Friday, May 14, 2010

Homenagem ao juiz Baltazar Garzón

Um poema de Jaime Gil de Biedma:

AÑOS TRIUNFALES

Media España ocupaba España entera
con la vulgaridad, con el desprecio
total de que es capaz, frente al vencido,
un intratable pueblo de cabreros.

Barcelona y Madrid eran algo humillado.
Como una casa sucia, donde la gente es vieja,
la ciudad parecía más oscura
y los Metros olían a miseria.

Con luz de entardecer, sobresaltada y triste,
se salía a las calles de un invierno
poblado de infelices gabardinas
a la deriva, bajo el viento.

Y pasaban figuras mal vestidas
de mujeres, cruzando como sombras,
solitarias mujeres adiestradas
- viudas, hijas o esposas -

en los modos peores de ganar la vida
y suplir a sus hombres. Por la noche,
las más hermosas sonreían
a los más insolentes de los vencedores.

Jaime Gil de Biedma, Moralidades, 1966
(na sua primeira edição este poema intitulava-se De los años cuarenta)

Thursday, May 13, 2010

Sophia fala de nós

Nestes últimos tempos é certo a Esquerda muita vez
desfigurou as linhas do seu rosto.
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
degradação da vida que a Direita pratica?

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Borges fala de Goa ... e de Camões

EL MAR

El mar. El joven mar. El mar de Ulises
Y el de aquel otro Ulises que la gente
Del Islam apodó famosamente
Es - Sindibad del Mar. El mar de grises
Olas de Erico el Rojo, alto en su proa,
Y el de aquel caballero que escribía
A la vez la epopeya y la elegía
De su patria, en la ciénaga de Goa.
El mar de Trafalgar. El que Inglaterra
Cantó a lo largo de su larga historia,
El arduo mar que ensangrentó de gloria
En el diario ejercicio de la guerra.
El incesante mar que en la serena
Mañana surca la infinita arena.

Jorge Luis Borges, El oro de los tigres (1972)

Tuesday, May 11, 2010

Um soneto de David Mourão Ferreira

E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se envolam tantos anos.

Sunday, May 9, 2010

Homenagem a uma cidade, desfocada no poema


Ali ninguém me esperava. Nem eu disse
que queria ficar.
Um jantar solitário, a chuva a doer nos vidros,
um quarto simples e preparado à pressa.
Na manhã seguinte o ar era limpo como as palavras num bom poema
e as ruas e as casas, despidas de retórica,
desenhavam-nos o dia, simplesmente.

Sinto-me tão melhor nos lugares
que não finjem estimar-nos,
que não nos impõem memórias nem partilhas,
que se deixam simplesmente ser
e nos permitem não pertencer!

(Porque escrevemos sempre contra alguma coisa
mesmo quando falamos de felicidade?)



Friday, May 7, 2010

Os poetas e a República

Embora o autor deste blog tenha a sua opinião pessoal e o seu voto como cidadão, este blog obviamente não irá tomar qualquer posição ou assumir qualquer preferência relativamente às próximas eleições presidenciais.

Não posso, porém, deixar de me sentir incomodado com frases como esta:

Mas, quando vivemos a maior crise dos últimos 100 anos, seria surpreendente que os portugueses se entregassem nas mãos de um poeta

(Paulo Pinto de Mascarenhas, no jornal i)

Atenção: Se em vez de "poeta" estivesse escrito apenas o nome do candidato Manuel Alegre, esta frase não me suscitaria qualquer reparo : poderia pessoalmente concordar ou discordar, mas parecer-me-ia inteiramente curial e aceitável.

Pode dizer-se que Manuel Alegre não é o Presidente de que os portugueses precisam : não pode é usar-se a palavra "poeta" como sinónimo de "tontinho irresponsável" ou "louco inimputável". Quem andou a brincar com o nosso dinheiro: foram os poetas ou respeitáveis banqueiros, todos homens honrados, como dizia Marco António no discurso fúnebre de César, na peça de Shakespeare?

Recomendo a leitura do último número da revista "Relâmpago" sobre "Poesia e Dinheiro".

E dedico este post à memória de Dom Diniz, Rei de Portugal, poeta e estadista.

Monday, May 3, 2010

Uma rua (Nova Deli)


Pequenos templos,
com deuses toscos que sorriem,
incenso e bosta de vaca

ou apenas a imagem doutros deuses
no oco da árvore da esquina.

