Tuesday, March 24, 2015

Herberto Helder

Este foi o primeiro poema que li de Herberto Helder. Em Chaves, 1965.


O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte. 

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte. 

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva. 

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. 

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos. 

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua. 

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes. 

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras. 

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

                             Herberto Helder

Tuesday, March 17, 2015

Tecer palavras

Many diplomats have used poetry in their diplomatic work: wrapping words in silk is the diplomat’s job. A diplomat may turn a lie into a ‘constructive ambiguity’ – which is a way of defining poetry. Some poets have been diplomats – Neruda, Claudel, St. John Perse. It’s an occupational hazard: the stimulating place, the sheltered existence – and the ability to paraphrase the unknowable. Few diplomats will admit to using poetry as a survival strategy.
Diplomats are like sentinels at an outpost scrutinising the desert beyond. Expecting the barbarians never to appear over the hazy horizon, they sceptically await the inevitable improbable. Meanwhile, drill replaces skill. From dawn till dusk and deep into the night beyond, on the parade grounds, they are made to practice coherence and coordination as if their career depended on it. In an attempt to strengthen morale and impart character, chanting of ‘public diplomacy’ mantras has been taken up. Numbing menial jobs – arranging ministerial junkets, tripping bleary-eyed through dilapidated factories – replace detention.
Diplomats are like watchmakers: their art is hidden inside a bland, if polished, case. Only a couple of hands, forever going round and round to no apparent purpose, betray the existence of an intelligent design. The best designer is the one who leaves no signature – just invariant perfection. Creating a masterpiece, however, is a rare opportunity.
In daily diplomatic routine one is to judge the quality of a negotiated text not by its content, but by its discards. At the end of the day, under a diplomat’s table one may find crumpled amendments, execrable points of order, and many a plain word. The box of useless qualifiers, the well of slimy compromises, lie about empty.
To survive, a diplomat needs poetry. Filed amidst the many layers of the brief, the short poem will refresh the bleary mind. Poetry brings distance – hence perspective and insight. Poetry reminds the diplomat that the best professional is the amateur.
Most deeply – poetry is truth.

(Aldo Mateucci)

(Aldo


Sunday, March 1, 2015

A Fernando Echevarria


Dei-me muito com Fernando Echevarria há vinte anos, quando vivíamos ambos em Paris. Aprendi muito com ele, estimo-o grandemente como poeta e como pessoa. Por isso gostei que lhe tivesse sido atribuído o Prémio das Correntes de Escritas este ano e deixo aqui um poema que lhe dediquei, no meu livro O Jogo de Fazer Versos, de 1994:

CARTA A FERNANDO ECHEVARRIA

Estes versos que lês, caro Fernando,
buscam em metro e rima duro mando.
Como se na medida e no rigor
pudessem esquivar-se do sabor
das mastigadas fórmulas sem amo,
sem dono nem senhor há tanto ano,
academismo vão que se fez presa
de um poetar sem cor e sem surpresa.
No alto e frio rigor da poesia
teus versos são cristais, na demasia
talhados, como pedra se lapida
e brilha, diamante, contra a vida.
Um dia me falaste de uma aura
que ao poeta preserva, como em jaula
de luzes e crepúsculos doirados
a fera aguarda o salto. Transviados,
nossos passos perdíamos no cais
em frente ao Châtelet e nunca mais
pude esquecer o teu conselho certo:
- Tempo podes perder, mas não um verso.

Sunday, February 15, 2015

Cinzas

È un brusio la vita, e questi persi
in essa, la perdono serenamente,
se il cuore ne hanno pieno: a godersi
 
eccoli, miseri, la sera: e potente
in essi, inermi, per essi, il mito
rinasce... Ma io, con il cuore cosciente
 
di chi soltanto nella storia ha vita,
potrò mai più con pura passione operare,
se so che la nostra storia è finita?

