Thursday, November 4, 2010

Autocrítica

Sei que não soube (não fui capaz) de experimentar e de pensar tudo o que a Índia me ofereceu, simplesmente pela sorte que eu tive de aqui ter vivido quase quatro anos.

Algo em mim se crispou e a experiência precisa de leveza; algo em mim endureceu e o pensamento precisa de equanimidade (estou com Séneca: nunca louvar nem lamentar, mas sim compreender).

O pensamento indiano pode ser agressivo, mas é ao mesmo tempo acolhedor, ricamente diversificado e heterogéneo e profundamente argumentativo, para usar a conhecida expressão de Amartya Sen. O pensamento ocidental sobre a Índia tem montes de lixo, mas encontram-se pérolas e jóias lá dentro (e autores incontornáveis).

Agora que parto, prometo a mim próprio repensar de longe a Índia, esta Índia impossível de reduzir a fórmulas e a frases, mas infinita no dom da sua experiência.

Esta Índia que é muito mais do que os milionários do crescimento dos 9% do PIB e os gurus da espiritualidade cobrada ao dólar.

Esta Índia, que tem a maior pobreza da Terra, mas que não é uma terra de mendigos.

Esta Índia que tem a maior diversidade religiosa da Humanidade, mas que constantemente trabalha, cria e inventa.

Esta Índia que construíu a mais improvável democracia do Mundo, no meio de um dos mais terríveis exemplos de "som e de fúria" da História.

Assim me ajude Ganesha!

Sunday, October 31, 2010

"Europa, sonho por vir" (Casais Monteiro)

ESCRITO NA ÍNDIA


Europa, mãe pálida,
espectro da História num eterno presente,
aprende outra vez a escutar o esplendor do mundo,
não te feches na mágoa dos ressentidos,
na amargura dos vencidos,
no niilismo que o velho Frederico temia em ti!

Às vezes ocorrem-nos poemas assim pretensiosos,
como se dizer estas coisas tivesse alguma importância.
Eu vi a luz em um país perdido,
mas eu sou dessas casas, dessas ruas,
e há muito aprendi que sou europeu!

Europa, mãe pálida,
reaprende a ser europeia!

(tem citações de Brecht, Nietzsche, Pessanha, Eugénio e Natália... e é para quem quer!)

Thursday, October 28, 2010

Nós, Portugal, o poder ser

TORMENTA

Que jaz no abysmo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.

Isto, e o mysterio de que a noite é o fausto...
Mas subito, onde o vento ruge,
O relampago, pharol de Deus, um hausto
Brilha, e o mar scuro struge.

26-2-1934

Fernando Pessoa, "Mensagem"

Poema para o dia de hoje!

Thursday, October 21, 2010

O Cônsul Geral

À Ruben Dario

Ni les attraits des plus aimables Argentines,
Ni les courses à cheval dans la pampa,
N’ont le pouvoir de distraire de son spleen
Le Consul général de France à la Plata !

On raconte tout bas l’histoire du pauvre homme:
Sa vie fut traversée d’un fatal amour,
Et il prit la funeste manie de l’opium;
Il occupait alors le poste à Singapoore...

— Il aime à galoper par nos plaines amères,
Il jalouse la vie sauvage du gaucho,
Puis il retourne vers son palais consulaire,
Et sa tristesse le drape comme un poncho...

Il ne s’aperçoit pas, je n’en suis que trop sûr,
Que Lolita Valdez le regarde en souriant,
Malgré sa tempe qui grisonne, et sa figure
Ravagée par les fièvres d’Extrême-Orient...

(Henry Jean-Marie LEVET, CARTES POSTALES, 1902)

Outras Índias...

