Saturday, October 18, 2014

Um poema de Carlos de Oliveira a José Gomes Ferreira

Visão de José Gomes Ferreira no Vanderman



Nos cimos,
onde a água esperava o momento de vir lavar
os homens,
Você viu
por um súbito rasgão da insónia
os animais miúdos comidos pelos maiores,os
maiores comidos pelos homens,os homens
roídos pela antropofagia e pelos dentes
amarelos das estrelas.
Desde então,
o seu remorso brota de cada gota-recordação do
Vanderman
e o tempo,devorando as estrelas,engorda mais
com as grandes patas fulvas atoladas em
nossos corações,
essa lama de sangue.

Carlos de Oliveira , " Visão de José Gomes Ferreira no Vanderman"


(José Gomes Ferreira foi cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega, ainda que por curto tempo, pelo que deveria, em rigor, ser incluído na lista dos nossos escritores - diplomatas) 



de Terra de Harmonia

A canção de Solveig

Viagem à Noruega

Não me leiam, não me procurem:
entre montanhas e lagos,
pelos países do Norte,
feliz tal como Ulisses
embarcado pelos vikings,
fui seguindo a minha rota
e lendo o meu destino
nas entranhas das aves,
nas novas do orçamento.

Eu já pouco espero e pouco conto:
subir a uma montanha, avistar um lago
desde as alturas,
ouvir a canção de Solveig
por detrás das nuvens do meu entendimento,
isso basta às vezes para eu dizer
"agora vivi". Porque, na verdade,
grande parte da nossa vida a gente não a vive,
apenas está ali.
Está ali, conversa, tem opiniões, às vezes
até se indigna.
Mas viver?
Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.
(Obrigado, O'Neill!).

De modo que na Noruega,
não nas visões do poeta Zé Gomes
(lá está o gajo outra vez a citar, ó malta da crítica…),
mas na paz familiar de uma casa à beira de um lago,
estive ocupado a viver, desculpem a ausência.
O programa segue dentro de momentos.








Tuesday, October 7, 2014

Canção diante de uma porta fechada





Estou a escutar o Anjo, espero a exortação,
o grito, a inscrição das minhas palavras numa ordem celeste
ou tão só imanente, rente à terra, ao nu dizer
- mas ninguém me responde!


O silêncio de Deus é como um telefone a tocar no vazio,
sem uma voz tranquilizadora a responder-nos "deixe a sua mensagem...",
é um labirinto em torno dos possíveis,
é um dizer do dizer sem ter de que dizer.


E foi sempre assim a poesia, dizes?
Mesmo Dante ordenava as esferas celestes
só para enfrentar o silêncio?


Bom, deixemos os velhos mestres:
a poesia é uma conversa
que só tem lugar quando ninguém está a ouvir.
É talvez uma dança ao silêncio de Deus.







Saturday, October 4, 2014

Jorge de Sena

Ode para o FuturoFalareis de nós como de um sonho. 
Crepúsculo dourado. Frases calmas. 
Gestos vagarosos. Música suave. 
Pensamento arguto. Subtis sorrisos. 
Paisagens deslizando na distância. 
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, 
e amávamos serena e docemente. 

Uma angústia delida, melancólica, 
sobre ela sonhareis. 

E as tempestades, as desordens, gritos, 
violência, escárnio, confusão odienta, 
primaveras morrendo ignoradas 
nas encostas vizinhas, as prisões, 
as mortes, o amor vendido, 
as lágrimas e as lutas, 
o desespero da vida que nos roubam 
- apenas uma angústia melancólica, 
sobre a qual sonhareis a idade de oiro. 

E, em segredo, saudosos, enlevados, 
falareis de nós - de nós! - como de um sonho. 

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

Tema(s): Futuro Ler outros poemas de Jorge de Sena 

Thursday, October 2, 2014

Uma citação do Padre António Vieira

Toda a terra para morreres:
mas o lugar do mundo onde nasceste
chama por ti só para dizeres
a palavra derradeira.

("Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo inteiro" Padre Antonio Vieira, citado de cor)

Friday, September 26, 2014

Thursday, September 25, 2014

Monday, September 22, 2014

Regresso

Já voltei a casa, as portas rangem,
o pó tomou conta de todos os móveis,
deixando-me de pé, a balançar as chaves,
e a interrogar-me sobre o que não fiz.

O tempo que resta não é para confissões
nem para ajustes de contas:
pois quem guarda o guardião, quem despe a roupa
das vestais do templo?
A água corre ainda, um fio sequer, de torneiras
em desuso. Respiro e não deixo de olhar.
Até ao fim não deixarei de olhar.

Que trabalho é este, oculta e extinta miséria
sob os nossos passos?
As janelas com os vidros quebrados, plástico
por cima dos horizontes perdidos
da transparência. Porque insistes? Porque ficas
à entrada da casa, perdido no olhar
e na memória do que nunca chegou a ser?











Tuesday, September 16, 2014

Wednesday, September 3, 2014

Poema dos alicerces da vida

Já a vida nao tem alicerces: pássaro sem nexo,
ela conduz-nos a qualquer lugar e também
nao nos faz promessas. Deixa andar.
Todas as coisas serão finalmente reconduzidas
a sua próprio dimensão
e nos próprios, melhor será não esperarmos nada
e agradecermos qualquer gesto de amor ou qualquer acto de camaradagem,
como se realmente o nao merecêssemos, dadiva esplendorosa e gratuita
da nossa vida sem alicerces.


Monday, September 1, 2014

Poema dos alicerces de Baku, prometido ao Carlos Albino

O mausoléu do Xa Sirvan
e igual a tantos túmulos mogois que visitei na Índia.
E as delicadas miniaturas que vejo no museu
são em tudo semelhantes
as que vi na Índia do norte.
Mas já a sepultura do santo sufi me lembra o mosteiro
que existiu  na falésia da Arrifana, no Algarve mouro,
e as ruínas que ficaram do hamman
neste palácio imperial, destruído pelo Czar de Todas as Russias
do antigamente,
vem lembrar-me os alicerces mouros de Loule destruídos pelos reis cristãos
e pelos tremores de terra, que ajudam muito
a renovar as civilizações e a limpar as culturas
(tal como as guerras).

Rumi disse " viemos ao mundo para unir, não para dividir".
Mas a beira do mar de Azov preparam-se para continuar a dividir
até a ultima gota de sangue. Aqui e como se estivéssemos longe.
Bebemos bom vinho do pais
e as raparigas passeiam pela avenida de cabeça erguida
e cabelo descoberto, só as turistas turcas e iranianas andam de véu
e pouco se fala aqui da guerra dos russos,
pois jorra o petróleo, o petróleo sobe mais a cabeça
do que o vinho neste pais.
Eu queria falar em alicerces, tinha prometido a um amigo,
mas acabei a olhar para as suaves e firmes raparigas
do Azerbaidjao
e a sonhar com guerras e impérios.
Deus me perdoe...














Friday, August 29, 2014

A verdadeira vida de Franz Xaver Kappus

Franz Xaver Kappus was an Austrian military officer, journalist, editor and writer who wrote poetry, short-stories, novels and screenplays. Kappus is known chiefly as the military academy cadet who wrote to Austrian poet Rainer Maria Rilke (1875–1926) for advice in a series of letters from 1902 to 1908 that were assembled and published in the best-selling book Letters to a Young Poet (1929). 

Franz Xaver Kappus was born on 17 May 1883 in Timișoara (also known as German: Temeschwar, Temeschburg or Temeswar, in Hungarian: Temesvár), in the Banat province of the Austro-Hungarian Empire. The Banat region (now divided between Hungary, Serbia and Romania) was populated with a large population of ethnic Germans known as Banat Swabians or Danube Swabians of which Kappus' ancestry is derived. As a 19-year old officer cadet at the Theresian Military Academy in Wiener Neustadt, Lower Austria, Kappus write to Rainer Maria Rilke after learning that as a young man, Rilke, the son of an Austrian army officer, had studied at the academy's lower school at Sankt Pölten in the 1890s. Kappus corresponded with Rilke, then a popular poet at the beginning of his career, in a series of letters from 1902 to 1908 in which he sought Rilke's advice as to the quality of his poetry, and in deciding between a literary career or a career as an officer in the Austro-Hungarian Army. 

