Friday, January 14, 2011

Aliança das Civilizações

No Paquistão, um governador que ousou defender uma cristã, acusada de "blasfémia", condenada à morte por um tribunal islâmico, foi assassinado. O assassino foi coberto de flores por manifestantes islâmicos, nenhum governante ousou ir ao funeral da vítima, que todos os clérigos muçulmanos se recusaram a abençoar, e centenas de advogados se ofereceram já para defender gratuitamente o assassino.

Em Portugal, a população de Cantanhede manifestou-se em defesa de um jovem modelo, que assassinou, com requintes de crueldade, o seu parceiro homossexual.

Aliança de Civilizações!

Thursday, January 13, 2011

Paul Krugman

Sou leitor do blog de Paul Krugman.

O que ele considera "fiasco" não é o resultado obtido pelos títulos portugueses no leilão da dívida : o que ele considera fiasco e caminho para o abismo é a estratégia recessiva que a Alemanha está a impôr à Europa.

Quem considera essa estratégia a certa (e é toda a opinião publicada) só pode considerar os resultados do leilão como um sucesso.

Mesmo que isso lhes custe muito...

Tuesday, January 11, 2011

Jornalismo adversativo

Português perdeu a votação entre os seleccionadores, empatou entre os jornalistas, mas foi o grande vencedor na gala em Zurique

(PUBLICO)

PUBLICO : campeão do jornalismo adversativo

Sunday, January 9, 2011

Vítor Alves

"O Captain, my Captain"

(Walt Whitman)

Mudança (2)

Esperando que no Ministério não leiam este blog, não deixo de confessar que a atenção com que seguia a questão da formação de um novo estado federado no Telengana, as dissensões no partido Trinamul ou o escândalo à volta da demissão do ministro Raja tem diminuído um pouco ultimamente. A minha leitura dos jornais desviou-se para outros temas políticos.

"A Katrina Kaif deixou o Salman Khan?" pergunto, ao pequeno almoço, face ao "Hindustan Times".

"Há que tempos!" responde a minha Mulher, sempre mais atenta ao real.

Para quem não saiba, estamos a falar de actores de Bollywood.

Tenho-me vindo a interessar, assim, por personalidades culturais como Bipasha Basu, Deepika Padnukone e, é claro, Freida Pinto.

Darei conta em breve das conclusões destes meus estudos comparativos.

Mudança

Nestes últimos dias na Índia, algumas coisas inesperadas estão a suceder na nossa vida quotidiana.

O reflexo normal de procurar um livro para uma referência ou citação depara com a parede vazia, estando os livros já dentro dos caixotes, à espera do contentor. Nem sempre a internet supre a falta (tinha razão um amigo com quem discuti há tempos as vantagens do Google sobre a busca directa nos livros). Reduz-se a vida intelectual aos poucos livros que apressadamente se guardaram para estes tempos de indigência.

Isso leva a lê-los com maior cuidado e vagar, porque a escassez aguça a atenção. Finalmente leio o excelente "Os Despojos da Aliança" de Pedro Aires de Oliveira, o magnífico "Salazar" de Filipe Ribeiro de Menezes e treino a minha futura actividade diplomática num útil livro que os meus filhos me ofereceram no Natal: "Manifester à Paris".

O frio em Deli (12º de máxima, 4º de mínima) excedeu já o de Genebra e de Paris, tendo nós aqui o mesmo modelo de aquecimento que reinava nos invernos portugueses de há uns anos atrás : casas geladas, abertas aos quatro ventos "para arejar", com uns pobres aquecedores eléctricos de dimensões mínimas espalhados pelo espaço máximo. Fechamo-nos em dois quartos mais pequenos (o "bunker 1" e o "bunker 2") e abandonamos aos ventos as salas maiores.

Resta-nos, para as poucas noites em que não temos jantares de despedida, o nosso amigo Dr. House...

Wednesday, January 5, 2011

De Séneca

Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças.
Séneca

Saturday, January 1, 2011

Um poema de Sophia para o primeiro dia do ano

NESTES ÚLTIMOS TEMPOS

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo – de seu
Viscoso gozo da nata da vida – que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

Julho de 1976

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Wednesday, December 29, 2010

L´Etrangère - Yves Montand

Como falar aos mercados

Este tempo

Não no meio das ruínas
a delicada
exposição do verso,
mas aqui, no meio do mundo,
a respirar com os outros
e a dissipar a raiva,
como um anjo esquecido
e necessário.

O resto é aproximarmo-nos do que não faz sentido
e entender que disso exactamente
é que precisamos.

Monday, December 27, 2010

Contra a evidência das coisas, o saber dos iluminados

"Dizer que a economia irlandesa falhou é uma patetice"

(João Salgueiro, no PUBLICO de hoje)

Saturday, December 25, 2010

Crisofilia

Foi o embaixador do Reino Unido em Lisboa que encontrou o nome para a nossa perversão favorita : somos "crisófilos". E é verdade.

