Nos versos não fica nada
do que pensamos ou sentimos:
não se iluda, senhor Kappus.
Nós só jogamos com as palavras que nos deram,
como jogadores profissionais com cartas marcadas
num filme passado no Mississipi,
dentro de um daqueles barcos de rodas a subir o rio.
Bem me pareceu estranho o seu chapéu
e os seus modos alterados, senhor Poeta.
Está em flagrante delitro, hoje não vale a pena de todo
falar consigo.
Não se zangue, senhor Kappus, ouça-me até ao fim.
Anda aí muita banha de cobra nesse negócio da poesia.
Temos muitas vezes que cantar a canção do infinito dentro de uma capoeira
e arrancar a máscara que se agarrou à outra máscara por cima da máscara
que nós próprios somos. Pense bem
se podia algum dia viver sem escrever poesia.
Pense muito na sua infância, diga baixo o Nininho quer jinhos,
e veja se é capaz de não ter a menor vergonha
de escrever sem ter nada para dizer.
Por hoje é tudo. Amanhã encontramo-nos à mesma hora,
neste mesmo café.
(Franz Xaver Kappus foi o destinatário das "Cartas a um Jovem Poeta" de Rainer Maria Rilke; o personagem "em flagrante delitro" que "canta a canção do infinito dentro de uma capoeira" e diz que "o Nininho quer jinhos" é reconhecível por detrás de todas as suas máscaras)
do que pensamos ou sentimos:
não se iluda, senhor Kappus.
Nós só jogamos com as palavras que nos deram,
como jogadores profissionais com cartas marcadas
num filme passado no Mississipi,
dentro de um daqueles barcos de rodas a subir o rio.
Bem me pareceu estranho o seu chapéu
e os seus modos alterados, senhor Poeta.
Está em flagrante delitro, hoje não vale a pena de todo
falar consigo.
Não se zangue, senhor Kappus, ouça-me até ao fim.
Anda aí muita banha de cobra nesse negócio da poesia.
Temos muitas vezes que cantar a canção do infinito dentro de uma capoeira
e arrancar a máscara que se agarrou à outra máscara por cima da máscara
que nós próprios somos. Pense bem
se podia algum dia viver sem escrever poesia.
Pense muito na sua infância, diga baixo o Nininho quer jinhos,
e veja se é capaz de não ter a menor vergonha
de escrever sem ter nada para dizer.
Por hoje é tudo. Amanhã encontramo-nos à mesma hora,
neste mesmo café.
(Franz Xaver Kappus foi o destinatário das "Cartas a um Jovem Poeta" de Rainer Maria Rilke; o personagem "em flagrante delitro" que "canta a canção do infinito dentro de uma capoeira" e diz que "o Nininho quer jinhos" é reconhecível por detrás de todas as suas máscaras)
Giorgos Seferis was born in Smyrna, Asia Minor, in 1900. He attended school in Smyrna and finished his studies at the Gymnasium in Athens. When his family moved to Paris in 1918, Seferis studied law at the University of Paris and became interested in literature. He returned to Athens in 1925 and was admitted to the Royal Greek Ministry of Foreign Affairs in the following year. This was the beginning of a long and successful diplomatic career, during which he held posts in England (1931-1934) and Albania (1936-1938 ). During the Second World War, Seferis accompanied the Free Greek Government in exile to Crete, Egypt, South Africa, and Italy, and returned to liberated Athens in 1944. He continued to serve in the Ministry of Foreign Affairs and held diplomatic posts in Ankara (1948-1950) and London (1951-1953). He was appointed minister to Lebanon, Syria, Jordan, and Iraq (1953-1956), and was Royal Greek Ambassador to the United Kingdom from 1957 to 1961, the last post before his retirement in Athens. Seferis received many honours and prizes, among them honorary doctoral degrees from the universities of Cambridge (1960), Oxford (1964), Salonika (1964), and Princeton (1965).