Aside from his role in writing to Rilke and later publishing these letters, Kappus is largely forgotten by history. Despite the hesitancy he expressed in his letters to Rilke about pursuing a military career, he continued his military studies and served for 15 years as an officer in the Austro-Hungarian Army. During the course of his life, he worked as an newspaper editor and journalist, writing poems, humorous sketches, short-stories, novels, and adapted several works (including his own) into screenplays for films in the 1930s. However, Kappus did not achieve lasting fame. After World War I, he was the editor of several newspapers, including Kappus Deutsche Wacht (trans. "Kappus' German Watch"), later known as Banater Tagblatt (trans. "Banat Daily"), and other newspapers Temeswarer Zeitung (trans. "Timisoara Newspaper"), and the Swabische Volkspresse (trans. "Swabian People's Press"). After World War II, he founded the Freie Demokratische Partei (trans. "Free Democratic Party") affiliated with ideology of classical liberalism in Berlin. 
Kappus died on 9 October 1966 in Berlin, Germany at the age of 82.

Canção com letra de Franz Xaver Kappus "Mamatschi"

Da grandeza

The Truly Great

BY STEPHEN SPENDER
I think continually of those who were truly great.
Who, from the womb, remembered the soul’s history
Through corridors of light, where the hours are suns,
Endless and singing. Whose lovely ambition
Was that their lips, still touched with fire,
Should tell of the Spirit, clothed from head to foot in song.
And who hoarded from the Spring branches
The desires falling across their bodies like blossoms.
 
What is precious, is never to forget
The essential delight of the blood drawn from ageless springs
Breaking through rocks in worlds before our earth.
Never to deny its pleasure in the morning simple light
Nor its grave evening demand for love.
Never to allow gradually the traffic to smother
With noise and fog, the flowering of the spirit.
 
Near the snow, near the sun, in the highest fields,
See how these names are fêted by the waving grass
And by the streamers of white cloud
And whispers of wind in the listening sky.
The names of those who in their lives fought for life,
Who wore at their hearts the fire’s centre.
Born of the sun, they travelled a short while toward the sun
And left the vivid air signed with their honor.

STEPHEN  SPENDER

Wednesday, August 27, 2014

As casas na noite



A luz que vem do passado não bate de frente nas casas,
porque ninguém olha de frente para o que passou ou morreu
e demasiadas coisas fomos deixando assim, mal arrumadas por casas velhas,
até nos darmos conta que desse modo aceleramos o nosso próprio fim
- mas isso é indiferente aos astros e à luz, a sombra vai caindo e a noite
marcha sobre os nossos passos com a leveza de uma criança.
A vida também não nos olha de frente: fita-nos assim de soslaio
e nós, subreptícios no semblante, fazemo-nos desentendidos.
A poesia é mais uma forma de desconversar, aqui, agora,
ou até nos gritos de quem apenas implora "olhem para mim",
quando iremediavelmente ficou escuro
e a luz não chega para todos e a noite que nos espera
será para sempre de lua nova.

Tuesday, August 26, 2014

Citação para o fim das ferias

But thought's the slave of life and life is time's fool.
And time that takes survey of all the world
Must have a stop.

(Shakespeare, Henry IV)

Sunday, August 24, 2014

Ilya Repine

"Ilya Repine é capaz de nos revelar pelo crepúsculo o que outros negariam na plena luz do dia"

(Rilke, carta a Elena Voronina, 1899)


Ilya Repine, Retrato de uma desconhecida

O que li nas férias (2). fiquei a conhecer melhor este senhor...


