Thursday, October 24, 2013

Tuesday, October 22, 2013

Cher Manuel Valls



Caro Manuel Valls

Também eu senti grande tristeza com a indecente recondenação do Dreyfus. Sobretudo, talvez, porque com ela morreram os últimos restos, ainda teimosos, do meu velho amor latino pela França. Os suíços, querido Domício, não se enganam generalizando – e atribuindo o julgamento de Dreyfus “à própria essência do espírito nacional”. Quatro quintos da França desejaram a sentença. A França nunca foi, na realidade, uma exaltada de Justiça, nem mesmo uma amiga dos oprimidos. Esses sentimentos d’alto humanismo pertenceram sempre e unicamente a uma elite, que os tinha, parte por espírito jurídico, parte por um fundo inconsciente de idealismo evangélico. Não nego que, aí por 1848, essa elite conseguiu propagar o seu sentimento na larga burguesia, sensibilizada, amolecida desde 1830 pela educação romântica. Mas logo, com o Império, a França se recuperou, regressou à sua natureza natural, e recomeçou a ser, como sempre, a Nação videira, formigueira, egoísta, seca, cúpida. Devia, talvez, acrescentar cruel – porque, de fato, todas as grandes crueldades da História Moderna, desde a guerra dos Albigenses até às Matanças de Setembro, têm sido cometidas pela França. O seu pretendido Messianismo do Amor Social um mero reclame montado pela Literatura romântica – que já fazia rugir de furor o velho e vidente Carlyle. E o processo de Rennes provou que a mesma bondade, a bondade individual é nela rara, ou, tão frouxa, que, se some, apenas a França, um momento, se constitui em multidão. Em nenhuma outra Nação se encontraria uma tão larga massa de povo para unanimemente desejar a condenação dum inocente (que sabia inocente) e voltar as costas, ou mesmo ladrar injúrias, à sua longa agonia.

(Eça de Queirós, Carta a Domício da Gama, 1899)

Monday, October 21, 2013

Liberdade


Homme libre, toujours tu chériras la mer (Baudelaire)

Sunday, October 20, 2013

Marselha



    La mer, la mer toujours recommencée (Valéry)

Vinícius

Deste grande poeta, no seu centenário, um delicioso e apetitoso poema, que me foi enviado pela minha querida amiga Gilda Santos:

Nos 100 anos do nosso querido Vinicius de Moraes, 
esta sua ode aos gourmets...


Não comerei da alface a verde pétala, 
Nem da cenoura as hóstias desbotadas. 
Deixarei as pastagens às manadas 
E a quem mais aprouver fazer dieta. 

Cajus hei de chupar, mangas-espadas, 
Talvez pouco elegantes para um poeta, 
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta 
Que acredita no cromo das saladas. 

Não nasci ruminante como os bois, 
Nem como os coelhos, roedor; nasci 
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz 

E um bife, e um queijo forte, e Parati, 
E eu morrerei, feliz, de coração, 
De ter vivido sem comer em vão.

VINICIUS DE MORAES


Friday, October 18, 2013

Em Marselha, no mês passado



Elle est retrouvée!
Quoi? 
L´Éternité!
C'est la mer allée
avec le soleil

(RIMBAUD)

Um dia de trabalho

Dê-me o primeiro verso, disse no escritório,
e durante a reunião fiquei a pensar que sem o primeiro verso
não chegaria a mandar um poema para a mesa,
porque não dispunha de matéria prima para a construção do poema
e falharia assim a minha vez,
quando me dessem finalmente a palavra,
depois da Polónia e antes da Roménia.

O colega francês passou e disse-me
"Nao me digas que ainda segues
  o método Valéry! Meu caro, isso está tão ultrapassado
  como a escrita automática!"

Thursday, October 17, 2013

Isto não é um poema

O mar Mediterrâneo nunca foi o nosso mar.
Mediterrânicos de tez ou de tom,
nunca deixamos de ter na pele
este ar ácido do Atlântico,
que sempre nos leva para longe de nós próprios
e dos nossos próprios mares.

