Sunday, February 15, 2015

Cinzas

È un brusio la vita, e questi persi
in essa, la perdono serenamente,
se il cuore ne hanno pieno: a godersi
 
eccoli, miseri, la sera: e potente
in essi, inermi, per essi, il mito
rinasce... Ma io, con il cuore cosciente
 
di chi soltanto nella storia ha vita,
potrò mai più con pura passione operare,
se so che la nostra storia è finita?

(Pier Paolo Pasolini, Le Cenere di Gramsci)

Saturday, February 14, 2015

Catar feijão

CATAR  FEIJÃO

1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 
2. 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Sunday, February 1, 2015

Lisboa revisitada


Perdem as casas suas várias cores
e as barcas novas aguardam melhor maré,
à falta de vento.
Deixámo-nos ficar?

Há uma nau que nunca regressou.
Essa será a nossa.

Sunday, January 25, 2015

Saturday, January 24, 2015

Outro Ulisses volta a casa


Cidades que nunca atravessei, nomes que ressoam da infância,
Samarcanda, Trebizonda, cidades que nunca vi,
promessas por cumprir de um atlas folheado na infância,
noutro século, num outro século.

Cidades como casas desfeitas,
caixotes abertos no chão, gavetas por esvaziar,
livros que sempre sobram.
É fácil resumir uma vida.
O que dela ficará, não sabemos. Mais certamente
nada.

Ficam as palavras encontradas num velho atlas:
Samarcanda, Trebizonda.
Um dia. Um dia estarei lá.

Friday, January 23, 2015

Em memória de Miguel Galvão Teles

A primeira vez que o encontrei, tinha eu quinze anos, foi em 1966. Com o meu tio João, víamos na companhia do Miguel Galvão Teles (a mais brilhante inteligência jurídica que eu conheci, disse-me uma vez o meu tio), pela televisão a preto e branco, o lendário Portugal - Coreia do Norte. Com o espanto de alguém que nunca soube entender até ao fim a paixão do futebol (não é, Miguel Castro Mendes?) , eu vi aquela brilhante mente jurídica atirar-se ao chão e bater com as mãos no soalho, na euforia plena dos golos de Eusébio. Foi meu professor de Direito Constitucional, encontrámos-nos na política nos anos de brasa do PREC, amigos sempre. Hoje, ao saber que partiu, lembro a pura alegria desse jogar-se sobre o chão em festejo do golo do Eusébio, como uma manifestação dessa alegria que, diz Espinoza, "aumenta a potência da alma", e que está, tem de estar, sempre por detrás de uma grande, de uma insaciável inteligência.

Wednesday, January 21, 2015

Mudança



Notre Mouvement
Nous vivons dans l'oubli de nos métamorphoses
Le jour est paresseux mais la nuit est active
Un bol d'air à midi la nuit le filtre et l'use
La nuit ne laisse pas de poussière sur nous
Mais cet écho qui roule tout le long du jour
Cet écho hors du temps d'angoisse ou de caresses
Cet enchaînement brut des mondes insipides
Et des mondes sensibles son soleil est double
Sommes-nous près ou loin de notre conscience
Où sont nos bornes nos racines notre but
Le long plaisir pourtant de nos métamorphoses
Squelettes s'animant dans les murs pourrissants
Les rendez-vous donnés aux formes insensées
À la chair ingénieuse aux aveugles voyants
Les rendez-vous donnés par la face au profil
Par la souffrance à la santé par la lumière
À la forêt par la montagne à la vallée
Par la mine à la fleur par la perle au soleil
Nous sommes corps à corps nous sommes terre à terre
Nous naissons de partout nous sommes sans limites
PAUL ÉLUARD
in Le dur désir de durer, 1946, Œuvres complètes t.II © Gallimard, La Pléiade, p.83

Tuesday, January 20, 2015

Recomeçar



Bom dia, depressão de um dia de neve
e do reencontro com as antigas ilusões.
Bom dia, camarada vida, a esperança dispersa-se
em pequenas luzes bruxuleantes, trémulas como pirilampos,
à beira de uma noite que vem por trás de todas as noites.
Bom dia, palavras.

