Sunday, April 20, 2014

Poesia e diplomacia: Tiago Araujo

O meu jovem colega diplomata Tiago Araújo, colocado em Londres e de mudança em breve para Viena, é autor de vários livros de poesia. O seu último livro, "Respirar debaixo de água" (Averno, 2013) acaba de ser objecto, esta semana, de uma elogiosa recensão do "Público". Fica aqui um poema desse livro, com um abraço ao Tiago Araújo.

a vida das marionetas termina aqui
onde a mão hábil desenlaça nós de gravata
ao fim da tarde.
depois outra máscara substituirá essa máscara
igualmente verdadeira.
a personalidade, como a roupa, adequada a cada
circunstância, a cada grupo de pessoas
nos dias que recuam e regressam sem
rebentação, durante muito tempo
escrevi o diário no teu corpo, nada
de relevante existe para além dele, apenas
alguma falta de tempo e duas ou três crianças
a correr em volta de outro corpo
treinado para o ilusionismo.
agora, ao fim da noite, com os quartos povoados por
vultos destroçados num sono profundo,
já não interessa quem sou ou os jogos que invento
para ganhar tempo e me manter acordado.








Saturday, April 19, 2014

Uma homenagem ao Mário Quartin Graça, que acabamos de perder: uma visita dele em tempos a este blog

SUNDAY, OCTOBER 27, 2013


Da poesia como papança: resposta a António Dias e homenagem ao poeta Conde de Monsaraz



RESPOSTA A ANTONIO DIAS DA PARTE DAS VITIMAS DA FOME

Poetas comilões, António Dias,
são mato nesta mata esfomeada:
alguns papam almoços sem azias
e jantam prémios feitos à molhada.

Papança (belo nome) fez receitas
em verso bem medido e bem lançado.
Esquecemos Bulhão Pato e as perfeitas
amêijoas que devemos ao seu fado.

Poetas são pessoas de alimento,
dêem-nos de comer, façam favor!
Não cortem a raiz ao pensamento,
que a comer ganha asas o amor.

3 COMMENTS:

  1. Um soneto recebido do Mário Quartin Graca:

    Para o povo ser poeta e
    Andar nas nuvens, nefelibata,
    Fumar ópio ou cheirar rape,
    Viver do nada, vida barata.

    Viver, viver, sem saber de que,
    Sem que a porta sequer lhe bata
    Quem uma côdea de pão lhe de
    A quem a sorte tao mal trata.

    Mas, afinal, como isso e vão!
    E como e grande essa ilusão!
    Porque a imagem do poeta

    Esconde, guloso e comilão,
    Um voraz brutamontes que nao
    E etéreo, delicado esteta.

    Mário Quartin Graca

  2. Lamento que entre Lisboa e Estrasburgo quase todos os acentos agudos e todos os circunflexos se tenham evaporado. Resta confiar na perspicácia dos leitores para que possam apreciar a "qualidade" desta obra poética. MQG
  3. Isto agora com os cortes, resolvemos cortar nos acentos...

Últimas notícias


Deixam-nos o sal
e até (quem sabe?) o açúcar.
O fluxo do nosso sangue irá ser regulamentado
até ter cabimentação orçamental
e a intensidade das nossas emoções
não poderá ultrapassar um limiar
a ser definido por portaria.
O novo triunfa do velho!

Thursday, April 17, 2014

Resmungos à noite

O sono, esse estado de irritação ténue
entre a vida e o sonho,
essa lâmina romba no fio da navalha,
esta minha consciência intermitente de uma vaga revolta,
por entre as notícias matraqueadas na televisão
e o livro paulatinamente abandonado
à sua circulação romanesca, demasiado histérica
para minimamente me prender. Sou um mau leitor,
agarro-me aos versos, mesmo os que se ufanam
de não ter qualidades, recensões em cheio, estrelas
no guia Michelin, os herdeiros dos herdeiros dos herdeiros.
É só a poesia que me prende, mesmo a daqueles
que usam a própria irrisão como coroa de louros
e o seu proclamado ódio da poesia
como mal disfarçada cauda de pavão.
E ainda assim, é do lado deles
que estou.

