Saturday, January 30, 2010

Para reflexão : Niall Ferguson

Is the Indian model of growth, which is democratic but also chaotic, more viable than the Chinese one?

Yes, partly because it's more chaotic. In the end what India did inherit from Britain and what India since 1991 has developed are the key institutions for the successful development of capitalism - private property rights, a court system where the rule of law is upheld, a system of administration which is not too corrupt though there is room for improvement and, crucially, representative government , which allows grievances of the population to be aired in a non-violent way. That's a pretty impressive list of institutions. Now nobody is saying India is perfect. Democracy in the US has corruption too. Surprise, surprise!

But it's a lot better than what the Chinese come up with for their people, which is essentially a oneparty state, private property rights up to a point when it suits the authority and a programme of breakneck industrialisation based on infrastructure building, which while its impressive in comparison to the Jaipur-Delhi road, ultimately isn't a model which will carry China into the mid-21 st century without very serious problems. Demographically and also politically major problems lie ahead of China. India started economic reforms much later - 1991 as compared to 1978. It's a big difference. That's why the comparisons that are often made don't make sense. It's not that this race began at the same moment. If India had had reforms since 1978 we would be in a very different country. I say give India time. Allow the benefits of a relatively free society, of the rule of law, of democracy, allow those benefits to play out. Because I think it's inconceivable , on the basis of my historical understanding , that those institutions don't give India an advantage over China. They must, really must. It may take 20 years to manifest, but I'll still be around in 20 years.

(Entrevista de Niall Ferguson ao "Times of India", hoje, 30 de Janeiro)

Friday, January 29, 2010

Em Calicute, Pêro Vaz de Caminha recorda uma outra terra

Sinais de terra,
o pássaro, a folha de cajueiro, a linha do horizonte:
chegámos aonde não havia mais rotas
e nunca saberemos bem qual foi nosso destino.

Agora, perto do Samorim, recordo aqueles homens
que dançavam nus ao som das nossas músicas.
Aqui olham-nos de alto, acham-nos pobres,
entendem-nos melhor do que nós próprios.

Que o Rei nos favoreça
e saibamos um dia voltar a uma pátria
que nos estranha.

Visto de Deli

Pensando na minha recente estadia na Europa, não deixa de me preocupar a total ausência na opinião pública (e publicada) da consciência de que o eixo do mundo se está a mover irreversivelmente para longe da Europa (nos nossos responsáveis políticos mais lúcidos encontrei essa consciência, mas não transparece cá para fora, o que é compreensível).

Dirão : mas isso já sucedeu no século XX e 1945 é que marcou o fim da hegemonia europeia. Sim : mas entretanto construímos a União Europeia (um prodígio institucional, não sejamos blasés), o Estado Social Europeu, que resistiu à ofensiva Reagan - Thatcher e tornou a nossa parte do mundo o melhor e o menos injusto lugar da Terra para se viver e concebemos o espaço euro - atlântico (por sobre todas as suas episódicas questões internas, agravadas recentemente por Bush le petit) como o senhor natural do mundo.

Hoje tudo isto mudou : e só vejo respostas defensivas, medos, histerias identitárias repelentes (um livro do Sr Besson que ultrapassa em cretinismo toda a estupidez que nos possa incomodar em Portugal) junto a uma assustadora falta de confiança e de alternativas.

Não digo que a Europa esteja tão mal como os europeus dizem nem que a Ásia esteja tão bem como os asiáticos acham: a leitura dos cépticos e prudentes "Economist" e "Financial Times" ajuda-nos às vezes a ver as coisas na sua justa medida. Mas lá que, visto pelos asiáticos, o mundo parece que lhes pertence, é um facto. E nós na Europa... bom, tenho que me calar, que sou uma pessoa responsável!

Wednesday, January 27, 2010

Googlemus igitur...

O meu amigo Paulo Varela Gomes sustenta que o Google nos conduz à imbecilidade, pela preguiça mental que favorece.

Ora bem : outro dia, tinha eu acabado um destes posts mais eruditos, com citações para deslumbrar os meus escassos leitores, quando uma grave dúvida me veio abalar - o Eliot, esse, o T.S., tinha escrito irreal city ou unreal city?

Se o Google não existisse eu teria tido que:

- descer do quarto à estante da poesia

- procurar o volume das obras completas do Eliot na desordem dessa estante

- encontrar o verso (da Waste Land, claro, diz o sábio leitor, mas eu não me lembrava então se era dali ou dos Four Quartets)

- irritar-me por não encontrar o verso

- acabar por encontrar o verso

- tornar a subir as escadas para o quarto e voltar ao computador

Nada disso : fui ao Google, "Eliot", "unreal city", um clique - e aí vem a Waste Land e o nevoeiro londrino e a festa toda...

Nesse caso, meu caro Paulo:

- a preguiça foi essencialmente física

- a imbecilidade estará, quando muito, em não me ter lembrado de qual o poema em que se insere o verso do Eliot; reconheço que é uma falha, mas há imbecilidades piores

- perdi talvez em não ter folheado uma vez mais o livro com as obras do Eliot, encontrando versos e brilhos aqui e ali : mas pude escrever mais depressa o meu post!

E viva o Google!


Canções do exílio : Espanha

No sabías hablarme. Por eso
nos echamos al catre
y dejé que jugaras con mi cuerpo
toda la noche
- qué te crees tú?

Era Madrid en los años ochenta.
No lo lleves nunca demasiado en serio.
Tu amiga de verdad,

A.


Canções do exílio : Angola

A terra onde viste como matar
e sorrir com o corpo todo
num estremecimento de bala perdida
ou assomo de ternura num desvão
de casa devassada

é a terra que não podes esquecer
nem trair.