Tenho pensado nisso desde que vim de Marselha
e das suas ruas cruzadas de povos
vindos de todo este antigo lago mediterrânico,
que tornamos em cemitério quando foi mare nostrum
e teatro de batalhas em Lepanto,
antes deste hipócrita deixar morrer
ao largo de Lampedusa.

Isto não é um poema? Pois não.
Talvez seja o cachimbo de Magritte
embrulhado num jornal de hoje.

E afinal o mundo não se acabou

President Obama signed the bill passed Wednesday night by Congress to end the government shutdown and raise the debt limit.
After Congress passed the measure, the director of the Office of Budget and Management said that government employees should expect to return to work Thursday morning.

(NEW YORK TIMES de hoje)

Wednesday, October 16, 2013

Análise realista da situação

Alguém está a tratar disto


Nous sommes souvent consternés d’apprendre, à la lecture des livres d’histoire, qu’alors que des mondes s’écroulaient, « chacun vaquait tranquillement à ses occupations ». Nous sommes à l’heure où j’écris à moins de 48 heures d’un éventuel défaut des États-Unis sur leur dette et si la nouvelle fait la une de la plupart des journaux, elle ne fait qu’exceptionnellement les gros titres.
On me dit parfois : « Vous annonciez la crise des subprimes et personne n’y prêtait attention, comment cela est-il possible ? » La réponse est là aujourd’hui : le sentiment toujours communément partagé qu’« Il y a sûrement quelqu’un, quelque part, qui fera en sorte que cela n’arrive pas ». C’est cela qu’on découvre par exemple lorsque sont interrogés a posteriori les acteurs de la tragédie Dexia : la conviction de chacun de ceux-ci qu’il y avait sûrement quelque part, quelqu’un d’autre que lui-même, qui veillait au grain.
(...)

Or, je l’ai dit, les instruments de dette américains jouent à l’échelle de la planète un rôle de pseudo-monnaie essentiel – qu’il continuèrent d’ailleurs de jouer, à l’étonnement de certains, aux pires moments de la crise qui avait débuté en 2007. S’ils devaient cesser de jouer ce rôle, ce ne serait plus comme en septembre 2008 une partie majeure du système financier qui serait grippée, ce serait la machine financière toute entière, avec des conséquences impossibles à évaluer.

Nous en sommes là ce matin. Il y a sûrement quelqu’un, quelque part, qui sait comment stopper le processus de déliquescence entamé. Malheureusement pour nous, il ne s’agit ni de M. Obama, ni des membres du Congrès ou du Sénat américains.
Quant aux autres – à l’exception des Chinois dont la préparation aux événements qui menacent souligne selon certains, la malveillance – ils continuent tranquillement de vaquer à leurs occupations.
(Paul Jorion, no seu blog, hoje)

Tuesday, October 15, 2013

Sunday, October 13, 2013

O plano

O rumo



(Breugel, Os Mendigos)

Thursday, October 10, 2013

Glosa à chegada do Inverno

Glosa À Chegada do Inverno

Ao frio suave, obscuro e sossegado,
e com que a noite, agora, se anuncia
depois de posto, ao longe, um sol dourado
que a uma rosada fímbria arrasta e esfia...

Da solidão dos homens apartado,
e entregue a tal silêncio, que devia
mais entender as sombras a meu lado
que a terra nua onde se atrasa o dia...

Recordo o amor distante que em mim vive,
sem tempo ou espaço, e apenas amarrado
à liberdade imensa que não tive,

e que não há. Como o recordo agora
que a luz do dia já se não demora,
se apenas de si próprio é recordado?

JORGE DE SENA

Wednesday, October 9, 2013

País

"País onde qualquer palerma diz
  a tirar do busílis o nariz:
  Não, não é para mim este país."

  (Alexandre O'Neill)

Sunday, October 6, 2013

Uma sugestão de Antonio Tabucchi

Judeus portugueses (Espinoza, Pessoa),
realinhando o mundo, fazendo-o ver a nós todos,
pela primeira vez, num imenso e histérico sonho acordado,
em toda a sua extensão sem profundidade, intenso
em cada poro, em cada átomo, em cada
conexão. Judeus portugueses, Espinoza e Pessoa.
Como nao pensamos nisto antes?