(Pier Paolo Pasolini, Le Cenere di Gramsci)

Saturday, February 14, 2015

Catar feijão

CATAR  FEIJÃO

1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 
2. 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Sunday, February 1, 2015

Lisboa revisitada


Perdem as casas suas várias cores
e as barcas novas aguardam melhor maré,
à falta de vento.
Deixámo-nos ficar?

Há uma nau que nunca regressou.
Essa será a nossa.

Sunday, January 25, 2015

Saturday, January 24, 2015

Outro Ulisses volta a casa


Cidades que nunca atravessei, nomes que ressoam da infância,
Samarcanda, Trebizonda, cidades que nunca vi,
promessas por cumprir de um atlas folheado na infância,
noutro século, num outro século.

Cidades como casas desfeitas,
caixotes abertos no chão, gavetas por esvaziar,
livros que sempre sobram.
É fácil resumir uma vida.
O que dela ficará, não sabemos. Mais certamente
nada.

Ficam as palavras encontradas num velho atlas:
Samarcanda, Trebizonda.
Um dia. Um dia estarei lá.

Friday, January 23, 2015

Em memória de Miguel Galvão Teles

A primeira vez que o encontrei, tinha eu quinze anos, foi em 1966. Com o meu tio João, víamos na companhia do Miguel Galvão Teles (a mais brilhante inteligência jurídica que eu conheci, disse-me uma vez o meu tio), pela televisão a preto e branco, o lendário Portugal - Coreia do Norte. Com o espanto de alguém que nunca soube entender até ao fim a paixão do futebol (não é, Miguel Castro Mendes?) , eu vi aquela brilhante mente jurídica atirar-se ao chão e bater com as mãos no soalho, na euforia plena dos golos de Eusébio. Foi meu professor de Direito Constitucional, encontrámos-nos na política nos anos de brasa do PREC, amigos sempre. Hoje, ao saber que partiu, lembro a pura alegria desse jogar-se sobre o chão em festejo do golo do Eusébio, como uma manifestação dessa alegria que, diz Espinoza, "aumenta a potência da alma", e que está, tem de estar, sempre por detrás de uma grande, de uma insaciável inteligência.

Wednesday, January 21, 2015

Mudança



Notre Mouvement
Nous vivons dans l'oubli de nos métamorphoses
Le jour est paresseux mais la nuit est active
Un bol d'air à midi la nuit le filtre et l'use
La nuit ne laisse pas de poussière sur nous
Mais cet écho qui roule tout le long du jour
Cet écho hors du temps d'angoisse ou de caresses
Cet enchaînement brut des mondes insipides
Et des mondes sensibles son soleil est double
Sommes-nous près ou loin de notre conscience
Où sont nos bornes nos racines notre but
Le long plaisir pourtant de nos métamorphoses
Squelettes s'animant dans les murs pourrissants
Les rendez-vous donnés aux formes insensées
À la chair ingénieuse aux aveugles voyants
Les rendez-vous donnés par la face au profil
Par la souffrance à la santé par la lumière
À la forêt par la montagne à la vallée
Par la mine à la fleur par la perle au soleil
Nous sommes corps à corps nous sommes terre à terre
Nous naissons de partout nous sommes sans limites
PAUL ÉLUARD
in Le dur désir de durer, 1946, Œuvres complètes t.II © Gallimard, La Pléiade, p.83

Tuesday, January 20, 2015

Recomeçar



Bom dia, depressão de um dia de neve
e do reencontro com as antigas ilusões.
Bom dia, camarada vida, a esperança dispersa-se
em pequenas luzes bruxuleantes, trémulas como pirilampos,
à beira de uma noite que vem por trás de todas as noites.
Bom dia, palavras.

Sunday, January 11, 2015

Poema para este dia


    THE SECOND COMING
   
    Turning and turning in the widening gyre
    The falcon cannot hear the falconer;
    Things fall apart; the centre cannot hold;
    Mere anarchy is loosed upon the world,
    The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
    The ceremony of innocence is drowned;
    The best lack all conviction, while the worst
    Are full of passionate intensity.
 