Sunday, January 11, 2015

Poema para este dia


    THE SECOND COMING
   
    Turning and turning in the widening gyre
    The falcon cannot hear the falconer;
    Things fall apart; the centre cannot hold;
    Mere anarchy is loosed upon the world,
    The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
    The ceremony of innocence is drowned;
    The best lack all conviction, while the worst
    Are full of passionate intensity.
 
    Surely some revelation is at hand;
    Surely the Second Coming is at hand.
    The Second Coming! Hardly are those words out
    When a vast image out of Spiritus Mundi
    Troubles my sight: a waste of desert sand;
    A shape with lion body and the head of a man,
    A gaze blank and pitiless as the sun,
    Is moving its slow thighs, while all about it
    Wind shadows of the indignant desert birds.
   
    The darkness drops again but now I know
    That twenty centuries of stony sleep
    Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
    And what rough beast, its hour come round at last,
    Slouches towards Bethlehem to be born?

   WILLIAM BUTLER YEATS

Saturday, January 10, 2015

Caixadóclos


- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.

- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha da cobra!

- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é dos que fala sozinho na rua...

- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!

- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...

- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...

- Ah, agora sim, fazem-me justiça!

- Olha o caixadóclos todo satisfeito
a ler as notícias...


Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa

Um bocadinho assim...


Ni vu ni connu
Je suis le parfum
Vivant et défunt
Dans le vent venu !

Ni vu ni connu,
Hasard ou génie ?
À peine venu
La tâche est finie !

Ni lu ni compris ?
Aux meilleurs esprits
Que d'erreurs promises !

Ni vu ni connu,
Le temps d'un sein nu
Entre deux chemises !


PAUL VALÉRY

Wednesday, January 7, 2015

Charlie


Recados

O MEU PRIMEIRO LIVRO

(publicado no JL de 7 de Janeiro de 2014)



Eu andava de roda da poesia desde os meus quinze anos. Publiquei poemas no Diário de Lisboa-Juvenil (eu e muita gente, seria interessante voltar agora a publicar uma mostra desses poemas adolescentes de tantas e tão diversas pessoas...), e ali fui acolhido pela hospitaleira amizade do Mário Castrim e da Alice Vieira.

Continuei sempre a escrever, através de todas as mudanças e andanças da minha vida, passada que foi a Revolução de Abril, iniciada já a minha carreira diplomática. Mas só com trinta e três anos é que finalmente julguei digno de poder ser publicado um livrinho meu de poemas, a que chamei Recados.

Era em 1983, estava eu então colocado em Madrid e pedi ao José António Llardent, um bom amigo já falecido, grande tradutor de Fernando Pessoa para castelhano, que me lesse e julgasse o texto. O José António achou-o publicável. Senti-me aprovado. Procurei então, em Lisboa, um editor.

Depois de o Joaquim Manuel Magalhães ter recusado liminarmente a  sua publicação na editora “A Regra do Jogo”, dirigi-me a medo com o meu manuscrito (não havia internet nesse tempo) à Imprensa Nacional, onde o Vasco Graça Moura dirigia uma colecção para estreantes, que se chamava “Plural”.

Era a primeira vez que via o Vasco. Ele leu o texto e, para meu grande alívio e a bem da minha ansiedade, deu o seu acordo. Para a execução da edição (que era feita por uma editora portuense chamada “Gota de Água”), tive de ir ao Porto, cidade que me era então pouco familiar e onde me senti desde logo muito bem.

Não houve lançamento público. Tive, aqui no JL, uma crítica entusiástica de Eduardo Prado Coelho ao meu primeiro livro, que muito me sensibilizou e estimulou. Mas este livro, mais tarde, em 1999, não foi incluído nos meus Poemas Reunidos, editados pela Quetzal, e isso por minha escolha e exclusiva responsabilidade. Merecê-lo-ia? Terei feito bem? Porque o enjeitei, afinal?

Mas não vale a pena sentir qualquer remorso:  de qualquer modo, a Quetzal já guilhotinou (ah ça ira, ça ira, ça ira...) todos os exemplares que restavam desses meus Poemas Reunidos...

Thursday, January 1, 2015

Que seja assim o Ano Novo...

— De sua formosura
deixai-me que diga:
É tão belo como um sim
numa sala negativa.

— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— É belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.