BRITISH INDIA
A Rudyard Kipling
Les bureaux ferment à quatre heures à Calcutta;
Dans le park du palais s'émeut le tennis ground;
Dans Eden Garden grince la musique épicée des cipayes;
Les équipages brillants se saluent sur le Red Road...
Sur son trône d'or, étincelant de rubis et d'émeraudes,
S.A. le Maharadjah de Kapurthala
Regrette Liane de Pougy et Cléo de Mérode
Dont les photographies dédicacées sont là...
- Bénarès, accroupie, rêve le long du fleuve;
Le Brahmane, candide, lassé des épreuves,
Repose vivant dans l'abstraction parfumée...
- A Lahore, par 120 degrés Fahrenheit,
Les docteurs Grant et Perry font un match de cricket, -
Les railways rampent dans la jungle ensoleillée...
Henry J.-M. Levet.


Poète, chroniqueur au Courrier français, 1895-1896, puis à La Plume, obtient par l'intermédiaire de son père une mission en Inde, 1897. Il devient diplomate, en 1902, ayant choisi cette carrière par goût du voyage. Elle le conduit aux Philippines (secrétaire-archiviste, à Manille, en 1902), puis en Argentine, en 1906, (chargé de la Chancellerie de Las Palmas). Il meurt de phtisie à Menton âgé de 33 ans.
Le meilleur de son œuvre consiste en 11 poèmes, les Cartes postales, parues en revue en 1902 et rééditées après la mort de l'auteur par Valery Larbaud et Léon-Paul Fargue à La Maison des amis des livres en 1921, sur qui elles eurent une grande influence, ainsi que sur d’autres poètes du voyage.

Wednesday, October 20, 2010

Magistratura e poesia: para não nos levarmos demasiado a sério

Enquanto isso, o procurador solicitou ao funcionário para lhe trazer o casaco do gabinete, para que pudesse tirar do bolso e ler algumas das quadras que escrevera e que quis que ficassem “expostas em verso”. E que passou a ler assim que a magistrada regressou à sala de audiências:

Adoro levantar cedo

E ter a obrigação cumprida

dos falsos tenho medo

são o pior que há na vida

(...)

São sete e pouco da manhã

Viajo de metro para o trabalho

Fi-lo ontem, falo-ei amanhã

Só sou aquilo que valho

Os comboios já vão cheios

Muitos se levantam cedo

Nas mulheres aprecio os seios

Mas têm outro enredo

(...)

Viajam brancos e pretos

Nacionais e estrangeiros

Alguns vivem em “guetos”

Outros em lugares foleiros

(...)

Entram uns, saem outros

É o frenesim da manhã

Levam-se alguns encontrões

Levo eu, e mulher minha.

E com este verso anunciou o procurador ser tudo “quanto a quadras”

(PUBLICO de hoje)

Diplomacia e Poesia

Many diplomats have used poetry in their diplomatic work: wrapping words in silk is the diplomat’s job. A diplomat may turn a lie into a ‘constructive ambiguity’ – which is a way of defining poetry. Some poets have been diplomats – Neruda, Claudel, St. John Perse. It’s an occupational hazard: the stimulating place, the sheltered existence – and the ability to paraphrase the unknowable. Few diplomats will admit to using poetry as a survival strategy.
Diplomats are like sentinels at an outpost scrutinising the desert beyond. Expecting the barbarians never to appear over the hazy horizon, they sceptically await the inevitable improbable. Meanwhile, drill replaces skill. From dawn till dusk and deep into the night beyond, on the parade grounds, they are made to practice coherence and coordination as if their career depended on it. In an attempt to strengthen morale and impart character, chanting of ‘public diplomacy’ mantras has been taken up. Numbing menial jobs – arranging ministerial junkets, tripping bleary-eyed through dilapidated factories – replace detention.
Diplomats are like watchmakers: their art is hidden inside a bland, if polished, case. Only a couple of hands, forever going round and round to no apparent purpose, betray the existence of an intelligent design. The best designer is the one who leaves no signature – just invariant perfection. Creating a masterpiece, however, is a rare opportunity.
In daily diplomatic routine one is to judge the quality of a negotiated text not by its content, but by its discards. At the end of the day, under a diplomat’s table one may find crumpled amendments, execrable points of order, and many a plain word. The box of useless qualifiers, the well of slimy compromises, lie about empty.
To survive, a diplomat needs poetry. Filed amidst the many layers of the brief, the short poem will refresh the bleary mind. Poetry brings distance – hence perspective and insight. Poetry reminds the diplomat that the best professional is the amateur.
Most deeply – poetry is truth.