Gabriel Garcia Marquez em Portugal, 1975

Gabo tinha chegado a Lisboa depois de um voo atribulado. «Ele tinha um medo danado de viajar de avião, até chegou a escrever uma crónica sobre o assunto», conta Jaime García Márquez, irmão do escritor, no alto de um terraço com vista para a catedral de Cartagena de Índias. Está um dia quente e húmido, como são todos os dias na cidade caribenha. O escritor mora parte do ano ali perto, numa casa de muros vermelhos e altos. Não dá entrevistas, não faz aparições públicas e, anunciou o irmão mais novo, não voltará a escrever. Tem 86 anos e um diagnóstico de demência que lhe secou as palavras. «Pois Gabo, que nunca foi religioso, nesse voo para Portugal encomendou duas ou três vezes a alma à Virgem de Guadalupe. Ele costumava dizer que o único medo que um latino confessa é o de viajar de avião. E é verdade.»
Ao lado de Gabriel García Márquez viajava Alfonso Fuenmayor, um jornalista de Barranquilla, de quem se tornara amigo, duas décadas antes, na redação do El Heraldo. Nesse tempo, Gabo era vice-presidente do Tribunal Russell, o tribunal internacional de crimes de guerra. Com a chegada de Pinochet ao poder no Chile e a ditadura militar brasileira numa das fases mais ferozes, havia a hipótese de abrir uma secção para a América Latina em Lisboa. Alfonso, que andava em viagem pela Europa, veio para dar uma ajuda na avaliação. Mas com o Verão Quente em pleno, a instabilidade política no país encarregar-se-ia de anular o projeto.
Ficaram instalados no Ritz e, escreveu García Márquez no seu artigo, durante uma boa parte da estada só havia dois hóspedes no hotel - eles. «Lisboa é uma das mais belas cidades do mundo e, até há um ano, era também uma das mais tristes, por obra de uma rara ditadura medieval que durou quase meio século e cuja força se fundava numa polícia política inclemente. É um país de pobres que enfrenta obstáculos terríveis e uma pressão tremenda. Por causa da sua posição geográfica, está obrigado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos e sofisticados do mundo.» Gabo considerava que a sociedade portuguesa era mais próxima da sul-americana, mas que o país tinha uma espada sobre a cabeça para se tornar europeu. «Nos restaurantes caros, os mariscos exibem-se como joias nas vitrinas, mas são intocáveis, um luxo burguês. Nos restaurantes populares, onde se come um delicioso arroz com sangue de galinha, os empregados debatem-se com uma dúvida: no regime atual, é justo que recebam gorjeta?»
Um dia depois da sua chegada a Lisboa, os primeiros deputados eleitos em liberdade tomavam posse no Parlamento. Gabo decidiu fazer a cobertura da sessão solene de abertura da Assembleia Constituinte e, aí, cruzou-se com alguns dos mais emblemáticos nomes das letras portuguesas. Juntou-se um grupo que acabaria por ir jantar nessa noite à Varanda do Chanceler, um restaurante de Alfama (o mesmo onde Natália Correia haveria de apresentar Francisco Sá Carneiro a Snu Abecassis). No repasto estavam José Cardoso Pires, Fernando Namora e Luís de Sttau Monteiro. Também estava presente o poeta José Gomes Ferreira, na altura presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.
Esse encontro com García Márquez causou forte impressão em Gomes Ferreira. O poeta português - cujo poema Acordai, musicado por Lopes-Graça, tem servido de hino a vários protestos recentes - escreveria até algumas notas, após uma conversa com o escritor colombiano. Estes escritos nunca foram publicados, são inéditos e íntimos, papéis em bruto. Foram cedidos pelo seu filho, o arquiteto Raul Hestnes Ferreira. «García Márquez, à despedida, disse-me: "Buena sorte!" Tremi. O García Márquez: "Os portugueses são muito parecidos com os latino-americanos. Os espanhóis são mais severos, mais hirtos. Mais senhores solenes. Anos de tempestades".» Em 3 de junho, nova entrada no diário, um quase-poema: «Quando o García Márquez se despediu, desejando-me buena sorte, lembrou-se do Chile. Felizmente é a própria morte que me defende da morte. Que me importa viver mais um dia ou menos um dia? Sim, importa - diz-me a boca de uma nuvem que me acompanha noite e dia.»
O que vai dar cabo da revolução é a conta da luz