    Surely some revelation is at hand;
    Surely the Second Coming is at hand.
    The Second Coming! Hardly are those words out
    When a vast image out of Spiritus Mundi
    Troubles my sight: a waste of desert sand;
    A shape with lion body and the head of a man,
    A gaze blank and pitiless as the sun,
    Is moving its slow thighs, while all about it
    Wind shadows of the indignant desert birds.
   
    The darkness drops again but now I know
    That twenty centuries of stony sleep
    Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
    And what rough beast, its hour come round at last,
    Slouches towards Bethlehem to be born?

   WILLIAM BUTLER YEATS

Saturday, January 10, 2015

Caixadóclos


- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.

- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha da cobra!

- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é dos que fala sozinho na rua...

- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!

- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...

- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...

- Ah, agora sim, fazem-me justiça!

- Olha o caixadóclos todo satisfeito
a ler as notícias...


Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa

Um bocadinho assim...


Ni vu ni connu
Je suis le parfum
Vivant et défunt
Dans le vent venu !

Ni vu ni connu,
Hasard ou génie ?
À peine venu
La tâche est finie !

Ni lu ni compris ?
Aux meilleurs esprits
Que d'erreurs promises !

Ni vu ni connu,
Le temps d'un sein nu
Entre deux chemises !


PAUL VALÉRY

Wednesday, January 7, 2015

Charlie


Recados

O MEU PRIMEIRO LIVRO

(publicado no JL de 7 de Janeiro de 2014)



Eu andava de roda da poesia desde os meus quinze anos. Publiquei poemas no Diário de Lisboa-Juvenil (eu e muita gente, seria interessante voltar agora a publicar uma mostra desses poemas adolescentes de tantas e tão diversas pessoas...), e ali fui acolhido pela hospitaleira amizade do Mário Castrim e da Alice Vieira.

Continuei sempre a escrever, através de todas as mudanças e andanças da minha vida, passada que foi a Revolução de Abril, iniciada já a minha carreira diplomática. Mas só com trinta e três anos é que finalmente julguei digno de poder ser publicado um livrinho meu de poemas, a que chamei Recados.

Era em 1983, estava eu então colocado em Madrid e pedi ao José António Llardent, um bom amigo já falecido, grande tradutor de Fernando Pessoa para castelhano, que me lesse e julgasse o texto. O José António achou-o publicável. Senti-me aprovado. Procurei então, em Lisboa, um editor.

Depois de o Joaquim Manuel Magalhães ter recusado liminarmente a  sua publicação na editora “A Regra do Jogo”, dirigi-me a medo com o meu manuscrito (não havia internet nesse tempo) à Imprensa Nacional, onde o Vasco Graça Moura dirigia uma colecção para estreantes, que se chamava “Plural”.

Era a primeira vez que via o Vasco. Ele leu o texto e, para meu grande alívio e a bem da minha ansiedade, deu o seu acordo. Para a execução da edição (que era feita por uma editora portuense chamada “Gota de Água”), tive de ir ao Porto, cidade que me era então pouco familiar e onde me senti desde logo muito bem.

Não houve lançamento público. Tive, aqui no JL, uma crítica entusiástica de Eduardo Prado Coelho ao meu primeiro livro, que muito me sensibilizou e estimulou. Mas este livro, mais tarde, em 1999, não foi incluído nos meus Poemas Reunidos, editados pela Quetzal, e isso por minha escolha e exclusiva responsabilidade. Merecê-lo-ia? Terei feito bem? Porque o enjeitei, afinal?

Mas não vale a pena sentir qualquer remorso:  de qualquer modo, a Quetzal já guilhotinou (ah ça ira, ça ira, ça ira...) todos os exemplares que restavam desses meus Poemas Reunidos...

Thursday, January 1, 2015

Que seja assim o Ano Novo...

— De sua formosura
deixai-me que diga:
É tão belo como um sim
numa sala negativa.

— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— É belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.