(Aldo Mateucci)


Mr Aldo Matteucci graduated from the Swiss Federal Institute of Technology (ETHZ) in Agriculture, and from Berkeley in Agricultural Economics. He spent three years in East Africa doing research on land use, then in Maryland, working on rural development. In 1977 he joined the Swiss Federal Office of Economic Affairs. He was deputy director of the EUREKA Secretariat in Brussels, and from 1994 to 2000, deputy secretary general of EFTA. He obtained early retirement upon leaving EFTA.

Monday, October 18, 2010

"Un misérable tas de petits secrets" (Malraux)

A lua abriu no céu um grito de alegria
que me fez esquecer o molho de segredos

trazidos do nascer.

O túnel

Não, não são os anos que nos levam
por este túnel escuro onde amarga
todo o mel que nos deram ao nascer.

Somos nós que cavamos fundo
na flor ou no deserto
de uma vida.

Saturday, October 16, 2010

Days of Wine and Roses

Se o vinho azedou
e as rosas murcharam,
o que é que mudou
do que te deixaram?

Quem te prometeu
que serias feliz?
Teu pai já morreu
e ninguém mais diz

que o vinho faria
junto com as rosas
promessa do dia
em cores vitoriosas.

Thursday, October 14, 2010

One Art

Perdemos muitas pessoas durante a vida e não só quando elas morrem. Pessoas mais ou menos importantes, mas que de repente notamos "já cá não estão". Ou porque morreram, ou porque desistiram de nós, ou porque nós desistimos delas.

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop

Wednesday, October 13, 2010

Obituários

"Apenas na morte amamos os nossos irmãos. Bem no sabeis todos vós, os que cuspis um veneno inútil sobre a amargura de outrem contra vós, sobre a opinião diferente, a cor que não preferis, a pátria que desdenhais. Que é esta aversão, este panfleto, senão uma condenação à morte, um voto para o fim de algo que não sois vós, não vos corresponde ou acerta com o vosso eu? Eis porque, quando o homem morre, logra então começar a viver na sua dignidade mais pura; amam-no então, uma vez que se diluiu a bélica estabilidade da sua imposição vital. Ele participa desse privilégio de que se exclui o efémero, não é já prisioneiro da corruptora fraude do tempo(...). Os mortos são populares porque não mudam."

(Agustina Bessa Luís, "A Muralha")

Monday, October 11, 2010

Meeting poets (Eunice de Souza)

MEETING POETS

Meeting poets I am disconcerted sometimes
by the colour of their socks
the suspicion of a wig
the wasp in the voice
and an air, sometimes, of dankness.

Best to meet in poems:
cool speckled shells
in which one hears
a sad but distant sea.

(Eunice de Souza, from "Five London Pieces")

Saturday, October 2, 2010

Nova poesia portuguesa: Margarida Vale de Gato

ANIVERSÁRIO

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.


O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor.

(Margarida Vale de Gato, "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010)

Tuesday, September 28, 2010

La Solitude

Este blog serviu-me essencialmente para escrever.

Mas escrever em público é estranho : porque a escrita é uma actividade solitária, a que o leitor só deveria chegar no fim do percurso.

Podemos comentar a vida : e Mathew Arnold chamava à poesia "a criticism of life"... Podemos contar histórias. Podemos lançar boatos. Podemos fazer maldades.

E tudo isso pode ser escrita.

Mas a solidão faz falta. Agora faz-me falta.