Friday, December 24, 2010

En étrange pays dans mon pays lui même (Aragon)

Lisboa, sabes?

É o lugar onde te sentes estrangeiro
na tua própria terra.

É como se fosses
"o idiota da família":
só vês gente cheia de certezas,
ninguém se põe em questão,
nem a si nem a nada.

E depois toda esta alegria sado-masoquista com a crise
("eu bem dizia")...

E ainda falam dos pobrezinhos como se falava nos versos de João de Deus!

Lisboa, sei.

O Império Austro-Húngaro era melhor!

Depois da Áustria em 2000, ostracizada pela UE por causa de um ministro, não perca os salamaleques que vai receber a próxima presidência húngara, garante, como se está a ver, das mais amplas liberdades...

(Disse salamaleques? Isso a alguns franceses pode lembrar a ocupação nazi, dada a origem da palavra! Je m'excuse...)

Franklin Roosevelt Social Security

Wednesday, December 22, 2010

Para nascer, Portugal; para morrer, todo o mundo (Vieira)

Pequenos e cercados,
buscando grandeza "qual a sorte a não dá",
obstinados numo pertinaz desânimo,
aqui continuamos, a Ocidente do Ocidente,
a sonhar com o mundo todo na nossa mão
e ao mesmo tempo
a invejar o quintal do vizinho,
desesperadamente

J. S. Bach - (2/3) Weihnachtsoratorium BWV 248 - Kantate IV - Nos. 39-40

Ladainha dos Póstumos Natais, David Mourão Ferreira

Ladaínha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

Monday, December 20, 2010

Portugal

"Terra pátria serás nossa
e mais o céu que te cobre,
serás nossa,
mãe pobre de gente pobre!"

(Carlos de Oliveira)

Monday, December 13, 2010

A Europa connosco (1891, Ultimatum) ou o utilitarismo

"Salisbury believed that it was not his duty to protect the Braganza dynasty, even though he came under pressure from the Kaiser, the Prince of Wales and Queen Victoria to do just that. He believed that the Portuguese were "making the most of their weakness" and told Petre (EMBAIXADOR BRITÂNICO EM LISBOA) that his language "should be stiff and uncompromising", pointing out that the British government had to placate "a public opinion as exacting and powerful as their own". Salisbury's typical utilitarian attitude, understandably not shared by his royal correspondents, was that "if the Portuguese monarchy is so desperately weak that our demands will overthrow it, it is not worth saving".

Salisbury found the Portuguese the least satisfactory negotiators of any he had dealt with, for, as he told Morier, when pressed in argument, "instead of arguing back, they throw themselves on their backs and scream"."

(Andrew Roberts "Salisbury: A Victorian Titan", Londres, Phoenix, 1999)

Tuesday, December 7, 2010

Varanasi 2010 : homenagem no momento

India holy city blast 'hurts 20'
www.bbc.co.uk
At least 20 people have been injured by an explosion in the Indian holy city of Varanasi, Indian media reports say.

Varanasi 2010

Sunday, December 5, 2010

Um historiador chinês do futuro olha uma borboleta

Ano 2050 e eis que o mundo por fim se ordena!
Apenas durante um pequeno período de seis séculos
conseguiram os bárbaros do Ocidente desinquietar
a harmonia do Mundo.
Deixaram-nos finalmente todo o capital, as armas e as técnicas
e vivem hoje entre as ruínas da sua inteligência,
sonhando com passados: os que existiram
e os que nunca existiram.

Nós olhamos uma borboleta
antes de construir a arma definitiva e fatal
e pensamos que o tempo da borboleta é como o nosso ciclo de vida:
um dia cabe num milénio e um milénio não é mais do que um dia.
Há que explicar isto aos indígenas da Europa:
um dia voltará a crescer alguma coisa a Ocidente
e teremos então que sabiamente estar precavidos
com a nossa arma definitiva e fatal.

Outra Despedida

Deixa-me explicar-te uma última vez:
a poesia não é edificante.
Se eu te amei ou te guardei rancor,
nunca o irás entender se me leres.
Os anos que passei junto de ti tornaram-me cada vez mais alheio,
mas isto nada tem que ver com o amor.
Os anos que passei junto de ti chamaram-me para bem longe de ti,
mas isto nada tem que ver com o amor.
Porque o amor é muitas vezes só
a alegria de eu não ser tu,
a alegria de tu não seres eu.

(Publicado em 2001 no meu livro "Os Dias Inventados", sob o título "Outra Despedida do Brasil". Hoje revivido noutro lugar.)

Depois de ler os jornais de manhã