Friday, March 14, 2014

Ainda o jovem poeta

Senhor Kappus, hoje não se pode falar de poesia
sem um desprezo inteligente na voz,
uma abjecção no seu exercício e a negação das qualidades
ou da própria ideia de obra,
como mecanismo para tudo legitimar através da "quebra da aura".
Esse hábil movimento de desqualificação,
teoricamente mais ou menos fundamentado,
conforme o estado de espírito de cada um,
permitirá exaltar o eu do poeta, esse eu abjecto, marginal, maldito,
nimbado da sua insatisfação.

Faz-me isso lembrar, senhor Poeta, 
o modo como se defende agora o chamado Estado Social
exatamente através da sua minuciosa destruição. A poesia
desses anti-poetas vai no fundo...

Mais uma vez, com o seu oportunismo insidioso
e à espera dos aplausos da galeria,
vem o Senhor Kappus levar a conversa para a política.
Desista. Não interromperá facilmente este meu discurso.
Pacientemente continuarei a chamar-lhe jovem poeta
e dificilmente resistirá a este apelo.
À mesma hora, no dia combinado.







Sunday, March 9, 2014

Conselhos a um velho poeta

Leia todas as manhãs o que o irrita,
a baixeza acocorada destes tempos,
a alegria dos ricos por haver mais pobres,
a submissão dos pobres a esta globalizada
Metropolis de Fritz Lang,
todos os jovens guardas vermelhos do capital,
de livro na mão e raiva no coração,
depois volte-se devagar para tudo o que não disse,
para tudo o que não fez
ou deixou que os outros fizessem em seu nome
e não ouse sequer pronunciar a palavra "culpa".

Hoje vejo-o alterado, senhor Kappus.
Eu já lhe disse que trazer política para a poesia
é como dar um tiro de pistola no meio de um concerto.
Também o vejo inclinado a toda essa erudição que me critica,
arriscando-se assim a confundir o seu público:
alguém levou a sério o filme Metropolis de Fritz Lang?
Um exagero, um exagero, de Caligari a Hitler
aquilo foi um ver-se-te-avias…
Volte quando estiver mais calmo,
porque a poesia afinal é uma emoção recordada na tranquilidade.
Pronto, eu digo-lhe, esta é de Wordsworth.





Saturday, March 8, 2014

Às mulheres

Diálogos com um jovem poeta

Fugir a si próprio, senhor Kappus,
pode assumir modos completamente diferentes
e até a histeria autobiográfica
pode não ser mais que uma fuga. Lembre-se disso
antes de falar da sua infância, adolescência
ou desinteressante vida adulta. Os tempos,
como vê, não estão para causas
e os poetas passaram de legisladores da Humanidade
a criaturas que cultivam para a galeria o desprezo de si próprios,
criaturas que fariam a vergonha de Zaratustra,
fosse vivo o Mestre, que acabou a vida a chorar
por um miserável cavalo em Turim… Está-me a ouvir, senhor Kappus?

Senhor Poeta, essas alusões eruditas
escapam ao meu público, temos que ser acessíveis,
maleáveis, flexíveis,
temos que tornar a poesia rentável
ou em alternativa
iremos todos dissolver-nos numa maré negra de narrativas,
o lodo confessional, o magma pueril...

Senhor Kappus, a memória de tudo desaparece,
eu próprio sei lá quem era o filho de Minos e Pasifaé,
ou o que fizeram as filhas de Lot!
Aprenda comigo a não ter vergonha
de fingir que é só saber o não saber que deveras sabe.
E por hoje é tudo. Ainda está alguém aí fora?

NOTA DA WIKIPÉDIA: Dans la mythologie grecque, Glaucos est le fils de Minos et de Pasiphaé. Il est le frère d'AndrogéeArianePhèdreDeucalionCatrée, Acallis et de Xénodicé. Il y a des familles comme ça!

NOTA DO SENHOR KAPPUS: Et la Phèdre de Racine, "la fille de Minos et de Pasiphaé", "le plus beau vers de la langue" (Valéry), hein, connasse?

NOTA DO SENHOR POETA: I don't use French language anymore, sorry.