Friday, August 22, 2014

Wednesday, August 20, 2014

O que li nas férias (se isso pode interessar alguém…)

Um excelente livro de crónicas, chamado "Ouro e Cinza", desse grande escritor que já é Paulo Varela Gomes.

Um magnífico livro de poesia chamado "", de um poeta novo a impor-se, Daniel Jonas.

Um romance que li até ao fim, com gozo e vontade de não o deixar antes de acabar (cada vez mais abandono os romances ao fim de 20 páginas; ou então acabo-os e fico furioso de frustração… feitios!): "Tão longo amor, tão curta a vida" do Hélder Macedo

Uma antologia de poesia, a que ponho muitas reservas, por alguns que exclui (José Régio, essencialmente) e por alguns que inclui (j'en passe).  Mas tem pelo menos o mérito, para além das escolhas evidentes,  de incluir um dos maiores poetas portugueses vivos, de que pouco se fala: Fernando Echevarría.  Trata-se de "Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa", antologia organizada por Pedro Mexia e José Tolentino Mendonça.

Uma preciosa tradução das Cartas a um Jovem Poeta de Rilke, feita pelo Vasco Graça Moura, desconheço se edição recente (a data do exemplar que comprei é 2014) ou já reedição. Os meus cinco leitores sabem que eu ando agora a brincar à volta desse livro…

A edição portuguesa (finalmente!) de uma banda desenhada de autor português que é já de culto em França: "A Pior Banda do Mundo" de José Carlos Fernandes.  Magistral e divertidíssima!

E descobrir como, nas suas lições de 1979 sobre o ordoliberalismo alemão, Foucault descobria a chave dos tempos que estamos a viver:  "Un État sous surveillance de marché plutôt qu'un marché sous surveillance d'État" - Michel Foucault, "Naissance de la biopolitique. Cours au Collège de France 1978 - 1979", Paris, 2004

Espreitam-me da estante, à espera, como gatos curiosos, Cláudio e Constantino da Luísa Costa Gomes e o robusto Piketty. A tese do Diogo Pires Aurélio sobre Espinoza desafia-me com ironia e sem disfarçar: Irás mesmo ler-me?

Ora, para tão longas leituras tão curtas as férias...


Monday, August 18, 2014

O que viu Foucault

Da lição dada por Michel Foucault no Collège de France em 7 de fevereiro de 1979, reproduzida em "Naissance de la biopolitique", Seuil / Gallimard, Paris, 2004:


Saturday, August 16, 2014

Poesia e intervenção: de uma fala em Loulé


Todo o poema é uma intervenção, uma ruptura feita ao uso mundano das palavras. Se não introduzir essa ruptura, essa distância com aquilo a que Heidegger chamava "a tagarelice quotidiana", não chega a ser poema. E cabe aqui citar Sophia:

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Mas o poeta não é de modo algum o guardião sagrado de uma palavra divina, diluída na aura e na veneração: poeta é aquele que trabalha a palavra, que faz da palavra o seu ofício limpo e a sua verdade austera. E quem faz poesia entra num confronto sem fim com aquelas palavras que nunca foram escritas, de que fala Drummond de Andrade:

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.


É por isso que a intervenção do poeta não é da ordem do panfleto, do grito ou do hino: todos esses discursos de revolta serão necessários, são talvez hoje cada dia mais necessários: mas isso ainda não é poesia.


Temos todos citado muito ultimamente o verso de Holderlin "Para quê poetas em tempos de indigência?". Mas dizia também o mesmo Holderlin que "aí onde cresce o perigo/ cresce também o que salva". Não, não é a poesia que nos vai salvar. Mas a poesia testemunha da iminência incontornável de um acontecimento futuro, de um acontecimento que não sabemos ainda sequer entrever, mas que decorre da necessidade evidente de romper com a ordem de injustiça e de humilhação que nos submete.