(João Cabral de Melo Neto, "Morte e vida severina, auto de natal pernambucano")

Thursday, December 25, 2014

Álvaro de Campos, neste Natal


Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler –
As Bíblia, em português, porque (coisa curiosa) eram protestantes.
E reli a Primeira Epístola aos Coríntios.
Em torno de mim o sossego excessivo das noites de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência de choro para a desolação.
A Primeira Epístola aos Coríntios…
Reli-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima,
E um grande mar de emoção chorava dentro de mim…
Sou nada…
Sou uma ficção…
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
“Se eu não tivesse caridade”…
E a soberana voz manda, do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma fica livre…
“Se eu não tivesse caridade”..
Meu Deus e eu não tenho caridade…
ÁLVARO DE CAMPOS

Wednesday, December 24, 2014

Sunday, December 21, 2014

Dois poemas de Natal, em diálogo


s

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal' 


— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é 
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.


João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, Auto de Natal Pernambucano, final

Saturday, December 13, 2014

Incomodidade



Não era o normal sentimento de estar a mais
(não estamos todos?),
nem a vontade de ser ouvido e poder quebrar por dentro
o ruído do mundo.
Tinha compreendido finalmente
que todas as bancadas à sua frente
estavam vazias.



Wednesday, December 10, 2014

Contribuição para o livro de homenagem a José Manuel Galvão Teles

Meu caro Zé Manel, não sei se é tarde demais que escrevo este depoimento ou se, pelo contrário, chego mesmo na última hora, assim como era o teu atraso ao chegar às nossas reuniões políticas (a não ser, é claro, quando elas eram em tua casa): chegavas no fim, quando se tinham esgotado todos os argumentos, brilhado todas as oratórias, enfrentado todos os tenores e, justamente por chegares no fim , perguntavas baixinho a um de nós (às vezes a mim, que era o mais novo de todos) a que ponto tinha chegado a discussão. Ouvida a síntese dos argumentos em liça, pedias a palavra, entre os protestos e as gargalhadas devidas aos teus repetidos atrasos, e fazias a síntese de uma posição equilibrada e ponderada, que era sempre vista com alívio por todos aqueles que queriam realmente chegar a uma conclusão.

Conheci-te e à Micuxa em 1973, muito mais novo do que tu (hoje, ressalvada a tua sabedoria da vida, que foi sempre muito maior do que a minha, temos praticamente a mesma idade), jovem estudante de militância anti-fascista encetada nas associações de estudantes, que chegava à CDE para reforçar a linha (esquerda socialista não PCP, mas também – ainda... – não social-democrata) que vocês, de uma outra geração, lideravam. A tua casa era o ponto de reunião da nossa célula do Campo Grande. No andar de baixo morava o então exilado Dr. Mário Soares, teu grande amigo, que eu não conhecia ainda, embora fosse amigo e companheiro de lutas dos filhos João e Isabel e, por via deles, encontrasse a Dra. Maria de Jesus (em Aveiro, nesse verão, vi essa grande senhora, da idade da minha Mãe, avançar com serena coragem à cabeça da manifestação do Congresso da Oposição Democrática em direcção aos polícias de choque que fechavam a rua – “tem que ser, meu amigo”, disse-me tranquilamente). Tinhas ainda um sótão, mas normalmente reuníamos na tua sala de estar, bem por cima da casa do teu ilustre vizinho.

Recordações dessa sala de estar baralham-se na minha memória: entre os dias em que havia carros da PIDE à porta e íamos saindo um a um de garganta apertada e outros dias em que, já com o teu vizinho no andar de baixo regressado do exílio e a liderar o PS, se tratava de fundar um novo movimento de esquerda socialista e redigir o seu manifesto definitivo; entre os dias de luta comum anti-fascista, em que se tratava de rebater uma posição dos nossos aliados do PC no interior da CDE e outros dias em que, aliados de Melo Antunes e do Documento dos Nove, discutíamos se, no caso de uma vitória dos militares comunistas, seguiríamos Mário Soares para o Porto ou passaríamos à clandestinidade em Lisboa. Uma coisa me lembro bem: em 1975, nunca defendemos o voto em branco nas primeiras eleições livres havidas em Portugal.