Thursday, March 6, 2014

Sunday, March 2, 2014

Guerra da Crimeia (1853 - 1856)

According to Shepard Clough, professor of history at Columbia University, the war:
"was not the result of a calculated plan, nor even of hasty last-minute decisions made under stress. It was the consequence of more than two years of fatal blundering in slow-motion by inept statesmen who had months to reflect upon the actions they took. It arose from Napoleon's search for prestige; Nicholas’s quest for control over the Straits; his naïve miscalculation of the probable reactions of the European powers; the failure of those powers to make their positions clear; and the pressure of public opinion in Britain and Constantinople at crucial moments."[11]

(Wikipédia, claro)

"Os Citas" de Blok, agora em tradução inglesa

The Scythians

You are but millions. Our unnumbered nations
Are as the sands upon the sounding shore.
We are the Scythians! We are the slit-eyed Asians!
Try to wage war with us—you'll try no more!

You've had whole centuries. We—a single hour.
Like serfs obedient to their feudal lord,
We've held the shield between two hostile powers—
Old Europe and the barbarous Mongol horde.

Your ancient forge has hammered down the ages,
Drowning the distant avalanche's roar.
Messina, Lisbon—these, you thought, were pages
In some strange book of legendary lore.

Full centuries long you've watched our Eastern lands,
Fished for our pearls and bartered them for grain;
Made mockery of us, while you laid your plans
And oiled your cannon for the great campaign.

The hour has come. Doom wheels on beating wing.
Each day augments the old outrageous score.
Soon not a trace of dead nor living thing
Shall stand where once your Paestums flowered before.

O Ancient World, before your culture dies,
Whilst failing life within you breathes and sinks,
Pause and be wise, as Oedipus was wise,
And solve the age-old riddle of the Sphinx.


That Sphinx is Russia. Grieving and exulting,
And weeping black and bloody tears enough,
She stares at you, adoring and insulting,
With love that turns to hate, and hate—to love.


Yes, love! For you of Western lands and birth
No longer know the love our blood enjoys.
You have forgoten there's a love on Earth
That burns like fire and, like all fire, destroys.

We love cold Science passionately pursued;
The visionary fire of inspiration;
The salt of Gallic wit, so subtly shrewd,
And the grim genius of th German nation.


We know the hell of a Parisian street,
And Venice, cool in water and in stone;
The scent of lemons in the southern heat;
The fuming piles of soot-begrimed Cologne.

We love raw flesh, its color and its stench.
We love to taste it in our hungry maws.
Are we to blame then, if your ribs should crunch,
Fragile between our massive, gentle paws?

We know just how to play the cruel game
Of breaking in the most rebellious steeds;
And stubborn captive maids we also tame
And subjugate, to gratify our needs…

Come join us, then! Leave war and war's alarms,
And grasp the hand of peace and amity.
While still there's time, Comrades, lay down your arms!
Let us unite in true fraternity!

But if you spurn us, then we shall not mourn.
We too can reckon perfidy no crime,
And countless generations yet unborn
Shall curse your memory till the end of time.

We shall abandon Europe and her charm.
We shall resort to Scythian craft and guile.
Swift to the woods and forests we shall swarm,
And then look back, and smile our slit-eyed smile.

Away to the Urals, all! Quick, leave the land,
And clear the field for trial by blood and sword,
Where steel machines that have no soul must stand
And face the fury of the Mongol horde.

But we ourselves, henceforth, we shall not serve
As henchmen holding up the trusty shield.
We'll keep our distance and, slit-eyed, observe
The deadly conflict raging on the field.

We shall not stir, even though the frenzied Huns
Plunder the corpses of the slain in battle, drive
Their cattle into shrines, burn cities down,
And roast their white-skinned fellow men alive.

O ancient World, arise! For the last time
We call you to the ritual feast and fire
Of peace and brotherhood! For the last time
O hear the summons of the barbarian lyre!

A Rússia: tradução do poema "Os Citas" de Alexander Blok (1880 - 1921)

Vous êtes des millions. Et nous sommes innombrables comme les nues ténébreuses.
Essayez seulement de lutter avec nous !
Oui, nous sommes des Scythes, des Asiatiques
Aux yeux de biais et insatiables !