Pus no Facebook (aqui não consigo copiar do YouTube) "La Solitude" do Léo Ferré.

É do que às vezes precisa a escrita.

Wednesday, September 22, 2010

Lendo Ruy Duarte de Carvalho

Lendo "Desmedida", o excelente livro de viagens de Ruy Duarte de Carvalho pelo Brasil, vejo como um angolano (que era também um bocado português, desculpa lá, ó Ruy!)sente exactamente o que eu senti como português face àquela permanente "fábrica do inédito" (na expressão dele) que é o Brasil : eu só entendi bem o que era ser português (e, pelo que ele diz, o Ruy só entendeu completamente o que era ser angolano) depois de ter vivido a experiência do Brasil.

O Brasil é a nossa desmedida. O Agostinho da Silva tem a clássica fórmula "o brasileiro é o português à solta". Eu penso que esta imagem produzida pelo Ruy do Brasil como "fábrica do inédito" é ainda melhor e mais generalizante. Reparem o que o Brasil faz dos imigrantes de todas as etnias. E reparem na complexidade do processo de branqueamento, que está a ser agora deturpado com acções afirmativas copiadas dos americanos, não que não haja injustiças no Brasil em relação aos negros que têm de ser corrigidas, mas acontece que o Brasil não tem nada que ver com os Estados Unidos (sorry, Mr. Vianna Moog!...).

Pergunto-me : e a Índia? E Goa? E Damão e Diu, tão diferentes de Goa? E Cochim e Calicute? Em que nos vem a Índia confrontar enquanto portugueses?

É muito complicado. Areia demais para a minha camioneta? Ou inibição fatal do diplomata em posto? Só soube responder, até agora, com um livro de poemas, que, em princípio, irá sair em Maio : "Lendas da Índia". Mas talvez se sigam mais reflexões, com tempo e com distância...

Dormente é que não estou!

Tuesday, September 21, 2010

Thursday, September 16, 2010

Et pourtant...



"Il n'y a pas d'amour heureux" (Aragon)

Uma carta de Eça de Queiroz sobre a França



" Quatro quintos da França desejaram, aplaudiram a sentença. A França nunca foi, na realidade, uma exaltada da Justiça, nem mesmo uma amiga dos oprimidos. Esses sentimentos de alto humanitarismo pertenceram sempre e unicamente a uma elite que os tinha, parte por espírito jurídico, parte por um fundo inconsciente de idealismo evangélico. Não nego que, aí por 1848, essa elite conseguiu propagar o seu sentimento na larga burguesia, sensibilizada, amolecida desde 1830 pela educação romântica. Mas logo, com o Império, a França se recuperou, regressou à sua "natureza natural" e recomeçou a ser como sempre a Nação videira, formigueira, egoísta, seca, cúpida"


(carta a Domício da Gama de 26 de Setembro de 1899; a sentença referida foi a segunda condenação de Dreyfus)

À entrada de uma reunião de embaixadores em Nova Deli

Tuesday, September 14, 2010

Passeio matinal



Quando passo à porta da Embaixada da China, todas as manhãs, encontro muitas vezes monges budistas na fila para os vistos.

Sunday, September 12, 2010

Voltámos!



Rumo à livraria Bahri and Sons, no Khan Market!

Friday, September 10, 2010

Intempestivas (reflexões com o jet lag)

Voltemos a pensar a Índia, a partir de a viver.

Os europeus ante a Índia oscilam entre o fascínio e o esquecimento. Considerada ora como uma fonte de sabedoria, ora como um manancial de charlatanismo, o pensamento indiano foi ganhando contornos tanto míticos como mistificadores para a chamada consciência ocidental.