Estivémos juntos no inesquecível movimento político “Grupo de Intervenção Socialista” (GIS) e quando este grupo, em 1977, decidiu extinguir-se e integrar o PS, tendo eu entrado já na carreira diplomática e estando a democracia consolidada em Portugal, decidi não aderir convosco ao PS, não por discordar daquela opção (que me parecia completamente acertada), mas por entender (e nesta minha decisão o Jorge Sampaio foi determinante) que, se um diplomata não pode, por estatuto, ter actividade partidária enquanto está no activo, não fazia sentido uma mera inscrição, sem possibilidade de real intervenção nas instâncias partidárias. Entenda-se bem: não penso de forma alguma que esteja interdito aos diplomatas aderir a partidos e muitas colegas meus o fizeram e fizeram muito bem. Esta foi apenas a minha opção e sempre a mantive. Mas também nunca escondi as minhas ideias e nunca (como deve ser num país democrático) nenhum ministro me penalizou ou prejudicou por elas.

Estive contigo em Nova Iorque, era eu o adido de embaixada que trazia a mala diplomática de Lisboa para as Nações Unidas (um arcaísmo...) e eras tu embaixador de Portugal nessa organização (posto que mais tarde veio a ser ocupado por outro ex-GIS, o nosso comum amigo José Filipe Moraes Cabral). Fiquei em tua casa, no famoso andar do Dakota Building, era nesse tempo a Residência Oficial: belíssimo edifício, entre a delicada e algo sinistra decoração chinesa do interior, a memória do assassinato de John Lennon e os pensamentos diversos expressos alto e bom som pelo porteiro cubano...

O meu percurso diplomático passou a ser pontuado pelas tuas visitas a todos os meus postos: desde Luanda, em 1978, onde, numa grande prova de amizade, correste o risco da tua vida, ao viajar num carro conduzido por mim (naquela longínqua época, segundo fontes insuspeitas, o risco da minha condução automóvel era equivalente ao da guerra civil em Angola); passando por Madrid, onde me apresentaste a todos os altos quadros do PSOE, contactos que tão úteis foram ao jovem secretário de embaixada encarregado de seguir a política interna espanhola que eu era então, nomeadamente no dia 23 de Fevereiro de 1981, quando o Raul Morodo apareceu na nossa Embaixada a perguntar se Portugal daria asilo político aos democratas espanhóis (e quer o Presidente Ramalho Eanes, quer o Primeiro Ministro Francisco Balsemão – era MNE o Professor André Gonçalves Pereira – responderam imediatamente que sim); em Paris, nos anos noventa, com a Micuxa (e com a Teresa Paiva?), já com a Didas na minha vida, a cimentar uma amizade que passou então a ser entre os dois casais; no Brasil, com a tua filha Inês, depois na Hungria (não nos visitaste na Índia...), em Paris de novo, o ano passado (fomos os quatro à ópera, temos essa paixão em comum), enfim, em quase todos os lugares da nossa vida sempre tivémos a alegria da vossa visita amiga, com o contraponto das nossas idas nas férias à vossa casa do Estoril e do inesquecível (por razões pessoais que não vêm ao caso) jantar de despedida que nos deste, na tua casa do Chiado, quando parti para o meu efémero posto na UNESCO. E bem sabes que vos esperamos aqui em Estrasburgo.

A amizade não tem alíneas, por isso não vou enumerar como sempre me ajudaste em todos os meus problemas pessoais, jurídicos ou de outra índole, como a tua experiência da vida e das coisas me ajudou a esclarecer algumas das minhas dificuldades, enfim, como és um amigo com quem sempre conto e contarei.

Não faço o teu perfil jurídico, porque não sou jurista (a não ser pelo curso), mas ele só poderia ser de louvor e de admiração; não traço o teu perfil político, porque não sou um político(sem nunca ter abdicado das minhas opções), mas o desenho dele só poderia ser de total integridade e de absoluta coerência.