À vous, les siècles. À nous, l’heure unique.
Valets dociles,
Nous avons tenu le bouclier entre les deux races ennemies
Des Mongols et de l’Europe.

Durant des siècles, votre antique haut-fourneau forgeait,
Étouffant les tonnerres de l’avalanche.
C’était un conte bizarre pour vous que l’effondrement
De Lisbonne et de Messine !

Durant des siècles vous avez regardé à l’Orient,
Thésaurisant et refondant nos perles.
Et, nous raillant, vous n’attendiez que l’heure
De diriger sur nous les gueules de vos canons.

L’heure est venue. Le malheur bat de l’aile,
Et chaque jour augmente l’offense.
Et le temps viendra où il ne restera pas même de trace
De vos Pœstums, peut-être !

Ô vieux monde ! Avant que tu ne meures,
Pendant que tu languis encore, attaché à ta souffrance,
Arrête-toi, sage comme Œdipe,
Devant le Sphinx et son énigme ancienne !

La Russie est un Sphinx. Heureuse et attristée à la fois,
Et couverte de son sang noir,
Elle regarde, regarde à toi
Avec haine et avec amour !

Oui, aimer comme peut aimer notre sang,
Personne de vous, depuis longtemps, n’en est capable.
Vous avez oublié que dans l’univers il y a l’amour
Qui peut brûler et détruire !

Nous aimons tout — et l’ardeur des froides mathématiques,
Et l’inspiration des visions divines.
Nous comprenons tout — et la subtile raison gauloise,
Et le sombre génie germain.

Nous gardons le souvenir de tout — de l’enfer des rues parisiennes
Et des fraîcheurs de Venise,
De l’arôme lointain des bois de citronniers
Et des masses fumeuses dans Cologne…

Nous aimons la chair, et son goût, et sa couleur,
Et de la chair, l’odeur suffocante et mortelle…
C’est malgré nous s’il craque, votre squelette,
Dans nos pattes si lourdes et si tendres !

Nous sommes habitués à tenir sur le mors
Les étalons trop vifs,
Pour d’un coup briser leur puissante croupe,
Et nous matons les femmes qui désobéissent…

Venez à nous ! Sortez des horreurs de la guerre
Pour tomber dans nos bras !
Tant qu’il est temps encore — remettez la vieille épée au fourreau,
Camarades ! Nous serons frères !

Mais si vous refusez, — nous n’avons rien à perdre.
Et nous aussi nous pouvons être perfides.
Durant des siècles vous serez maudits
Par vos enfants et les enfants de vos enfants, tous malades !

Partout, nous nous retirerons
Dans l’épaisseur de nos forêts.
À la séduisante Europe
Nous montrerons notre gueule asiatique.

Arrivez, tant que vous êtes, sur l’Oural !
Nous viderons la place pour la bataille
Entre les machines d’acier qu’anime le calcul intégral,
Et la horde sauvage des Mongols !

Mais nous, dès maintenant, nous ne sommes plus votre bouclier,
Dès aujourd’hui, nous abandonnons la lutte ;
Nous regarderons de nos yeux étroits
Grouiller le combat à mort.

Nous ne bougerons pas, quand le Hun bestial
Fouillera dans les poches des cadavres,
Incendiera vos villes, logera ses chevaux dans vos églises,
Et fera rôtir la chair des frères blancs…

Une dernière fois ! — prends garde, vieux monde !
Au festin fraternel du travail et de la paix,
Au clair festin fraternel, — une dernière fois,
Te convie ma lyre barbare !






Friday, February 28, 2014

Lançamento de "A Misericórdia dos Mercados", Livraria Barata, Lisboa, 25 de fevereiro de 2014



Da esquerda para a direita: Fernando Pinto do Amaral, Luís Filipe Castro Mendes, Vasco David