(João Cabral de Melo Neto, "Morte e vida severina, auto de natal pernambucano")

Thursday, December 25, 2014

Álvaro de Campos, neste Natal


Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler –
As Bíblia, em português, porque (coisa curiosa) eram protestantes.
E reli a Primeira Epístola aos Coríntios.
Em torno de mim o sossego excessivo das noites de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência de choro para a desolação.
A Primeira Epístola aos Coríntios…
Reli-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima,
E um grande mar de emoção chorava dentro de mim…
Sou nada…
Sou uma ficção…
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
“Se eu não tivesse caridade”…
E a soberana voz manda, do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma fica livre…
“Se eu não tivesse caridade”..
Meu Deus e eu não tenho caridade…
ÁLVARO DE CAMPOS

Wednesday, December 24, 2014

Sunday, December 21, 2014

Dois poemas de Natal, em diálogo


s

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal' 


— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é 
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.


João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, Auto de Natal Pernambucano, final

Saturday, December 13, 2014

Incomodidade



Não era o normal sentimento de estar a mais
(não estamos todos?),
nem a vontade de ser ouvido e poder quebrar por dentro
o ruído do mundo.
Tinha compreendido finalmente
que todas as bancadas à sua frente
estavam vazias.



Wednesday, December 10, 2014

Contribuição para o livro de homenagem a José Manuel Galvão Teles

Meu caro Zé Manel, não sei se é tarde demais que escrevo este depoimento ou se, pelo contrário, chego mesmo na última hora, assim como era o teu atraso ao chegar às nossas reuniões políticas (a não ser, é claro, quando elas eram em tua casa): chegavas no fim, quando se tinham esgotado todos os argumentos, brilhado todas as oratórias, enfrentado todos os tenores e, justamente por chegares no fim , perguntavas baixinho a um de nós (às vezes a mim, que era o mais novo de todos) a que ponto tinha chegado a discussão. Ouvida a síntese dos argumentos em liça, pedias a palavra, entre os protestos e as gargalhadas devidas aos teus repetidos atrasos, e fazias a síntese de uma posição equilibrada e ponderada, que era sempre vista com alívio por todos aqueles que queriam realmente chegar a uma conclusão.

Conheci-te e à Micuxa em 1973, muito mais novo do que tu (hoje, ressalvada a tua sabedoria da vida, que foi sempre muito maior do que a minha, temos praticamente a mesma idade), jovem estudante de militância anti-fascista encetada nas associações de estudantes, que chegava à CDE para reforçar a linha (esquerda socialista não PCP, mas também – ainda... – não social-democrata) que vocês, de uma outra geração, lideravam. A tua casa era o ponto de reunião da nossa célula do Campo Grande. No andar de baixo morava o então exilado Dr. Mário Soares, teu grande amigo, que eu não conhecia ainda, embora fosse amigo e companheiro de lutas dos filhos João e Isabel e, por via deles, encontrasse a Dra. Maria de Jesus (em Aveiro, nesse verão, vi essa grande senhora, da idade da minha Mãe, avançar com serena coragem à cabeça da manifestação do Congresso da Oposição Democrática em direcção aos polícias de choque que fechavam a rua – “tem que ser, meu amigo”, disse-me tranquilamente). Tinhas ainda um sótão, mas normalmente reuníamos na tua sala de estar, bem por cima da casa do teu ilustre vizinho.

Recordações dessa sala de estar baralham-se na minha memória: entre os dias em que havia carros da PIDE à porta e íamos saindo um a um de garganta apertada e outros dias em que, já com o teu vizinho no andar de baixo regressado do exílio e a liderar o PS, se tratava de fundar um novo movimento de esquerda socialista e redigir o seu manifesto definitivo; entre os dias de luta comum anti-fascista, em que se tratava de rebater uma posição dos nossos aliados do PC no interior da CDE e outros dias em que, aliados de Melo Antunes e do Documento dos Nove, discutíamos se, no caso de uma vitória dos militares comunistas, seguiríamos Mário Soares para o Porto ou passaríamos à clandestinidade em Lisboa. Uma coisa me lembro bem: em 1975, nunca defendemos o voto em branco nas primeiras eleições livres havidas em Portugal.