A partir daquele jantar na Varanda do Chanceler, Gabo não voltou a estar sozinho em Lisboa. «Entre entrevistas com Vasco Gonçalves, Melo Antunes e Saramago, que nessa altura estava no Diário de Notícias[era director adjunto]», lembra Ernesto Santos Calderón, um dos mais importantes jornalistas da Colômbia, um dos melhores amigos de García Márquez e um dos fundadores da Alternativa, «também fez muitos amigos e divertiu-se bastante em Lisboa».
José Carlos Vasconcelos, diretor do Jornal de Letras, lembra-se de ver o escritor colombiano na festa de aniversário de José Gomes Ferreira, na noite de 9 para 10 de junho, e novamente na Varanda do Chanceler. «Brincávamos todos juntos a dizer que o Gomes Ferreira tinha a mania das grandezas, queria nascer no dia de Camões.» Maria Velho da Costa conheceu García Márquez em casa de Sttau Monteiro. «Aquilo era para ser uma festa, mas estava a tornar-se numa tertúlia, era uma chatice tremenda. Às tantas Gabo perguntou-me se queria fugir dali.» Despediram-se rapidamente, saíram, apanharam um táxi para o Bairro Alto. «A minha memória funciona por imagens fotográficas», diz a escritora. «Lembro-me de descermos a rua em conversa animada. Lembro-me de que ele usava um fato de ganga, calças e casaco. E lembro-me de ficarmos umas boas horas num bar, a conversar e a beber whisky.» Às tantas, o colombiano disse que à revolução portuguesa não faltava heroísmo, faltava prudência e imaginação. «Então estamos bem tramados», respondeu Maria Velho da Costa. «Porque o povo português é como o diabo, sabe mais por velho do que por ser povo.» Essa sentença, descobriu a escritora portuguesa há uns dias, foi a frase com que García Márquez rematou a sua última reportagem em Portugal.
A amizade mais estreita de Gabo em Lisboa era, no entanto, com o autor de Balada da Praia dos Cães. Tinham-se conhecido anos antes em Londres, quando ambos trabalhavam para o serviço internacional da BBC. Edite Cardoso Pires recorda-se dos encontros no terraço do Hotel Mundial, com vista para o Martim Moniz, epicentro da multiculturalidade da cidade. «A influência negra é notável em Portugal, manifesta-se mesmo no caráter dos portugueses», escreveu García Márquez. «E todo o país está saturado pela música quente de Cabo Verde e Angola, que parece a música do nosso trópico.» Era 1975, ano de independência das colónias. Gabo apanhou em cheio a chegada de refugiados, portugueses e africanos, e o regresso de soldados do ultramar. Em 1976, haveria de viajar várias vezes para Angola e escrever um artigo para aAlternativa sobre os novos ares de liberdade e as pressões que vinham de fora, fossem elas de Cuba ou da África do Sul.
A teoria que Gabo expressou nos seus textos não era apenas a de um país cercado, era também o de um país dividido. «Desde a praça do Rossio até ao canto mais remoto e esquecido da província, não há um centímetro de parede, nem um sinal de trânsito, nem o pedestal de uma estátua que não tenha sido pintado com uma mensagem política. Os comunistas pedem unidade sindical. Os socialistas dizem que socialismo sim, mas com liberdades. A extrema-esquerda protesta contra o imperialismo capitalista, os liberais dizem que o voto é a arma do povo e os anarquistas contestam,que a arma é que é o voto do povo. À noite, a reação lança granadas contra as lojas, envenenando o mundo inteiro com o rumor infame que o Portugal formoso e tranquilo das canções morreu.»
Ao mesmo tempo, o povo parecia querer ignorar as rivalidades, entregando-se à embriaguez feliz de Abril: «O erotismo invadiu os cinemas e os quiosques de jornais, fazendo que milhares de espanhóis atravessem ao fim de semana a fronteira para poderem ver o filme mais proibido em Madrid, O Último Tango em Paris.Lisboa tornou-se uma cidade movimentada, com acidentes de viação espetaculares, não só porque os portugueses conduzem de uma maneira intrépida, mas também porque estão genuinamente contentes - e por isso deixaram de respeitar os semáforos.»
Há uma prudência enorme nos textos de Gabo sobre Lisboa, o escritor quase anuncia que a Revolução tem os dias contados, que a Europa, os Estados Unidos e as divisões internas arrastarão inevitavelmente o país para longe da sua essência. García Márquez teme o rumo que as elites estão a tomar, mas encontra nobreza no povo. «Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não havia um único táxi desocupado. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada. Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz.»