Os seres simples
não têm necessariamente o coração puro:
mas a arrogância do mundo
parece não morar nesta rua.

Friday, April 30, 2010

Vingança sobre Chico Buarque de Hollanda

"A Revolução dos Cravos não correspondeu às minhas expectativas, por isso eu fiz uma segunda versão de Tanto Mar..." (Chico Buarque, em 1976)




TANTO MAR

Sei que estás em festa, pá:
Lula deu grana!
E o Brasil ganhou fama
e prestígio pra xuxu!


Tantos dólares a nos separar!
Tanto mar, tanto mar!
E nós só queremos é
negociar, negociar!


Foi essa Revolução
que falhámos aqui?
Traz-nos urgentemente
um pouquinho de pilim...

Inquisição, cristãos novos, goeses : uma citação



Caravelas, caravelas,
mortas sob as estrelas
como candeias sem luz!
E os padres da Inquisição
fazendo dos vossos mastros
os braços da nossa Cruz!

( Carlos de Oliveira, Xácara das Bruxas Dançando)

No fim da viagem (música de Mack the Knifer)

Que aprendemos?
Que escondemos?
Que fizémos
com a lei?
Porque fomos
mimos, momos
nesta sede
de perder?


Que guardamos?
Seda fina,
lã desfeita,
jóia acesa
em corpo nu?
Que trouxémos
donde vimos?
Cravos, tragos
de outro mar?


Um poeta
na miséria
vende versos
a El Rei:
vivo engenho,
fera arte,
nobres coisas
de que eu sei.


O pirata
missionário
do que soube
não mentiu:
peregrino
de outra parte
teve a arte
do que viu.


O portuga
não precisa
de ter lições
do Brasil:
já fizémos
dom à Índia
até mesmo
do caril!


O pirata
trouxe aos mares
o arejo
ocidental:
ingleses
e holandeses
vieram tirar-nos
do Mal!


Que Calvino
vos proteja
e a Britannia
bem vos reja!
O pirata
deita a rede
na areia
- adormeceu!

As ambições da Índia

Não perder este interessantíssimo artigo de Constantino Xavier:
www.watershed.com.br/interna_new.asp?cod=271

Tuesday, April 27, 2010

Luta literária

Um poema do poeta brasileiro (e diplomata também) Francisco Alvim:

LUTA LITERÁRIA

Eu é que presto!

Sunday, April 25, 2010

25 de Abril em Goa



Foi por acaso que tínhamos um cravo vermelho esta manhã no nosso quarto no hotel?


Saturday, April 24, 2010

De novo em Goa

Inauguração do Festival Europeu do Cinema em Goa, com o filme "Cristóvão Colombo" de Manoel de Oliveira. Visita oficial dos embaixadores da União Europeia a Goa.

Referências simpáticas feitas pelo Governador de Goa a Portugal, como tem sido hábito; desassombro da presidência espanhola, ao referir a efeméride de 1510 (conquista de Goa por Afonso de Albuquerque), como um momento primordial no encontro entre a Índia e a Europa; vontade comum aos europeus do Sul de afirmarmos à Índia que não existiu só a colonização britânica como modelo...

Cada vez vejo aqui mais esquecidos o discurso pró - colonial e o discurso anti - colonial (duas faces da mesma moeda) junto da juventude goesa. Cada vez encontro mais curiosidade e interesse por um Portugal moderno e europeu.


Thursday, April 22, 2010

Ó liberais da minha terra...


Os m-l (market-liberals) da nossa terra devem sentir face ao discurso do Obama hoje o que o Cunhal sentiu em 1989 ao ouvir o Gorbachev...



Wednesday, April 21, 2010

Parce que ça me plaît...


"mais il est beau que l'animal qui sait qu'il doit mourir arrache à l'ironie des nébuleuses le chant des constellations et qu'il le lance au hasard des siècles auxquels il imposera des paroles inconnues"

(André Malraux, Les voix du silence)

O canto da terra (2)

Porque a paz é uma invenção da humanidade
e a guerra o estado natural,
a natureza não nos oferece paz
nem nos dá nada sem preço.

Nós não somos o que nega a natureza:
a ela pertencemos inteiros,
bem como à morte.