Estivémos juntos no inesquecível movimento político “Grupo de Intervenção Socialista” (GIS) e quando este grupo, em 1977, decidiu extinguir-se e integrar o PS, tendo eu entrado já na carreira diplomática e estando a democracia consolidada em Portugal, decidi não aderir convosco ao PS, não por discordar daquela opção (que me parecia completamente acertada), mas por entender (e nesta minha decisão o Jorge Sampaio foi determinante) que, se um diplomata não pode, por estatuto, ter actividade partidária enquanto está no activo, não fazia sentido uma mera inscrição, sem possibilidade de real intervenção nas instâncias partidárias. Entenda-se bem: não penso de forma alguma que esteja interdito aos diplomatas aderir a partidos e muitas colegas meus o fizeram e fizeram muito bem. Esta foi apenas a minha opção e sempre a mantive. Mas também nunca escondi as minhas ideias e nunca (como deve ser num país democrático) nenhum ministro me penalizou ou prejudicou por elas.

Estive contigo em Nova Iorque, era eu o adido de embaixada que trazia a mala diplomática de Lisboa para as Nações Unidas (um arcaísmo...) e eras tu embaixador de Portugal nessa organização (posto que mais tarde veio a ser ocupado por outro ex-GIS, o nosso comum amigo José Filipe Moraes Cabral). Fiquei em tua casa, no famoso andar do Dakota Building, era nesse tempo a Residência Oficial: belíssimo edifício, entre a delicada e algo sinistra decoração chinesa do interior, a memória do assassinato de John Lennon e os pensamentos diversos expressos alto e bom som pelo porteiro cubano...

O meu percurso diplomático passou a ser pontuado pelas tuas visitas a todos os meus postos: desde Luanda, em 1978, onde, numa grande prova de amizade, correste o risco da tua vida, ao viajar num carro conduzido por mim (naquela longínqua época, segundo fontes insuspeitas, o risco da minha condução automóvel era equivalente ao da guerra civil em Angola); passando por Madrid, onde me apresentaste a todos os altos quadros do PSOE, contactos que tão úteis foram ao jovem secretário de embaixada encarregado de seguir a política interna espanhola que eu era então, nomeadamente no dia 23 de Fevereiro de 1981, quando o Raul Morodo apareceu na nossa Embaixada a perguntar se Portugal daria asilo político aos democratas espanhóis (e quer o Presidente Ramalho Eanes, quer o Primeiro Ministro Francisco Balsemão – era MNE o Professor André Gonçalves Pereira – responderam imediatamente que sim); em Paris, nos anos noventa, com a Micuxa (e com a Teresa Paiva?), já com a Didas na minha vida, a cimentar uma amizade que passou então a ser entre os dois casais; no Brasil, com a tua filha Inês, depois na Hungria (não nos visitaste na Índia...), em Paris de novo, o ano passado (fomos os quatro à ópera, temos essa paixão em comum), enfim, em quase todos os lugares da nossa vida sempre tivémos a alegria da vossa visita amiga, com o contraponto das nossas idas nas férias à vossa casa do Estoril e do inesquecível (por razões pessoais que não vêm ao caso) jantar de despedida que nos deste, na tua casa do Chiado, quando parti para o meu efémero posto na UNESCO. E bem sabes que vos esperamos aqui em Estrasburgo.

A amizade não tem alíneas, por isso não vou enumerar como sempre me ajudaste em todos os meus problemas pessoais, jurídicos ou de outra índole, como a tua experiência da vida e das coisas me ajudou a esclarecer algumas das minhas dificuldades, enfim, como és um amigo com quem sempre conto e contarei.

Não faço o teu perfil jurídico, porque não sou jurista (a não ser pelo curso), mas ele só poderia ser de louvor e de admiração; não traço o teu perfil político, porque não sou um político(sem nunca ter abdicado das minhas opções), mas o desenho dele só poderia ser de total integridade e de absoluta coerência.

Zé Manel, desculpa o atraso, cheguei agora e como não li as outras intervenções, nem sei se estou bem enquadrado no debate. Mas deixo-te um grande abraço de inexcedível amizade e de total confiança.