Zé Manel, desculpa o atraso, cheguei agora e como não li as outras intervenções, nem sei se estou bem enquadrado no debate. Mas deixo-te um grande abraço de inexcedível amizade e de total confiança.

Estrasburgo, 14 de Abril de 2013

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES

          

La Ballade des Pendus





Atteignant le dérisoire mais néanmoins significatives, dans l’espoir peu crédible d’induire un comportement vertueux, les amendes pleuvent sur des manipulations financières outrageantes présentées comme autant de cas d’espèce, tandis que de timides tentatives d’encadrement des bonus faramineux, de distributions de stock-options et d’octroi des retraites-chapeaux sont enregistrées. Doit-on s’interroger pour savoir si cela doit être porté au compte de la naïveté ou de la duplicité ? Le sort qui va être réservé à une évasion fiscale pratiquée par les entreprises transnationales à l’échelle industrielle apportera la réponse. Pour l’instant, pris au sein d’une contradiction, les gouvernements tentent de reconstituer des assiettes fiscales qu’ils ont eux-même ébréchées, tout en continuant dans cette même veine non sans incohérence.
Tentant de biaiser, les tenants du système n’en sont pas moins tenus en échec devant l’insoluble question d’un endettement qui le plombe, qu’il soit privé ou public après avoir été transféré. Paradoxalement, la dette est l’un de ses points d’appui, tout du moins tant qu’elle est assortie d’une garantie de remboursement, mais celle-ci s’effrite au fur et à mesure que l’endettement s’apparente à une spéculation sur une richesse future improbable car reposant sur une croissance économique introuvable. Et l’accroissement persistant des inégalités reposant sur la disparité des rendement des activités économiques et financières rend l’équation sans solution, car les deux questions sont étroitement liées. La dette soutient désormais le capitalisme comme la corde le pendu !
(François Leclerc, no blog de Paul Jorion)

Tuesday, December 9, 2014

Poema de Natal

Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos e não tiver caridade, sou como o metal que soa ou como o sino que tine. E se eu tiver o dom da profecia e conhecer todos os mistérios e quanto se pode saber; e se eu tiver toda a fé, até a ponto de transportar montanhas, e não tiver caridade, não sou nada.

(São Paulo, Primeira Epístola aos Coríntios)


Quem encontraste hoje que te oferecesse
o puro leite da ternura humana*
e não o mel da lisonja ou a indiferença comum?

Muitos dias ficam assim, suspensos num vazio de desamor,
mas nós já nem damos por isso,
temos que marcar lugar na feira, os carrosséis giram sem nós
e as crianças apontam-nos com o dedo, nós que persistimos
em montar no cavalinho de pau e dar mais uma volta,
sem razão que valha.

O Natal passa por nós, faltam-nos a alguns os pais,
a outros os filhos ou os netos.
Esta festa foi inventada para afastar com luzes, muitas luzes,
o escuro do inverno e a ideia da morte.
Para onde foram todos? Para onde foram todos?

Aproxima-te de mim. Não falo de Cristo.
Só me lembrei da consoada e da tua azáfama festiva,
que afasta de nós a morte ao inventar alegria,
a pura alegria em que duramos.

S.Paulo pergunta-nos pela caridade
e aqui estou eu de pé, envergonhado como uma criança,
porque eu não tenho fé, não tenho a fé, e essa falta não me dói,
mas sei que tenho, que temos, ó irmãos humanos, que responder
por toda a caridade que não tivémos.