(lendo Antonio Tabucchi, La Nostalgie, l'automobile et l'infini, sobre Fernando Pessoa)


Poesia, apenas

À POESIA

Às vezes seguras-me no braço
e dizes-me as primeiras palavras do poema,
como se fosses a minha própria voz.
Outras vezes guardas a distância, todas as distâncias,
e só um sorriso me chama para ti.

Como quem nos é tão próximo
que nunca o entendemos.
Como a quem amamos.
A poesia.
  

Saturday, October 5, 2013

Um quadro


Parmigianino, Auto-retrato num espelho convexo


 Pour explorer les subtilités de l’art, il entreprit un jour de faire son autoportrait, en se regardant dans un de ces miroirs de coiffeur, de ceux en boule convexe. Ce faisant, voyant les effets bizarres que provoque la convexité du miroir… il lui prit l’envie de contrefaire toute chose selon son caprice. Donc, après avoir fait faire au tour une boule de bois, et l’avoir divisée en demi-boule de taille semblable à celle du miroir, il entreprit avec grand art d’y reproduire tout ce qu’il voyait dans le miroir et en particulier lui-même… Et puisque tous les objets qui s’approchent du miroir grossissent et que ceux qui s’en éloignent rapetissent, il y fit une main qui dessinait un peu grande, comme la montrait le miroir, et si belle qu’elle paraissait très vraie 

— Giorgio VasariVita di Francesco Mazzuoli pittore parmigiano

The secret is too plain. The pity of it smarts,
Makes hot tears spurt: that the soul is not a soul,
Has no secret, is small, and it fits
Its hollow perfectly: its room, our moment of attention.
That is the tune but there are no words.
The words are only speculation
(From the Latin speculum, mirror):
They seek and cannot find the meaning of the music.

John Ashbery, Selfportrait in a convex mirror



Friday, October 4, 2013

Partilha

A palavra é metade de quem fala, metade de quem ouve (Montaigne)

Metade do que escrevo é desse leitor oculto,
esquivo e trocista, que olha para si mesmo no verso
como um espelho convexo
e me interpela sem voz,
num riso mudo.

Sunday, September 29, 2013

Dia de eleições

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
(Alvaro de Campos)

Fui hoje votar entre os pingos da chuva
e a indiferenca dos mercados.
Nós realmente não fazemos falta:
somos fungíveis, como se dizia no Direito.
A democracia está nos mercados, ensinam os bem pensantes.
Deus está na natureza e é ele proprio a natureza,
mas os mercados são o que nega a natureza,
o que oferece o futuro ao que fica mais além do humano,
ao que transcende e anula a natureza
no avesso esplendor de todas as paixões tristes. A menina
dança? Leu Espinoza?



Friday, September 27, 2013

Ainda António Ramos Rosa

"(...) a necessidade de escrever não se satisfaz, é a necessidade de tentar dizer o que nunca se disse, de procurar dizer algo que é, digamos, informulado... Eu tenho um poema que diz que o poeta procura escrever sempre o primeiro poema e nunca o escreve. Mas esse primeiro poema persegue-o sempre em cada poema que ele escreve e ele persegue esse primeiro poema que nunca chega a escrever. É por isso que ele escreve sempre."

(António Ramos Rosa, em entrevista ao PÚBLICO, 1994)

Naqueles anos, entre a Chaves do meu ensimesmamento e a Lisboa que a Alice Vieira e o  Jorge Silva Melo, naquele verão de 1966, começaram a mostrar a este menino provinciano, lido e bisonho, "Poesia, liberdade livre" foi um dos livros que mais me ensinou esta luta com as palavras que a poesia é, sem condescendências nem evasivas. E que quando essa vontade de dar luta não é total e sem reservas, não vale a pena escrever:  por isso tantos intervalos de anos, tantos longos períodos de silêncio na minha relação com fazer poesia...  