Estrasburgo, 14 de Abril de 2013

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES

          

La Ballade des Pendus





Atteignant le dérisoire mais néanmoins significatives, dans l’espoir peu crédible d’induire un comportement vertueux, les amendes pleuvent sur des manipulations financières outrageantes présentées comme autant de cas d’espèce, tandis que de timides tentatives d’encadrement des bonus faramineux, de distributions de stock-options et d’octroi des retraites-chapeaux sont enregistrées. Doit-on s’interroger pour savoir si cela doit être porté au compte de la naïveté ou de la duplicité ? Le sort qui va être réservé à une évasion fiscale pratiquée par les entreprises transnationales à l’échelle industrielle apportera la réponse. Pour l’instant, pris au sein d’une contradiction, les gouvernements tentent de reconstituer des assiettes fiscales qu’ils ont eux-même ébréchées, tout en continuant dans cette même veine non sans incohérence.
Tentant de biaiser, les tenants du système n’en sont pas moins tenus en échec devant l’insoluble question d’un endettement qui le plombe, qu’il soit privé ou public après avoir été transféré. Paradoxalement, la dette est l’un de ses points d’appui, tout du moins tant qu’elle est assortie d’une garantie de remboursement, mais celle-ci s’effrite au fur et à mesure que l’endettement s’apparente à une spéculation sur une richesse future improbable car reposant sur une croissance économique introuvable. Et l’accroissement persistant des inégalités reposant sur la disparité des rendement des activités économiques et financières rend l’équation sans solution, car les deux questions sont étroitement liées. La dette soutient désormais le capitalisme comme la corde le pendu !
(François Leclerc, no blog de Paul Jorion)

Tuesday, December 9, 2014

Poema de Natal

Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos e não tiver caridade, sou como o metal que soa ou como o sino que tine. E se eu tiver o dom da profecia e conhecer todos os mistérios e quanto se pode saber; e se eu tiver toda a fé, até a ponto de transportar montanhas, e não tiver caridade, não sou nada.

(São Paulo, Primeira Epístola aos Coríntios)


Quem encontraste hoje que te oferecesse
o puro leite da ternura humana*
e não o mel da lisonja ou a indiferença comum?

Muitos dias ficam assim, suspensos num vazio de desamor,
mas nós já nem damos por isso,
temos que marcar lugar na feira, os carrosséis giram sem nós
e as crianças apontam-nos com o dedo, nós que persistimos
em montar no cavalinho de pau e dar mais uma volta,
sem razão que valha.

O Natal passa por nós, faltam-nos a alguns os pais,
a outros os filhos ou os netos.
Esta festa foi inventada para afastar com luzes, muitas luzes,
o escuro do inverno e a ideia da morte.
Para onde foram todos? Para onde foram todos?

Aproxima-te de mim. Não falo de Cristo.
Só me lembrei da consoada e da tua azáfama festiva,
que afasta de nós a morte ao inventar alegria,
a pura alegria em que duramos.

S.Paulo pergunta-nos pela caridade
e aqui estou eu de pé, envergonhado como uma criança,
porque eu não tenho fé, não tenho a fé, e essa falta não me dói,
mas sei que tenho, que temos, ó irmãos humanos, que responder
por toda a caridade que não tivémos.