(Ricardo J. Rodrigues, no Diário de Notícias, 2009) 


Tuesday, April 15, 2014

Paris, homenagem a Fernando Echevarría



NÃO É PARIS QUE ESTÁ LÁ FORA. É ESTARMOS
a ver coincidir o que de dentro
vem, devagar, encontrá-lo
naquela espécie de desfasamento
que deslumbra. Aparece rodeado
de uma ilimitação feliz de objecto.
Ou, diga-se antes, institui-se um halo.
E o halo afaz-se. Interior e externo,
vai recolhendo o estatuto grato
de novidade a expandir o inédito
país intelectual. Aí, de facto,
a novidade eleva-se a compêndio
de iniciação a esse grande fausto
que recrudesce no conhecimento.
Paris é isto. Lavoura de trabalho
que do pouco de si vai renascendo.

(Fernando Echevarría, Categorias e outras paisagens, Afrontamento, 2013, p.359)

Monday, April 14, 2014



Um poema que me traz lágrimas aos olhos (e que não vem nesta antologia):

Devonshire Street W.1 by John Betjeman
The heavy mahogany door with its wrought-iron screen
Shuts. And the sound is rich, sympathetic, discreet.
The sun still shines on this eighteenth-century scene
With Edwardian faience adornment -- Devonshire Street.

No hope. And the X-ray photographs under his arm
Confirm the message. His wife stands timidly by.
The opposite brick-built house looks lofty and calm
Its chimneys steady against the mackerel sky.

No hope. And the iron knob of this palisade
So cold to the touch, is luckier now than he
"Oh merciless, hurrying Londoners! Why was I made
For the long and painful deathbed coming to me?"

She puts her fingers in his, as, loving and silly
At long-past Kensington dances she used to do
"It's cheaper to take the tube to Piccadilly
And then we can catch a nineteen or twenty-two".

Saturday, April 12, 2014

Adormecendo Kappus

Um pouco de gentileza, Senhor Kappus,
não lhe fará mal neste ofício de poeta que consiste
no amor extremo do mundo e na repulsa das suas imagens
e das suas palavras, a destruir até à medula.
Quanto mais irrisório lhe parecer o esplendor das coisas
mais perto estará da epifania e do reencontro
com tudo o que tem que perder.
Ah, por certo é um ofício amargo,
como naquela noite de núpcias da Rainha em que ninguém
estava lá para se divertir. Mas o pior, Senhor Kappus,
é que até irá divertir-se
e comprazer-se na tagarelice, nas pequenas misérias, no ridículo das situações -
- e isso está certo, porque nisso tudo vem embrulhado o seu ofício,
como um gaz asfixiante a espalhar-se no metro da cidade da Poesia
e a contaminar sem cura os seus habitantes.
Mas por muito que papagueie que o belo é só o começo do terrível,
irá, creia-me, divertir-se muito com a irrisão de que tudo é feito
e que vai contribuir também para acrescentar. E este conhecimento é duro e penoso,
sobretudo porque nunca se chega a atingir

Hoje calei-o, Senhor Kappus. Tem sono?

Thursday, April 10, 2014

A vida militar do Senhor Kappus

A minha vida militar não contém matéria poética, acredite:
 já ninguém no mundo quer verdadeiramente invadir a Crimeia,
ocupada pelos Citas.
 Ficou assim visto que nós militares para nada servimos,
a não ser para esta espera junto ao Deserto dos Tártaros.
Os diplomatas querem sossego, para isso servem,
os mercados já não suportam perder os títulos russos,
como aconteceu em 1917, e os políticos, esses,
são pagos para fazer barulho 
e entreter a galeria.  Pudesse eu
desembainhar  a espada num gesto viril
e gritar para os cossacos qualquer coisa, qualquer coisa.
Mas a servidão e a grandeza militares
não serão nunca mais o ofício da poesia!