A seguir veio a promoção da imagem do novo gigante emergente, pronto para arrumar as nossas ineptas idealizações do Estado Social (Bismarck não chegou a conhecer Hayek e o próprio Adam Smith tinha umas ideias morais extravagantes!). A vida num slum de Bombaim conviria perfeitamente aos nossos trabalhadores. Mas a constatação do dinheiro que este gigante gasta a impedir os camponeses de morrerem de fome e a sustentar os luxos e consumos dos funcionários públicos, os mais inúteis e perniciosos dos seres, logo virou os entusiasmos liberais de novo para a grande e democrática China, terra das mais amplas liberdades...

E assim voltámos ao tio Mao, que já nem temos o Simon Leys para dizer que o rei vai nu!

Thursday, September 9, 2010

Fado do Amigo da Onça



Nenhum destino me espera
à beira de entristecer:
se um amigo me faz guerra,
traição o fará morrer.

Trago o soluço comigo
de um choro que jamais tive:
não era amigo o amigo,
nem sei se morre se vive!

Se mentiu ou se levou
a minha amada com ele,
largou memória, passou
por baixo do rio, aquele

que os mortos vão conhecer
quando o tempo se esconder.

Tuesday, September 7, 2010

Regresso à Índia



(imagem roubada no facebook a Assírio e Alvim)

Monday, September 6, 2010

Para encerrar o ciclo do Algarve

Algarve

1

A luz mais que pura
Sobre a terra seca

2

Um homem sobre o monte desenhando
A tarde transparente das aranhas

3

A luz mais que pura
Quebra a sua lança

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Sunday, September 5, 2010

Homenagem ao Algarve e a António Ramos Rosa

Eu sou algarvio, nasci no Sul [...] o espaço mais luminoso de Portugal, sim, terá tido alguma influência na minha obra poética onde a “nudez” é uma palavra que terá talvez alguma correspondência com a paisagem algarvia

(António Ramos Rosa)



Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

Homenagem à Ria de Faro

LEMBRANÇA DA RIA DE FARO

Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caiada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia

Gastão Cruz
Crateras
Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

Wednesday, September 1, 2010

Homenagem à Ria de Alvor

NUMA NOITE DE AGOSTO SOBRE A RIA DO ALVOR
(à Elisabeth Enders e à Lena Abreu)

Gritam grilos na noite serrilhada, cosidos a ela
como lantejoulas

gritam grilos como as estrelas
no infinito imaginado:

a invisibilidade dos números
faz os brilhos

um gato passa no seu passo lento e fino
um gato temerário que me fita

um comboio corta a noite correndo
pelo som que faz
o romper do ar que há na sua voz
na sua voz

Velocidade é tempo e o comboio é a sua
mais perfeita imagem

- tudo o que corre ocorre no sentido inverso
à marcha do comboio

no sentido inverso à terra, ao seu relógio,
pois que a velocidade é tempo e o comboio

é dela a mais perfeita imagem
Os comboios que eu amo não sabem de onde vêm

perdem-se na noite e refocilam como portentosos sonhos
pelos campos espalham uma quimérica limalha

dispersam-na e refocilam, portentosos bisontes
pois que algo no comboio livremente o toma

como as obstinações, a febre
e porque é febre a pressa que o acirra

(Maria Andresen, "Lugares,3", Relógio d'Água, Lisboa, 2010)

Homenagem à Mexilhoeira Grande

A POESIA

É uma luz que desce a escada do poema e
se senta à porta, esperando que o dia entre
para dentro da estrofe.

É uma voz que se encosta ao corrimão
da palavra e sobe sílaba a sílaba até chegar
ao patamar do verso.

É o eco que nasce de um canto perdido
nos quintais do poema, e atrai os pássaros
para dentro da sua imagem.

É a mão que percorre as linhas da frase,
como se fossem as linhas da vida, e decide
em cada cesura um ponto final.

Como se a poesia nascesse do silêncio, ou
um grito a empurrasse para a vibração
de um último eco.

(Nuno Júdice, "Guia de Conceitos Básicos", D.Quixote, Lisboa, 2010)