Wednesday, September 25, 2013

Mack the Knife: the real thing

Para a música de "Mack the Knife"

MÚSICA DE "MACK THE KNIFE"

Já do Marx 
à Goldman Sachs
o caminho
é pra esquecer!
Hora a hora
já melhora
o mercado
a florescer!

Socialismo
liberal,
tira o lastro
social!
Moderado,
fica ao lado
do que apita
o capital!

O futuro
radioso
vejo agora
amanhecer.
Danke schoen,
meine Frau,
Brecht e Weill
não esquecer!

Lisboa, depois da intervenção de Woody Allen, vai ficar assim

Monday, September 23, 2013

António Ramos Rosa: "Estamos nus e gramamos"


«TELEGRAMA SEM CLASSIFICAÇÃO ESPECIAL» - um poema de ANTÓNIO RAMOS ROSA


                    Ao Egito Gonçalves

Estamos nus e gramamos.

Na grama secular um passarinho verde
canta para um poema lírico, para um poeta lírico, 
que se nasceu
é certo que não cantou.

As paisagens continuam a existir.
As paisagens são suaves.
Continuam também a existir
outras coisas
que dão matéria para poemas.
A vida continua.
Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.
A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança
             indestrutível em si mesmo,
é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.

Num mundo descoroçoante de puras imagens
é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,
é bom navegar.
porque este presente é logo saudoso.

Na grama um passarinho canta.
Evidentemente que o poeta suicidou-se.

A vida continua.
Certas coisas que pareciam mortas
estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.
Ausentes, dominam-nos.
Não é para nós que utilizam as palavras, 
que insistem,
não é para nós!
Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos
fluem em visões, em ondas, como se não no presente.
Ter-se-á o presente extinguido?
A vida continua tão improvávelmente.

Na grama um passarinho canta.
Canta por cantar, ou não, canta.

Eu poderia, com rigor, agora
cantar:
                      Os anjos exactos
                      que empunham tesouras
                      de encontro aos factos
                      - ó minhas senhoras!

Ou rigorosamente ainda,
com veemente exactidão,
inutilizar o poema,
todos os poemas
porque

Estamos nus e gramamos.

                                               4 de Janeiro de 1952 in «Árvore» - 4

Homenagem a António Ramos Rosa

POEMA DE UM FUNCIONÁRIO CANSADO


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só


António Ramos Rosa

Sunday, September 22, 2013

O diplomata


      (Busto de D.Luís da Cunha, por Xavéry, no Rijksmuseum)


Andam pelo mundo e para nada servem,
a não ser para comprar quadros e pratas,
e no fim acabam a vida a fugir às dívidas.
Este viémos encontrá-lo, Majestade, em Paris,
numa casa pobríssima, atulhada de papéis,
amancebado com uma judia, a horrenda Madame Salvador :
altivo nos disse que servira a Pátria, mas nada que nos sossegasse
sobre finanças e devoção. A Pátria? A Pátria, Majestade,
é o que vale uma dívida
e o ouro todo do Brasil não chega
para fundar tão perigosa ideia. Uma Pátria!
Dela não nos salvamos nem nos salva.
Que se nos aproveite a alma e os pecados
nos sirvam de caução e de mentira.
Um dia ele mesmo entenderá. Aprontámos o processo
e Vossa Majestade melhor julgará.

Wednesday, September 18, 2013

A nova pedagogia portuguesa


Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da «fala materna» com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo. «Rue de Rivoli», «Calle d’Alcalá», «Regent Street», «Willhelm Strasse» - que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadame. Em todas a fala ambiente lhe oferece um elemento natural e congénere onde o seu espírito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem atritos. E como pelo verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se pode fundir com todas – em todas sente e aceita uma pátria.

Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos – isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o verbo - apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito - porque as suas ideias forçosamente devem ter a natureza incaracterística e neutra adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles «corpos de pobre» de que tão tristemente fala o povo – «que cabem bem na roupa de toda a gente».

Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de «não sermos nós mesmos», de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o vocábulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável – ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas, e tenta uma instalação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com efeito, se a minha amiga percorrer a «Gazeta dos Tribunais», verá que o perfeito poliglotismo é um instrumento de alta «escroquerie». 

(Eça de Queirós)