*Shakespeare









Monday, December 8, 2014

Rule Britannia



Le Monde
Économie et Entreprise, lundi 8 décembre 2014, p. SCQ3
Bruxelles pourrait enterrer son projet de réforme bancaire
Jonathan Hill , le commissaire aux services financiers, évoque le retrait de la directive destinée à mieux encadrer les activités spéculatives
Séparer au sein des banques européennes les activités à risque pour éviter de nouvelles crises : la proposition a été portée, depuis près d'un an, par Michel Barnier, quand il était commissaire au marché intérieur et aux services. Ambitieux, ce projet de directive a suscité de vives controverses. Et alors qu'une nouvelle Commission est en place depuis début novembre, le projet législatif de réforme bancaire pourrait être abandonné.
Le nouveau commissaire aux services financiers, le Britannique Jonathan Hill, a fait parvenir, le 18 novembre, à Frans Timmermans, numéro deux de la nouvelle Commission européenne, une lettre dans laquelle il évoque le retrait de la proposition de son prédécesseur comme une option à envisager en 2015." Dans le cas où les Etats membres de l'Union européenne continueraient à ne pas soutenir - l'initiative - ",dit-il.
C'est Philippe Lamberts, un des leaders des Verts au Parlement européen, très au fait du sujet de la régulation bancaire, qui, jeudi 4 décembre, a alerté les médias à propos de cette lettre de M. Hill. " Le signal qu'il envoie aux Etats membres est clair : "Continuez à privilégier une stratégie de pourrissement de ce dossier, et nous nous chargerons de tuer dans l'oeuf la réforme bancaire", accuse M. Lamberts.
La proposition de M. Barnier ciblait les trente plus gros établissements de l'UE, dont la faillite déstabiliserait l'économie. Il visait à interdire aux banques, dès 2017, de spéculer pour leur compte propre sur des produits financiers s'échangeant sur les marchés (actions, obligations, etc.) et sur les matières premières. Il proposait que les autorité bancaires nationales, au-dessus d'un certain volume réalisé, obligent lesbanques à filialiser leurs activités à risque.
Levée de boucliers
Les propositions de M. Barnier étaient inspirées de la réforme américaine, dite " Volcker ", du nom de l'ancien président de la Réserve fédérale américaine (Fed, banque centrale). Elles ont suscité une levée de boucliers immédiate et vigoureuse. Notamment en France. Au sein des banques. Mais pas seulement. Les banquiers français ont reçu l'appui des pouvoirs publics. Ces derniers ont fait savoir à Bruxelles que le projet était " irresponsable " pour reprendre le terme, plutôt fort dans la bouche d'un banquier central, de Christian Noyer, le gouverneur de la Banque de France.
L'argument avancé ? Le projet fragiliserait les banques et serait plus contraignant que les réglementations, assez " light ", que la France a adoptées après la crise. Ces dernières consistent surtout en un renforcement des organes de contrôle nationaux. Le Royaume-Uni, qui a aussi adopté ses propres règles (dites " loi Vickers ") et l'Allemagne militaient aussi contre ce texte.
" M. Hill ne dit pas du tout dans son courrier qu'il faut se débarrasser de la proposition Barnier. Il se livre juste à l'exercice, imposé par la nouvelle Commission, d'évaluation des chantiers en cours dans notre institution ", argumente une source bruxelloise.
Tamisage législatif
De fait, la Commission Juncker veut se concentrer sur quelques sujets (le numérique, l'énergie, la relance de l'économie). Elle a décidé de faire le tri entre tous les projets de textes législatifs portés par ses services et de ne retenir que ceux qu'elle juge prioritaires. Ou ayant une chance d'aboutir. C'est-à-dire d'obtenir un accord au Conseil, la réunion des Vingt-Huit, et/ou au Parlement européen. M. Timmermans est responsable de ce tamisage législatif.
Or, le projet Barnier coche une de ces cases : du point de vue de M. Hill, le texte qui divise pourrait ne pas passer la barre du Conseil, en raison de l'opposition forte des trois plus grandes économies de l'Union européenne, la France, le Royaume-Uni et l'Allemagne.
" Aucune décision n'a été prise, en tout cas pour l'instant ", prévient une source européenne. " En l'état, le texte dont on parle a peu de chances de passer. A moins qu'il soit réécrit sous une forme allégée, avec une séparation des activités risquées qui ne serait plus obligatoire, mais seulement optionnelle, par exemple ", relève une autre source bien renseignée.
C. Du.
© 2014 SA Le Monde. Tous droits réservés.

Sunday, December 7, 2014

As nuvens



(Manet, Luar no Porto de Cherburgo)

Movemo-nos entre as noites e as dunas que nos cercam,
espectros de outro tempo e de outra vida;
mas aquelas mulheres juntaram-se a um canto, silenciosas,
pois esperam de nós alguma coisa
que não sabemos o que é:
uma palavra, um grito, um deslizar manso
sobre as águas, ou o mero esplendor do nosso fim
iluminado pelo mais solene dos luares?
As nuvens, sim, as indiferentes nuvens
anunciam um cruel fulgor,
que nós a tempo não saberemos ver




Wednesday, December 3, 2014

Adivinha



Sobre a dívida pública
– “Não é com os programas de ajustamento actuais que vamos lá. Podemos até ganhar algum tempo, mas não é assim que debelaremos a situação. E se os programas de ajustamento não resolvem definitivamente o problema da dívida, o que é que se pode fazer? Como poderá ser resolvido todo este elevadíssimo endividamento? Sinceramente, penso que a crise da dívida europeia só será resolvida com um reescalonamento a longo prazo da dívida dos países europeus mais endividados.”