Qualquer profissão, Senhor Kappus, vale o mesmo
em face da Poesia. Eu sou empregado de escritório,
traduzo cartas para inglês
e encontro na mediocridade da minha vida funcionária
maior servidão e grandeza do que no seu uniforme poído
pelas ocasiões falhadas e pelos massacres que nunca puderam ser.
Esconda esse seu sonho torto de vestir os uniformes oitocentistas
da Guerra da Crimeia!
Todos os ofícios se equivalem
no esplendor de um mesmo vazio
e este nosso ofício da poesia, quando deixamos de acreditar
que somos bruxos, profetas, magos
ou glamourous lyric stars,
vemo-lo reduzir-se à grandeza do seu próprio jogo
e à dignidade da sua íntima derrota.
Arrume a farda, Senhor Kappus,
e volte a encontrar-se comigo
à civil. Por favor.








  

Tuesday, April 8, 2014

De Senectude

Why should not old men be mad?
Some have known a likely lad
That had a sound fly-fisher's wrist
Turn to a drunken journalist;
A girl that knew all Dante once
Live to bear children to a dunce;
A Helen of social welfare dream,
Climb on a wagonette to scream.
Some think it a matter of course that chance
Should starve good men and bad advance,
That if their neighbours figured plain,
As though upon a lighted screen,
No single story would they find
Of an unbroken happy mind,
A finish worthy of the start.
Young men know nothing of this sort,
Observant old men know it well;
And when they know what old books tell
And that no better can be had,
Know why an old man should be mad.


WILLIAM BUTLER YEATS

Monday, April 7, 2014

O Senhor Poeta e o Senhor Kappus

É quando pesam demais as palavras,
quando se rompe a ordem natural que as suporta,
é nesse momento
que as palavras caem, como frutos maduros, na poesia.
Eu escrevi isso, Senhor Kappus, e agora digo-lhe que o poema
não é uma epifania nem uma consagração:
são as palavras que caem, abatidas pela vida,
e esperam por nós para se erguerem,
como se a música assim pudesse permanecer.

Porque sabemos que temos de continuar,
não porque não pudéssemos viver sem a poesia.
mas porque não sabemos mais fazer outra coisa,
o universo das nossas possibilidades, o infinito das nossas determinações
reduz-se à palavra que cai nas suas mãos, Senhor Poeta,
nas suas mãos que não sabem fazer música.






Boris Pasternak (1890 - 1960)

Hamlet

The murmurs ebb; onto the stage I enter.
I am trying, standing in the door,
To discover in the distant echoes
What the coming years may hold in store.

The nocturnal darkness with a thousand
Binoculars is focused onto me.
Take away this cup, O Abba Father,
Everything is possible to Thee.

I am fond of this Thy stubborn project,
And to play my part I am content.
But another drama is in progress,
And, this once, O let me be exempt.

But the plan of action is determined,
And the end irrevocably sealed.
I am alone; all round me drowns in falsehood:
Life is not a walk across a field. 

Sunday, April 6, 2014

Encontro em Paris com o Senhor Kappus

Não espere pela posteridade, Senhor Kappus.
Ela arranjará sempre desculpas para não vir ao seu encontro:
retida num engarrafamento ou teve de ir buscar as crianças
à escola, qualquer pretexto lhe servirá
para adiar a coroa de louros
que certamente o senhor irá um dia julgar que merece.
Habitue-se, Senhor Kappus, como nós nos habituamos
ao modo oblíquo que as mulheres usam para nos dizer que não.