*Shakespeare









Monday, December 8, 2014

Rule Britannia



Le Monde
Économie et Entreprise, lundi 8 décembre 2014, p. SCQ3
Bruxelles pourrait enterrer son projet de réforme bancaire
Jonathan Hill , le commissaire aux services financiers, évoque le retrait de la directive destinée à mieux encadrer les activités spéculatives
Séparer au sein des banques européennes les activités à risque pour éviter de nouvelles crises : la proposition a été portée, depuis près d'un an, par Michel Barnier, quand il était commissaire au marché intérieur et aux services. Ambitieux, ce projet de directive a suscité de vives controverses. Et alors qu'une nouvelle Commission est en place depuis début novembre, le projet législatif de réforme bancaire pourrait être abandonné.
Le nouveau commissaire aux services financiers, le Britannique Jonathan Hill, a fait parvenir, le 18 novembre, à Frans Timmermans, numéro deux de la nouvelle Commission européenne, une lettre dans laquelle il évoque le retrait de la proposition de son prédécesseur comme une option à envisager en 2015." Dans le cas où les Etats membres de l'Union européenne continueraient à ne pas soutenir - l'initiative - ",dit-il.
C'est Philippe Lamberts, un des leaders des Verts au Parlement européen, très au fait du sujet de la régulation bancaire, qui, jeudi 4 décembre, a alerté les médias à propos de cette lettre de M. Hill. " Le signal qu'il envoie aux Etats membres est clair : "Continuez à privilégier une stratégie de pourrissement de ce dossier, et nous nous chargerons de tuer dans l'oeuf la réforme bancaire", accuse M. Lamberts.
La proposition de M. Barnier ciblait les trente plus gros établissements de l'UE, dont la faillite déstabiliserait l'économie. Il visait à interdire aux banques, dès 2017, de spéculer pour leur compte propre sur des produits financiers s'échangeant sur les marchés (actions, obligations, etc.) et sur les matières premières. Il proposait que les autorité bancaires nationales, au-dessus d'un certain volume réalisé, obligent lesbanques à filialiser leurs activités à risque.
Levée de boucliers
Les propositions de M. Barnier étaient inspirées de la réforme américaine, dite " Volcker ", du nom de l'ancien président de la Réserve fédérale américaine (Fed, banque centrale). Elles ont suscité une levée de boucliers immédiate et vigoureuse. Notamment en France. Au sein des banques. Mais pas seulement. Les banquiers français ont reçu l'appui des pouvoirs publics. Ces derniers ont fait savoir à Bruxelles que le projet était " irresponsable " pour reprendre le terme, plutôt fort dans la bouche d'un banquier central, de Christian Noyer, le gouverneur de la Banque de France.
L'argument avancé ? Le projet fragiliserait les banques et serait plus contraignant que les réglementations, assez " light ", que la France a adoptées après la crise. Ces dernières consistent surtout en un renforcement des organes de contrôle nationaux. Le Royaume-Uni, qui a aussi adopté ses propres règles (dites " loi Vickers ") et l'Allemagne militaient aussi contre ce texte.
" M. Hill ne dit pas du tout dans son courrier qu'il faut se débarrasser de la proposition Barnier. Il se livre juste à l'exercice, imposé par la nouvelle Commission, d'évaluation des chantiers en cours dans notre institution ", argumente une source bruxelloise.
Tamisage législatif
De fait, la Commission Juncker veut se concentrer sur quelques sujets (le numérique, l'énergie, la relance de l'économie). Elle a décidé de faire le tri entre tous les projets de textes législatifs portés par ses services et de ne retenir que ceux qu'elle juge prioritaires. Ou ayant une chance d'aboutir. C'est-à-dire d'obtenir un accord au Conseil, la réunion des Vingt-Huit, et/ou au Parlement européen. M. Timmermans est responsable de ce tamisage législatif.
Or, le projet Barnier coche une de ces cases : du point de vue de M. Hill, le texte qui divise pourrait ne pas passer la barre du Conseil, en raison de l'opposition forte des trois plus grandes économies de l'Union européenne, la France, le Royaume-Uni et l'Allemagne.
" Aucune décision n'a été prise, en tout cas pour l'instant ", prévient une source européenne. " En l'état, le texte dont on parle a peu de chances de passer. A moins qu'il soit réécrit sous une forme allégée, avec une séparation des activités risquées qui ne serait plus obligatoire, mais seulement optionnelle, par exemple ", relève une autre source bien renseignée.
C. Du.
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