"Ode à Incompreensão" de Jorge de Sena

ODE À INCOMPREENSÃO

De todas estas palavras não ficará, bem sei,
um eco para depois da minha morte
que as disse vagarosamente pela minha boca.
Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,
ou nem sonhei ou nem pensei
ou apenas sofri de não ter sofrido tanto
como aterradamente esperara -
nenhum eco haverá de outras canções
não ditas, guardadas nos corações
alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.
Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,
não encontrou eco. Por tudo o que,
para ecoar, ficou silencioso, imóvel -
- isso me dói como se ausência a música
não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,
eminente, destinado, isso me dói
dolorosamente, amargamente, na distância
do saber tão claro, da visão tão lúcida,
que para longe afasta o compassado ardor
das vibrações do sangue pelos corpos próximos.
Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,
da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos
a imensa altura para que me arrebatas
- meu palpitar de imagem à beira da alegria,
meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,
tão longe, que já não meus erros regressassem
como verdade envenenando o dia a dia alheio.
Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!
E quem, ó minha imagem, foi contigo?
(De mim a ti, a mim,
quem de tão longe alguma vez regressa?)
9/10/49 – rev. 1950

Thursday, February 27, 2014

Os livros mortos

Alguns dizem não deixaremos a poesia,
ela atravessará connosco a miséria do mundo
e aonde quer que cheguemos ela falará por nós.
Outros pensam só num resto de decência,
para a proteger com as mãos, como uma frágil chama
se protege do vento.

Eu não sei. Todos os poemas queimados em praça pública
por louros estudantes arianos e belos,
todos os poetas exilados
em campos de trabalho e redenção pelo povo,
todos os que tiveram de passear
sob apupos e com orelhas de burro na cabeça,
porque burgueses afinal burgueses,
todos esses tiveram o seu prémio afinal.

Para os novos senhores é indiferente:
um simples jogo de linguagem sem pertinência
e sem valor acrescentado nas palavras
não lhes merece qualquer menção. Deixam-nos para trás,
porque somos todos nós afinal tão supérfluos e irrelevantes
como as palavras que caem
dos nossos livros mortos*


*(guilhotinados, sim, guilhotinados,
como a pobre Maria Antonieta,
depois da gaffe dos brioches).

Ao fim de um determinado número de anos (dez a quinze), todos os exemplares não vendidos de uma edição de um livro são guilhotinados (destruídos) pelos editores

(nota do autor)






Tuesday, February 25, 2014

Thursday, February 20, 2014

Continuação da conversa com o jovem poeta

Se olhar com atenção a sua cara no espelho,
se ouvir a sua voz gravada,
se olhar os seus gestos num filme,
será desde logo evidente para si
que é outro quem ali está
a representar o seu papel.

A poesia, senhor Kappus, é apenas levar a sério
e até ao fim
este estranhar-se longe de si próprio e ...
desculpe, quer dizer alguma coisa?

Primeiro estranha-se, mas depois entranha-se,
já que a qualidade do nosso vinho, Senhor Poeta,
melhorou muito desde os tempos do Abel
Pereira da Fonseca e é hoje mesmo
o orgulho das nossas exportações, sapatos
à parte.

Um tiro de pistola no meio de um concerto,
era assim que Stendhal considerava
a introdução da política na literatura.
O Sr. Kappus prefere a bebedeira,
o que é típico destes pobres países do Sul,
onde a ética protestante não conseguiu ainda
converter inteiramente todas as dívidas em culpas.
Por hoje, terminámos. Voltamos a encontrar-nos
no dia combinado.






Tuesday, February 18, 2014

Um livro novo

FALA DO QUE NUNCA PLANTOU UMA ÁRVORE AO LIVRO QUE VAI PUBLICAR


És como um filho adulto:
tens o teu pensamento próprio.
Os outros gostam ou não de ti, independentemente
do que eu possa pensar ou sentir. Não te estranho, apenas
deixaste de fazer parte de mim.
Faço-te perguntas,
mas não sei o que responda quando me perguntam por ti.


Ao contrário dos meus filhos, não te amo.
Mas tremo por ti como tremo
por um filho.

Dos mercados

PARAFRASEANDO JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS


Adam Smith, visita
da casa da minha avó,
acharia bem esquisita
esta finança sem dó.
Adam Smith diria,
com uma cara de tédio:
"a licença dos mercados
não faz o livre comércio,
nem as especulações
são Riqueza das Nações".
Mas o Adam é careta
e queria regulação...
Para ele bola preta
e para nós reinação!