Adivinhem lá quem foi o esquerdista que escreveu isto: Louçã? Rui Tavares?

Monday, December 1, 2014

As meninas de São Bento

AVANTAJADAS QUE PASSAIS PELA INTERNET...
Ai jovens avantajadas
que passais pelo ecrã!
E as virgens tão delicadas
do Nobre, noite e manhã...
Há algo que se perdeu,
das virgens ao sol poente
ao voyeur filisteu
visto pela adolescente!
Menina estás à janela
do Parlamento, voraz,
a espreitar qual cinderela
a internet do rapaz!

Thursday, November 27, 2014

Prendam o Povo!

PRENDAM O POVO !


”Enquanto isso, é bom que se diga, de novo: 53 milhões de eleitores aprovaram tudo isso e 39 milhões de eleitores lavaram as mãos. Já estava tudo sabido pelos jornais, pelo rádio, pela televisão, desde janeiro, e depois na campanha política. Então, não me venham dizer que não são cúmplices”.
(Alexandre Garcia, jornalista brasileiro, sobre os escândalos na PETROBRÁS e os eleitores do PT)


Mas os portugueses quiseram que fosse assim. E tanto quiseram que em 2009, indiferentes ao que já se sabia sobre a actuação de Sócrates no Freeport e muito particularmente nessa vergonha nacional que foi o processo de licenciamento e construção da central de tratamentos de lixos da Cova da Beira, 2 077 695 eleitores lhe deram o seu voto para que continuasse como primeiro-ministro. É certo que o PS perdeu então a maioria absoluta mas note-se que não se pode falar de desastre eleitoral: em 2005, ano da grande vitória de Sócrates, o PS tivera 2 588 312. Que Sócrates continuasse a obter mais de dois milhões de votos depois do que sucedera entre 2005 e 2009 diz muito sobre a nossa alienação de valores.
(Helena Matos, jornalista portuguesa, sobre o caso Sócrates e os eleitores do PS)

Tuesday, November 25, 2014

O Financial Times na extrema-esquerda?

Éditorialiste du Financial Times en matière d’économie européenne, Wolfgang Münchau est peu suspect de complaisance envers une gauche radicale européenne qu’il qualifie volontiers de « dure »Dans sa contribution du lundi 24 novembre, reproduite ci-dessous, il estime pourtant qu’elle seule prône les politiques économiques qui s’imposent. (traduction Bernard Marx)
Supposons que vous partagez le consensus général sur ce que la zone euro devrait faire dès maintenant. Plus précisément, vous voulez voir plus d’investissements du secteur public et une restructuration de la dette. Maintenant, posez-vous la question suivante : si vous étiez un citoyen d’un pays de la zone euro, quel parti politique devriez-vous soutenir pour que cela se produise ?
Vous seriez sans doute surpris de constater que vous n’avez pas beaucoup de choix. En Allemagne, le seul qui se rapproche d’un tel programme est Die Linke, les anciens communistes. En Grèce, ce serait Syriza ; et en Espagne, Podemos, qui est sorti de nulle part et est maintenant en tête dans les sondages d’opinion. Vous pouvez ne pas vous considérer comme un partisan de la gauche radicale. Mais si vous viviez dans la zone euro et que vous étiez favorable à cette politique, ce serait votre seul choix possible.

« L’establishment espagnol craint que le programme de Podemos transforme le pays en une version européenne du Venezuela »