E, como tenho o conhecido víco de citar, volto a Sophia de Mello Breyner Andresen:


Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. (...)E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia


Assim, o que procurei fazer ao escrever A Misericórdia dos Mercados, o meu último livro, foi apenas dar voz à nossa revolta e evocar a longa procissão dos vencidos e humilhados da História que no final do livro vêm junto a Nossa Senhora de Rocamadour (refiro-me ao último poema desse livro) testemunhar em silêncio a sua dor e a sua miséria. É isto uma intervenção? Tudo o que somos capazes de dizer com todas as palavras, sem disfarces nem oportunas dissimulações, acaba por vir a ser certamente, bem ou mal, uma intervenção.

(excerto de uma intervenção que fiz por amável convite da Câmara Municipal de Loulé, com especial dedicatória ao meu amigo Carlos Albino e ao Presidente da Câmara Municipal de Loulé, Dr. Vítor Aleixo)

Wednesday, August 13, 2014

Imaginez la nuit




Odeceixe, anoitecer

IMAGINEZ LA NUIT para o Luís Filipe Castro Mendes
Imagine-se a noite: terá contornos que nem a própria sabe explicar.
E se lhe perguntar que cores ela me disse, nem o dia que acaba de findar
me poderá dar uma resposta - e esse será o melhor resultado da imaginação.
imagine-se então a noite com tudo o que ela nos traz:
os tons e o tempo de uma cor, a do silêncio, que nos ajude a imaginá-la melhor, na metamorfose
e que no fundo o poeta confundiu com um certo ar de crepúsculo.

Ricardo Marques

com os meus agradecimentos (Luis Filipe)

Sunday, August 10, 2014

Esta manhã

A que terra podemos chamar nossa,
sem que um desafio nos tenha feito medir as forças com ela
até lhe pedir perdão?
Não falo dos vencedores, dos que não são de nenhuma terra
e de todas se apropriam.
Não falo da luta com o Anjo:
o Anjo vence-nos sempre
e não precisa de luta para nos esmagar.
Falo da nossa dívida à terra,
desta consciência brusca de amanhecer um dia
ao mesmo tempo que o mundo.


O não

Che fece... Il Gran Rifiuto

Para alguns homens, chega o dia finalmente
em que é necessário o grande Sim ou o grande Não
dizer. Percebe-se quem trazia, nessa ocasião,
o Sim já pronto dentro de si, e dizendo-o sente

seu valor aumentado, sua confiança crescida.
Não se arrepende quem diz não. Di-lo-ia outra vez
se lho perguntassem, embora saiba o mal que fez
aquele não — por mais justo que fosse — à sua vida.



CAVÁFIS, Constatinos. "Che fece... Il gran rifiuto". Trad. por José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. 

Tuesday, August 5, 2014

Carta apócrifa a um jovem poeta

Senhor Kappus, escrever poesia em público,
num blog ou numa praça de gente madura,
é como sair à rua sem estar vestido.
Um livro é como um fato: a gente apruma-se lá dentro.
Aqui nos blogs anda tudo de chinelos e calções
e como pode chamar poesia a essas efusões meramente pessoais,
que falam do que interessa a si e a mais ninguém?
Componha-se, senhor Kappus.
Vista o uniforme (já que é essa a sua profissão)
e escreva poesia na caserna
ou na caverna, como preferir.
Boa noite.

Monday, August 4, 2014

Veredicto

"Uma obra de arte é boa quando nasce da necessidade. Nesta sua maneira de irromper está o seu veredicto: não há mais nenhum."

Rilke, "Cartas a um Jovem Poeta", tradução de Vasco Graça Moura, edição citada


Brincando aos pobrezinhos...

Sunday, August 3, 2014

Ofício

"E quando um dia descobre que as suas ocupações eram mesquinhas, as suas profissões inertes e de todo desligadas da vida, por que não continuar como uma criança a olhar para isso como uma coisa estranha, lá do fundo do seu próprio mundo, da vastidão da própria solidão que é, ela mesma, trabalho, estatuto e profissão?"

(Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, tradução de Vasco Graça Moura, Modo de Ler, Porto, 2014, pp. 49 - 50)