Regresso a Pompeia

Paul Alfred de Curzon, Sonho nas Ruínas de Pompeia

A misericórdia dos mercados



Velázquez, La Rendición de Breda

Saturday, February 8, 2014

Da Poesia

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira, in «Trabalho Poético». Ed. Assírio & Alvim.
1

Sunday, February 2, 2014

Os mercados cantam

Um poema espanhol de Vasco Graça Moura

prado : la danaé de ticiano

la luz en los museos no me gusta:
hay que buscar el punto más neutral
para el mirar el cuadro, desde el cual
brilla otra luz, más interior, más justa.

pero en el prado esta mañana he visto
la claridad vibrante del comienzo
del mundo que inundaba ahora un lienzo,
cambiando en lluvia de oro, hambriento y listo,

al diós que así buscó nuevo disfraz
para acercarse al lecho en medio a sedas
y a dánae exaltada, hecho monedas
de eternidad metálica y fugaz,

bajo la luz que en los museos me irrita
y aquí se hace placer cuando palpita.

24.11.98


Encontros em Estrasburgo

Na sede local da University of Syracuse, sobre o Ill, no bem denominado Quai Rouget de l'Isle, encontro com quatro poetas escoceses: Iain Bamforth, que aqui vive e trabalha, e três outros poetas, igualmente editados pela Carcanet, David Kinloch, Peter Mc Carey e Richard Price.

De Iain Bamforth, deixo aqui uma excelente tradução de Fernando Pessoa:

They say I fake or lie
With the written word. Not a bit.
It’s simply that I
Feel with a kind of wit.
Heart doesn’t come into it.
All I put up with or embrace —
Hurts and harms, life’s only end —
Is like a level space
Hiding the space beyond.
Some enchanted place!
And this is why I write
As if I’d taken flight
From suffering and the real,
Serious about what isn’t.
Feel? — Let the reader feel.

Dizem que finjo ou minto 
Tudo que escrevo. Não. 
Eu simplesmente sinto 
Com a imaginação. 
Não uso o coração. 

Tudo o que sonho ou passo, 
O que me falha ou finda, 
É como que um terraço 
Sobre outra coisa ainda. 
Essa coisa é que é linda. 

Por isso escrevo em meio 
Do que não está ao pé, 
Livre do meu enleio, 
Sério do que não é, 
Sentir, sinta quem lê! 

Saturday, February 1, 2014

Resposta



Sim, andei por fora,
por vezes não reconheço as ruas da minha cidade
e há rostos que me envelhecem o coração.
Mas não tenha dúvidas, não precisa de fazer perguntas,
de ficar atento aos meus mínimos movimentos,
de esboçar por dentro de si o desenho
daquilo a que chama a minha alma.
Os comboios param em estações abandonadas, noite dentro,
e nós saímos como passageiros estremunhados e engelhados pelo frio
para cidades desconhecidas, belas e desertas
como todo o tempo que passou.
Sim, eu sei que estou a fugir ao assunto.
Importa-se de repetir a sua pergunta?


Monday, January 27, 2014

José Emilio Pacheco (1939 ~2014)


La falsa vida
Alguien te sigue a veces en silencio.
Las cosas nunca dichas
Se transforman en actos.
Atraviesas la noche en las manos del sueño, Pero el otro, implacable,

No te abandona: lucha
Contra la irrealidad, la falsa vida Donde todo es ocaso.

Frágil perseguidor que eres tú mismo,
Lo has obligado a ser, en guardia siempre, El minucioso espejo que no olvida.
© José Emilio Pacheco 

O futuro é radioso como uma sarça ardente

Tu não sabes o que vai acontecer:
sabes que tens de pagar pelos outros
e nao podes queixar-te, nem vir com histórias batidas,
de amanhãs que cantam, de ricos que nao passam pelo fundo de uma agulha, tudo
contos da carochinha, frases longas demais
que nem sequer se podem traduzir convenientemente para inglês,
porque mesmo quando foram escritas em alemão,
foi da economia política inglesa, essa mesma que Marx estudava dia e noite
no British Museum,
que recebemos as Tábuas da Lei.
E a sarça ardente da crise financeira
o que é senão o pisar sobre a terra
do Deus dos exércitos e das rendas,
a pegada divina que incendeia o mundo
e o leva connosco, sem inflexões, ao seu destino?