Wednesday, December 29, 2010

Como falar aos mercados

Este tempo

Não no meio das ruínas
a delicada
exposição do verso,
mas aqui, no meio do mundo,
a respirar com os outros
e a dissipar a raiva,
como um anjo esquecido
e necessário.

O resto é aproximarmo-nos do que não faz sentido
e entender que disso exactamente
é que precisamos.

Monday, December 27, 2010

Contra a evidência das coisas, o saber dos iluminados

"Dizer que a economia irlandesa falhou é uma patetice"

(João Salgueiro, no PUBLICO de hoje)

Saturday, December 25, 2010

Crisofilia

Foi o embaixador do Reino Unido em Lisboa que encontrou o nome para a nossa perversão favorita : somos "crisófilos". E é verdade.

Friday, December 24, 2010

En étrange pays dans mon pays lui même (Aragon)

Lisboa, sabes?

É o lugar onde te sentes estrangeiro
na tua própria terra.

É como se fosses
"o idiota da família":
só vês gente cheia de certezas,
ninguém se põe em questão,
nem a si nem a nada.

E depois toda esta alegria sado-masoquista com a crise
("eu bem dizia")...

E ainda falam dos pobrezinhos como se falava nos versos de João de Deus!

Lisboa, sei.

O Império Austro-Húngaro era melhor!

Depois da Áustria em 2000, ostracizada pela UE por causa de um ministro, não perca os salamaleques que vai receber a próxima presidência húngara, garante, como se está a ver, das mais amplas liberdades...

(Disse salamaleques? Isso a alguns franceses pode lembrar a ocupação nazi, dada a origem da palavra! Je m'excuse...)

Franklin Roosevelt Social Security

Wednesday, December 22, 2010

Para nascer, Portugal; para morrer, todo o mundo (Vieira)

Pequenos e cercados,
buscando grandeza "qual a sorte a não dá",
obstinados numo pertinaz desânimo,
aqui continuamos, a Ocidente do Ocidente,
a sonhar com o mundo todo na nossa mão
e ao mesmo tempo
a invejar o quintal do vizinho,
desesperadamente

J. S. Bach - (2/3) Weihnachtsoratorium BWV 248 - Kantate IV - Nos. 39-40

Ladainha dos Póstumos Natais, David Mourão Ferreira

Ladaínha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

Monday, December 20, 2010

Portugal

"Terra pátria serás nossa
e mais o céu que te cobre,
serás nossa,
mãe pobre de gente pobre!"

(Carlos de Oliveira)

Monday, December 13, 2010

A Europa connosco (1891, Ultimatum) ou o utilitarismo

"Salisbury believed that it was not his duty to protect the Braganza dynasty, even though he came under pressure from the Kaiser, the Prince of Wales and Queen Victoria to do just that. He believed that the Portuguese were "making the most of their weakness" and told Petre (EMBAIXADOR BRITÂNICO EM LISBOA) that his language "should be stiff and uncompromising", pointing out that the British government had to placate "a public opinion as exacting and powerful as their own". Salisbury's typical utilitarian attitude, understandably not shared by his royal correspondents, was that "if the Portuguese monarchy is so desperately weak that our demands will overthrow it, it is not worth saving".

Salisbury found the Portuguese the least satisfactory negotiators of any he had dealt with, for, as he told Morier, when pressed in argument, "instead of arguing back, they throw themselves on their backs and scream"."

(Andrew Roberts "Salisbury: A Victorian Titan", Londres, Phoenix, 1999)

Tuesday, December 7, 2010

Varanasi 2010 : homenagem no momento

India holy city blast 'hurts 20'
www.bbc.co.uk
At least 20 people have been injured by an explosion in the Indian holy city of Varanasi, Indian media reports say.

Varanasi 2010

Sunday, December 5, 2010

Um historiador chinês do futuro olha uma borboleta

Ano 2050 e eis que o mundo por fim se ordena!
Apenas durante um pequeno período de seis séculos
conseguiram os bárbaros do Ocidente desinquietar
a harmonia do Mundo.
Deixaram-nos finalmente todo o capital, as armas e as técnicas
e vivem hoje entre as ruínas da sua inteligência,
sonhando com passados: os que existiram
e os que nunca existiram.

Nós olhamos uma borboleta
antes de construir a arma definitiva e fatal
e pensamos que o tempo da borboleta é como o nosso ciclo de vida:
um dia cabe num milénio e um milénio não é mais do que um dia.
Há que explicar isto aos indígenas da Europa:
um dia voltará a crescer alguma coisa a Ocidente
e teremos então que sabiamente estar precavidos
com a nossa arma definitiva e fatal.