Paris

Desconfio sempre de ti, Paris.
A beleza que imprimes nas coisas não é leve, é sinuosa,
tão dura e sinuosa como a vida.
Cidade impiedosa, ensina-me a resistir
à usura das coisas imperfeitas.
Ensina-me a mentir à vida
com o mesmo descaramento que a vida tem
para nos mentir a nós.
Cidade que me desdenhas e me dás a medida certa do meu ser,
como o metro-padrão que guardas num museu,
aliás já ultrapassado pela ciência!
É em ti que afinal me meço e reconheço
e nunca poderei dizer-te "à nous deux Paris!",
porque tu és afinal tão insuperavelmente bela
e sem ilusões
como a vida que nos foi dada.


Wednesday, April 2, 2014

Ainda Holderlin


"Wo aber Gefahr ist, wächst das Rettende auch" (Mas onde está o perigo, cresce também o que salva). 
(Holderlin)

Monday, March 31, 2014

Tubingen, torre de Holderlin


Friedrich Hölderlin: "Hälfte des Lebens" / "Metade da vida": trad. de Manuel Bandeira




Metade da vida


Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.



Hälfte des Lebens


Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.



HÖLDERLIN, Friedrich. Sämtliche Werke und Briefe. München: Carl Hanser
Verlag, 1970.

Tradução:
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

Saturday, March 29, 2014

A entrada de Cristo em Bruxelas


James Ensor, A entrada de Cristo em Bruxelas


Há momentos para tudo. A vida circula
sobre um rio de miséria e nem a morte
consola de tanto desperdício
do que era simplesmente humano
e simplesmente se deixou matar.
Cristo nunca entrou em Bruxelas,
mas o que um pintor aqui viu foi o que nunca poderemos esquecer,
o que nos segue como um remorso pelos esconsos da nossa vida,
o que nos levará um dia a sair em multidão para uma praça,
loucos de raiva ou mirrados pela indiferença
ao que jaz dentro de nós. Cristo
entrou em Bruxelas.


Friday, March 28, 2014

A primavera dos poetas

Este frio que trouxe a primavera
é o estímulo que a natureza nos oferece
para que consideremos a relatividade da nossa roupa,
a sua impotência face a todo este vulcão mental,
que em nós, poetas, se transforma em dura lava,
a mesma que esculpimos nas palavras,
enquanto oferecemos o corpo mal agasalhado
a esta gelada brisa que passa sobre as flores
e os nossos corpos arrepiados,
mas ainda assim gloriosos por estarem vivos.
Noto-o distraído, absorto em si mesmo, Senhor Kappus.

Este frio que nos traz a primavera
só promete a pobreza como solução
e, para mais, faz-nos sair de casa
à procura de um sol radioso
que só alguns vêem, os eleitos e os ungidos,
mas a que nós somos convidados 
a abrir os nossos sorrisos e os nossos corações.
A primavera é dos que têm razão,
nós não.

Um jovem poeta não pertence aos descartáveis,
ainda que a exportação dos versos não convença ninguém.
Anime-se, Senhor Kappus, pode sempre escrever
para a Revista de Comércio e Contabilidade,
inventar slogans publicitários
e elaborar guias de Lisboa para os turistas.
Mas está realmente frio e a chuva não ajuda
a nossa agudeza e arte de engenho.
Se saíssemos por hoje desta esplanada? 


Saturday, March 22, 2014

Boletim meteorológico



Ilya Repine (1844 - 1930) , A resposta dos Cossacos Zaporogues


Varrida pela chuva a álea rasa,
abre o inverno nesta primavera.
O tempo quis negar-nos sua casa,
a História fez de farsa ou de quimera

prometida por doutos e por santos
que nos levam, de cegos, ao abismo:
folheio pela noite fólios tantos,
que já não sei se sonho no que cismo.

Este tempo não sabe da desgraça,
repete sem cessar a ladainha:
liberdade que nasce em cada praça,
alvorecer enfim que se avizinha!

Mas no amanhecer entre destroços
o tempo varre cinzas, restos, ossos.







O poeta

Le Crapaud

Un chant dans une nuit sans air…
– La lune plaque en métal clair
Les découpures du vert sombre.

… Un chant ; comme un écho, tout vif
Enterré, là, sous le massif…
– Ça se tait : Viens, c’est là, dans l’ombre…

– Un crapaud ! – Pourquoi cette peur,
Près de moi, ton soldat fidèle !
Vois-le, poète tondu, sans aile,
Rossignol de la boue… – Horreur ! –

… Il chante. – Horreur !! – Horreur pourquoi ?
Vois-tu pas son œil de lumière…
Non : il s’en va, froid, sous sa pierre.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Bonsoir – ce crapaud-là c’est moi.