Qu’en est-il des partis de centre-gauche, les sociaux-démocrates et socialistes ? Ne soutiennent-ils pas un tel programme ? Cela leur arrive lorsqu’ils sont dans l’opposition. Mais une fois au pouvoir, ils ressentent le besoin de devenir respectables, à un point tel qu’ils se découvrent des gènes du côté de la politique de l’offre. Rappelez-vous que François Hollande, le président de la France, a justifié le changement de politique de son gouvernement en expliquant que l’offre crée la demande.
Parmi les partis radicaux qui ont émergé récemment, celui qu’il faut regarder avec le plus d’attention est Podemos. Il est encore jeune, avec un programme en cours d’élaboration. De ce que j’ai lu jusqu’à présent, il peut être celui qui paraît le plus en capacité d’offrir une approche cohérente de la gestion économique de l’après-crise.
Dans une récente interview, Nacho Alvarez, l’un des responsables de la politique économique de ce parti a présenté son programme avec une clarté rafraîchissante. Ce professeur d’économie de trente-sept ans a expliqué que le fardeau de la dette espagnole (à la fois privée et publique), n’est pas supportable et qu’il doit être réduit. Cela pourrait se faire par la combinaison d’une renégociation des taux d’intérêt, de délais de paiement, de rééchelonnement et d’annulations partielles. Il a également déclaré que l’objectif de Podemos n’était pas de quitter la zone euro – mais inversement qu’il n’était pas d’y appartenir à tout prix. L’objectif est le bien-être économique du pays.
Vu de l’extérieur, cela semble une position équilibrée. Mais pas tant que cela en Espagne. L’establishment craint que le programme de Podemos transforme le pays en une version européenne du Venezuela. Mais affirmer que si la dette n’est pas soutenable, elle doit être restructurée ; ou que si l’euro devait apporter des décennies de souffrance, il serait parfaitement légitime de s‘interroger sur les institutions et les politiques de la zone euro, ne devrait pas porter à controverse.

« Les partis de centre-gauche et centre-droit font dériver l’Europe vers l’équivalent économique d’un hiver nucléaire »

La position de Podemos part simplement de la réalité de la situation de la zone euro à la fin de 2014. Il est logiquement incompatible pour la monnaie unique d’entrer dans une stagnation de longue durée et de ne pas restructurer sa dette. Puisque rien n’est fait pour éviter celle-là, la probabilité que celle-ci intervienne s’approche de 100%.
Pourtant, pour le moment, les gouvernements européens continuent à jouer à "durer et faire semblant". On voit en Grèce où conduit une telle stratégie à courte vue. Après six années de dépression économique, le gouvernement se trouve dans une crise politique aiguë. Syriza est en tête dans les sondages, et a de bonnes chances de prendre le pouvoir lors des prochaines élections générales, peut-être en 2015.
L’Espagne n’en est pas encore à ce stade. Podemos pourraient priver les plus grands partis – le Parti populaire du premier ministre Mariano Rajoy et le parti d’opposition socialiste – de la majorité absolue lors des élections de l’année prochaine. Cela pourrait les forcer à réaliser une grande coalition de style allemand – qui ferait de Podemos le principal parti d’opposition.
La situation en Italie est différente, mais elle n’est pas moins grave. Si le premier ministre Matteo Renzi ne parvient pas à générer une reprise économique dans ses trois années restantes de son mandat, le mouvement d’opposition Cinq étoiles serait en pole position pour former le prochain gouvernement. Contrairement à Podemos, ce n’est pas un parti vraiment radical, et il est un ardent défenseur de la sortie de l’euro. Comme le sont aussi le Front national en France et Alternative für Deutschland en Allemagne.
Ce que Podemos doit encore faire est d’offrir une vision cohérente de la vie après une restructuration de la dette. Ce serait une bonne idée que ce parti s’organise au niveau de la zone euro au-delà de son alliance avec Syriza au Parlement européen, parce que c’est à ce niveau que les décisions politiques pertinentes sont prises. Une résolution de la dette pour l’Espagne est certes nécessaire, mais cela ne peut être que le début d’un changement plus large de politique.

La tragédie actuelle de la zone euro est l’esprit de résignation par lequel les partis de l’establishment du centre-gauche et du centre-droit font dériver l’Europe vers l’équivalent économique d’un hiver nucléaire. L’une de ses dimensions particulières est que les partis de la gauche dure sont les seuls qui soutiennent des politiques raisonnables tels que la restructuration de la dette. La montée de Podemos montre qu’il existe une demande de politique alternative. À moins que les partis établis changent leur position, ils laisseront la voie grande ouverte à Podemos et Syriza.

(o artigo de Wolfgang Munchau vai na tradução francesa, porque o FT não permite a divulgação do original para não assinantes)

Medusa



Rubens, 1618

Friday, November 21, 2014

Tuesday, November 18, 2014