary mind. Poetry brings distance – hence perspective and insight. Poetry reminds the diplomat that the best professional is the amateur.
Most deeply – poetry is truth.

(Aldo Mateucci)

(Aldo


Sunday, March 1, 2015

A Fernando Echevarria


Dei-me muito com Fernando Echevarria há vinte anos, quando vivíamos ambos em Paris. Aprendi muito com ele, estimo-o grandemente como poeta e como pessoa. Por isso gostei que lhe tivesse sido atribuído o Prémio das Correntes de Escritas este ano e deixo aqui um poema que lhe dediquei, no meu livro O Jogo de Fazer Versos, de 1994:

CARTA A FERNANDO ECHEVARRIA

Estes versos que lês, caro Fernando,
buscam em metro e rima duro mando.
Como se na medida e no rigor
pudessem esquivar-se do sabor
das mastigadas fórmulas sem amo,
sem dono nem senhor há tanto ano,
academismo vão que se fez presa
de um poetar sem cor e sem surpresa.
No alto e frio rigor da poesia
teus versos são cristais, na demasia
talhados, como pedra se lapida
e brilha, diamante, contra a vida.
Um dia me falaste de uma aura
que ao poeta preserva, como em jaula
de luzes e crepúsculos doirados
a fera aguarda o salto. Transviados,
nossos passos perdíamos no cais
em frente ao Châtelet e nunca mais
pude esquecer o teu conselho certo:
- Tempo podes perder, mas não um verso.