O que nos faz diferentes é sermos a única espécie
que sabe que vai morrer.

Tuesday, April 20, 2010

O canto da terra


As paisagens não são silenciosas:
elas contam sempre a história de uma guerra
entre homens e natureza ou, se preferirem,
entre diversos modos de natureza.

A terra não foi feita para a paz:
ela existe sempre entre lutas de morte e súbitas catástrofes
e só nelas e por elas vive.


Sunday, April 18, 2010

O jogo da guerra : fronteira indo-paquistanesa de Wagah







A cerimónia do arrear das bandeiras no posto fronteiriço de Wagah, para além das exibições das marchas em passo de ganso dos soldados dos dois exércitos, conhecidas do público em geral, tem uma capacidade extraordinária de dar ao jogo bélico (e à ideia de guerra iminente que está por trás de tudo aquilo) uma dimensão espectacular, lúdica e, desse modo, catártica. Com o terror e a piedade expurgados, ficamos mais disponíveis para o enfrentamento...


Dos dois lados da fronteira enchem-se as bancadas em anfiteatro: "Hindustan" gritam deste lado; "Pakistan" respondem do outro lado.


Começa então o desafio com grupos de crianças e suaves raparigas correndo em direcção à cancela fechada, empunhando a bandeira indiana e sorrindo de alegria : ao aproximarem-se da barreira, o soldado indiano manda-os recuar, com ar severo; mas logo vêm outros, mais e mais crianças e jovens, todos desfraldando a bandeira da Índia em direcção ao Paquistão...


Entretanto, do outro lado, velhos barbudos e honrados correm pela parada agitando a bandeira do Paquistão, a multidão entoa hinos patrióticos e os tocadores de tambor executam o seu número frenético : mas tudo acaba por ser abafado pela musica de Bollywood que sai dos altifalantes do lado indiano...


As jovens e os jovens do lado de cá começam então a dançar, numa verdadeira "disco border party", que culmina no "Jai Ho", uma dança de festa juvenil e de desafio trocista aos paquistaneses, que continuam a agitar o tambor, a cantar os hinos e a animar os velhinhos barbudos a continuar a correr com as suas bandeiras.


Surgem então os apupos e os dichotes entre as duas "claques" (a ideia do estádio é imediata) e um concurso entre um lado e o outro para ver quem consegue manter mais alto e mais tempo o seu grito de guerra...


O "Vande Mataram", hino da Índia hindu (não o hino nacional) irrompe então da bancada do lado de cá. Famílias entoam gritos patrióticos. Todos parecem satisfeitos com o que estão a fazer.


Vemos do outro lado alguns colegas diplomatas acreditados no Paquistão : acenamo-nos e sorrimos.


Postos que estão frente a frente os dois valorosos campos, tocam então as trombetas de uns e outros. Os jovens bailarinos do lado de cá e os velhos porta-bandeiras do lado de lá são mandados sair de cena, rispidamente. E têm lugar então as cerimónias militares.


Soldados de um lado e do outro avançam em passo de ganso para a cancela, logo voltando para trás, porque a fronteira só é aberta em dois momentos : no primeiro, um soldado indiano e um soldado paquistanês fixam-se muito tempo de pé, frente a frente, olhos nos olhos (mas não conseguem disfarçar a sua preocupação essencial com a compostura das respectivas fardas...); no segundo momento, há uma espécie de baile ritual entre os soldados (baile feito, entenda-se bem, apenas do cruzamentos das duas marchas), que termina com o alinhamento de todos os militares, o toque do arrear das bandeiras e a descida simultânea, lenta e solene, dos dois pavilhões...


Do cimo do anfiteatro, do outro lado, a fotografia oficial de Ali Jinnah olha para todos nós, com aquele olhar altaneiro e trágico, que hoje sabemos ser o de um homem consciente de que ia morrer em breve (dois meses), mas que só morreria depois de ter conseguido criar o seu Estado!


O oficial indiano e o oficial paquistanês apertam a mão. Terminou a cerimónia. "Este ano correu bem" comenta o meu amigo indiano "não houve muitos insultos vindos das bancadas. Bom sinal". De facto, a cerimónia é de uma inesperada bonomia. Mas é de guerra que se trata : dois predadores a rugir um para o outro, mesmo que sob a forma de gentis meninas a dançar o "Jai Ho"...