              Ce soir, 20 Juillet.

Tristan Corbière - Les Amours jaunes

(por indicação de Matilde Barahona Castro Mendes)

Friday, March 21, 2014

Literatura e diplomacia

Daniel Rondeau, Vingt ans et plus, Flammarion, Paris, 2014, p.742

Daniel Rondeau foi embaixador de França em Malta e na UNESCO

Dia Mundial da Poesia

Neste dia da poesia, trouxe-lhe, Senhor Kappus, alguns exemplos
do honesto comércio com as palavras.
Quem trata o seu poema com a dureza
com que o escultor trabalha a pedra
está mais perto do ofício do que todos esses videntes
que aos dezassete anos dizem Bof! à poesia
e vão depois traficar escravos para a Abissínia...

Senhor Poeta, apanhei-o em flagrante delito de ressentimento
e o ressentimento, já se sabe, não deixa medrar
o espírito criador. A poesia tem mais moradas
do que um prédio de Xangai, sabia?
Deixe os meninos, os bruxos e as profetisas
em paz. O tempo lhes fará justiça.
Não é o tempo afinal o maior escultor?
(Esta é da Yourcenar, desculpe o mau jeito).

O Senhor Kappus está a fazer progressos
e respondeu bem à minha provocação
(fora a Yourcenar, de que não havia realmente necessidade).
E afinal, mais do que todos os poetas que respeito,
trouxe para comemorarmos juntos este dia da poesia
uma garrafa do mesmo vinho que Fernando Pessoa bebeu
no seu "dia triunfal". Parabéns!







Wednesday, March 19, 2014

Dia do Pai

MEMENTO MORI


Death is not in life

(Wittgenstein)

Eu vi morrer três pessoas:
a uma acompanhei até ao fim,
no que seria talvez o que lhe restava de vida
ou porventura o que lhe sobrava de morte;
outra morreu quando eu dormia,
longe do hospital:
e tive que atravessar pela madrugada
uma cidade estrangeira
para chegar à sua morte;
e meu Pai, enquanto eu ia
comprar-lhe uma garrafa de oxigénio,
que nunca soube a quem serviu depois.

Nós nunca vemos ninguém morrer,
porque morrer é por dentro de cada um,
como talvez tudo o que tenha algum sentido,
como talvez o amor.

O que verdadeiramente importa
é opaco ao nosso olhar
e cada prova que vivemos
é só e única:
morrer ou ver morrer

e o amor também.

(De Lendas da Índia, Dom Quixote, Lisboa, 2011)

Monday, March 17, 2014

Sonhos da História (2)


Sonhos da História (1)


Crimeia



"The Charge of Light Brigade", Tennyson

The Charge of the Light Brigade

BY ALFRED, LORD TENNYSON
I
Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
   Rode the six hundred.
“Forward, the Light Brigade!
Charge for the guns!” he said.
Into the valley of Death
   Rode the six hundred.

II
“Forward, the Light Brigade!”
Was there a man dismayed?
Not though the soldier knew
   Someone had blundered.
   Theirs not to make reply,
   Theirs not to reason why,
   Theirs but to do and die.
   Into the valley of Death
   Rode the six hundred.

III
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
   Volleyed and thundered;
Stormed at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of hell
   Rode the six hundred.

IV
Flashed all their sabres bare,
Flashed as they turned in air
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
   All the world wondered.
Plunged in the battery-smoke
Right through the line they broke;
Cossack and Russian
Reeled from the sabre stroke
   Shattered and sundered.
Then they rode back, but not
   Not the six hundred.

V
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
   Volleyed and thundered;
Stormed at with shot and shell,
While horse and hero fell.
They that had fought so well
Came through the jaws of Death,
Back from the mouth of hell,
All that was left of them,
   Left of six hundred.

VI
When can their glory fade?
O the wild charge they made!
   All the world wondered.
Honour the charge they made!
Honour the Light Brigade,
   Noble six hundred!