Outra Despedida

Deixa-me explicar-te uma última vez:
a poesia não é edificante.
Se eu te amei ou te guardei rancor,
nunca o irás entender se me leres.
Os anos que passei junto de ti tornaram-me cada vez mais alheio,
mas isto nada tem que ver com o amor.
Os anos que passei junto de ti chamaram-me para bem longe de ti,
mas isto nada tem que ver com o amor.
Porque o amor é muitas vezes só
a alegria de eu não ser tu,
a alegria de tu não seres eu.

(Publicado em 2001 no meu livro "Os Dias Inventados", sob o título "Outra Despedida do Brasil". Hoje revivido noutro lugar.)

Depois de ler os jornais de manhã

Tuesday, November 30, 2010

O futuro

"Antigamente, também o futuro era melhor"

(Karl Valentin)

Stand de Portugal no bazar diplomático de Nova Deli

Saturday, November 27, 2010

Recado pessoal

PONT-MARIE

Saudades de viver
à míngua do teu corpo
-iremos esquecer
a sede nesse rosto?

Ou é porque lembramos
e não queremos dizer
que dura nestes anos
toda a luz por esconder?

(do meu livro "O Jogo de Fazer Versos", 1994)

Sunday, November 21, 2010

Mais uma vez Goa...

IDYLL

When Goa was Goa
my grandfather says
the bandits came
over the mountain
to our village
only to splash
in cool springs
and visit Our Lady's Chapel.
Old ladies were safe
among their bags
of rice and chillies,
unperturbed
when souls restless in purgatory
stoned roofs
to ask for prayers.
Even the snakes bit
only to break the monotony.

Eunice de Souza, in "Fix" (1979)

Wednesday, November 17, 2010

Adeus a Goa : 1871

"Noutro número das "Farpas" lembrámos a respeito das colónias este grande melhoramento - vendê-las! Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da Índia - dá-la!"

(Eça de Queiroz, "As Farpas", Setembro de 1871)

Tuesday, November 16, 2010

Adeus a Goa : 1888

"Quanto a nós, habituados a ver nos homens os joguetes da necessidade e convencidos de que o estudo da História requer aquela apatia sublime que abre mão de todos os interesses humanos ante a majestade das leis naturais, lamentando a sorte dos últimos portugueses da Índia, mas admirando a habilidade dos seus vencedores, não nos surpreendemos ao assistir ao desenlace desta contenda histórica. Ela é o resultado directo da estrutura mental dos dois adversários. Cada homem traz dentro do peito o seu destino"

(Moniz Barreto, in "O Reporter", 2 de Junho de 1888)

Monday, November 15, 2010

Adeus a Goa

O que amaste verdadeiramente fica:
e os que te ofenderam,
esses ficarão?

"What you lovest well remains,
the rest is dross"

(Ezra Pound)


Farewell, my dear friends!

Good bye, my dear dross!

Thursday, November 4, 2010

Autocrítica 2

É verdade que as funções que exerço não me permitem dizer tudo o que penso...

Autocrítica

Sei que não soube (não fui capaz) de experimentar e de pensar tudo o que a Índia me ofereceu, simplesmente pela sorte que eu tive de aqui ter vivido quase quatro anos.

Algo em mim se crispou e a experiência precisa de leveza; algo em mim endureceu e o pensamento precisa de equanimidade (estou com Séneca: nunca louvar nem lamentar, mas sim compreender).

O pensamento indiano pode ser agressivo, mas é ao mesmo tempo acolhedor, ricamente diversificado e heterogéneo e profundamente argumentativo, para usar a conhecida expressão de Amartya Sen. O pensamento ocidental sobre a Índia tem montes de lixo, mas encontram-se pérolas e jóias lá dentro (e autores incontornáveis).

Agora que parto, prometo a mim próprio repensar de longe a Índia, esta Índia impossível de reduzir a fórmulas e a frases, mas infinita no dom da sua experiência.

Esta Índia que é muito mais do que os milionários do crescimento dos 9% do PIB e os gurus da espiritualidade cobrada ao dólar.

Esta Índia, que tem a maior pobreza da Terra, mas que não é uma terra de mendigos.

Esta Índia que tem a maior diversidade religiosa da Humanidade, mas que constantemente trabalha, cria e inventa.

Esta Índia que construíu a mais improvável democracia do Mundo, no meio de um dos mais terríveis exemplos de "som e de fúria" da História.

Assim me ajude Ganesha!