Thursday, April 15, 2010

Lendas da Índia : Amritsar, fronteira com o Paquistão


Revenir à soi - c'est revenir au reste. C'est exactement revenir à ce qui n'est pas soi.

(Paul Valéry)

Parto amanhã para Amritsar.

Tuesday, April 13, 2010

Patriotismos, nacionalismos, pós-nacionalismos


Não chego ao ponto do Dr Johnson ( o "patriotismo é o refúgio dos canalhas" ) ; nem creio que tenhamos já chegado na Europa àquela fase "pós-nacional", que Habermas nos anunciava. Os últimos desenvolvimentos no nosso continente mostram que os Estados-nações continuam no essencial no posto de comando e preparemo-nos agora para enfrentar as questões da nacionalidade dos húngaros que vivem fora da Hungria com toda a paciência dos Habsburgos ... a paciência que justamente falta à Rainha da Prússia para lidar com os parceiros pobres do euro!

Mas depois de mais um encontro de intelectuais indianos e europeus não posso deixar de notar a diferença de atitudes face ao nacionalismo, de um e do outro lado.

O nosso nacionalismo é velado pelo manto diáfano da União Europeia : o nacionalismo indiano tem a mesma assertividade e certeza do nosso passado nacionalista romântico, que foi emancipalista primeiro e totalitário depois. Se pensarmos que o mesmo nacionalismo é sentido pelos chineses e, claro, pelos russos, começamos a perceber algum incómodo na nossa pele...

Valha-nos ser a Índia uma democracia!

Friday, April 9, 2010

A um poeta que rejeitou a sua obra


Não entres de bom modo nesta noite escura, disse outro poeta,
não entres sem deixar atroar pelas paredes todas
a violência do teu "não".

Querem sempre reduzir-nos a uma pequena frase
de resumo e simplificação,
la petite phrase qui va vers le monde plus vrai de l'art
e assim nos vem roubar toda a música do mundo,
não é isto?
Não consintas.

Se nada podemos fazer contra a estátua de pedra
ou de sal
em que nos querem transformar,
ao menos deixemos ficar o grito
dissonante
da nossa recusa,
com toda a raiva e o amor que os brutos não entendem.

E só depois morrer.


Monday, April 5, 2010

Há mais coisas no céu e na terra...


Às pequeninas traições eu não respondo:
e as grandes, essas, atiro-as para a beira da estrada,
porque logo vem uma curva
e tudo fica para trás,
sem remédio e sem lembrança.

De muitas coisas é feito o mundo.
Mais do que sabe a tua filosofia.

Bartleby, o que foi poeta (2)


Só sei responder à vida com poemas:
e a alternativa é viver a vida
sem dar por ela,

sem lhe responder, fingindo
não lhe dar troco,
esgueirando-me entre as suas voltas

para poder não escrever.
Porque se eu tivesse aprendido alguma coisa,
se eu tivesse mesmo
alguma coisa para dizer,

por certo não responderia à vida com poemas.

Friday, April 2, 2010

Um soneto de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

Ah um Soneto!!!

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

Fernando Pessoa

Thursday, April 1, 2010

Um judeu alemão (poema de Hans Magnus Enzensberger, trad M Hamburger)

karl heinrich marx

Hans Magnus Enzensberger

gigantic grandfather

jehovah-beardedon

brown daguerrotypes

i see your face in the snow-white aura

despotic quarrelsome

and your papers in the linen press:

butcher's bills

inaugural addresses

warrants for your arrest

your massive body

i see in the "wanted" book

gigantic traitor

displaced person

in tail coat and plastron

consumptive sleepless

your gall-bladder scorched

by heavy cigars

salted gherkins

laudanum and liqueur

i see your house

in the rue d'alliance

dean street grafton terrace

gigantic bourgeois

domestic tyrant

in worn-out slippers:

soot and "economic shit" *

usury "as usual" *

children's coffins

backstair calamities

no machine-gun

in your prophet's hand:

i see it calmly

in the british museum

under the green lampbreak

up your own house

with a terrible patience

gigantic founder

for the sake of other houses

in which you never woke up

gigantic zaddik

i see you betrayed by your disciples:

only your enemies remained what they were:

I see your face on the last picture of april eighty-two:

an iron mask:

an iron mask of freedom*

Quotations from Marx's letters to Engels in the 1850s and 1860s.