Canção do exílio

Não trouxe nada para te dar.
Sempre fui estranho às terras em que vivi
e só amei de verdade o que mais me foi estranho.
Terra minha, pátria que te dizes,
nada tenho para ti.

Quando chego à tua beira,
à estrema do teu mar,
a língua de alguns versos enrola-se-me na boca,
é certo.
Mas vê bem : tenho os olhos enxutos
e sou alheio a tudo para que me queres chamar.

Bem sei, dependo de ti.
Mãe pobre de gente pobre, ninguém renega
a miséria de que nasce.
Mas eu sou de outras paragens,
porque sempre fui de outros lugares.
Foi sempre assim e não tem nenhum mistério.

Menino e moço me levaram,
usado e velho não me trouxeram
para o pé de ti.
Não importa : há um verso que cintila
na minha voz,
pedras, conchinhas, pedacinhos de ossos,
no fundo do mar do meu naufrágio,
há uma história longa que aprendi

mesmo que nunca te diga
e que nada tenha para te dar.

(versos de Carlos de Oliveira e de Camilo Pessanha)




Tuesday, January 26, 2010

Hospitalidade


Uma casa onde nos recebem com amizade, amizade antiga e provada pelo tempo...

Noite e nevoeiro


O nevoeiro enrolou a nossa cidade de Deli como uma manta molhada. No desfile hoje do Dia da República esta névoa foi bem o fundo apropriado para as bandas de gaitas de foles dos regimentos de origem escocesa : no princípio do desfile nem o outro lado da avenida se distinguia ...

Em Benarés os ghats e as suas piras funerárias (a expressão das famílias - era tal qual um enterro na nossa terra; quando virão turistas indianos fotografar os nossos funerais?) estavam envolvidos numa bruma londrina, ao modo de Turner, que dava ao nosso percurso de barco um romantismo diferente de todos os estereótipos da Índia.

É o inverno e estamos no Norte.


Ainda sobre o modelo de civilização

Este modelo de civilização ocidental tem como conteúdo aquilo a que chamamos (controversamente) modernidade. Mas que estruturalmente mantém o velho nome de capitalismo.

Não há exterior a este modelo. Mas pode haver outra resistência. Que não a dos fundamentalistas.

Monday, January 25, 2010

Impressões de Benarés (tão estúpidas como quaisquer outras)

Fomos habituados a identificar a religião
com o nojo do mundo
ou com a decência celibatária da melancolia:
em Benarés entendi que a religião pode ser alegria,
violenta alegria e desafio de estar vivo
contra todas as servidões.


Sunday, January 24, 2010

Civilização (visto de Deli)

Se encararmos a questão do ponto de vista do modelo de civilização, é evidente que o modelo de civilização a que chamamos ocidental triunfou em todo o mundo, ainda que com fortes bolsas de resistência dos fundamentalistas islâmicos (a maior ameaça), mas também judeus, hindus e até cristãos (o "Bible belt"...).

Este modelo é capaz de coexistir e de se entrosar com diferentes culturas e civilizações, ao contrário do que pensava o puritano Huntington e do que pratica o puritano Bin Laden.

O que está em causa não é o evidente triunfo deste modelo (não é o fim da História, calma, é apenas um pouco tarde, parafraseando o Manuel António Pina...), o que está em causa é a deslocação dos centros de poder dentro deste modelo, movimento que vai claramente em direcção da Ásia!

O Império tem centro, contrariamente ao que pensa Negri : mas é um centro que se desloca lentamente...

O nosso trabalho é manter a lucidez sobre o nosso lugar neste processo de descentramento e saber agarrar a oportunidade : kairos!




Wednesday, January 20, 2010

Nocturno indiano (Deli)

A névoa interpôs-se entre mim
e o velho senhor com quem discutia há pouco,
na casa aquecida de onde saímos,
os sentidos do secularismo e da modernidade.
O polícia, enrolado na manta, acendeu uma fogueira
e o passeio é como a floresta primordial
na névoa poluída
de fantasmas e tubos de escape.

Nocturno de Deli : unreal city tu também,
entre pedras, deuses e homens enrolados em mantas
à volta do fogo.


Sunday, January 17, 2010

Regresso à Índia


Anúncio publicitário visto hoje na rua: "Taste the most exotic : olive oil!"


Sunday, January 10, 2010

Escala em Paris

Regresso à Índia, mas passo uns dias em Paris, a tomar balanço...

A SOMBRA

Quem eu fui há vinte anos
veio hoje tomar-me do braço e perguntou:
o que fizeste de mim?

Respondi-lhe: fiz tudo quanto deixaste
que eu pudesse fazer.

A sombra sorriu de troça.
E desapareceu.

(Ainda preciso de desculpas
para tudo o que não fiz).

Sunday, January 3, 2010

Encontrei hoje este poema

No tires las cartas de amor


Ellas no te abandonarán.
El tiempo pasará, se borrará el deseo
-esa flecha de sombra-
y los sensuales rostros, bellos e inteligentes,
se ocultarán en ti, al fondo de un espejo.
Transcurrirán los años. Te cansarás de libros.
Descenderás aún más
y perderás, también, la poesía.
El ruido de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que hayas guardado
serán tu última literatura.

Traducción del catalán del propio autor.

(Joan Margarit. Aguafuertes. Renacimiento.1998)

Saturday, January 2, 2010

Começar de novo

Começámos o ano com um passeio pelo Paredão de Cascais, como se vê pela fotografia anterior, a que juntei um poema de Vítor Nogueira, poeta de grande qualidade (Comércio Tradicional, 2008, Mar Largo, 2009) .


Um poeta : Vítor Nogueira


A alvorada faz tremer o Castelo. Nuvens
de cinza tapam o céu. Ao princípio
até custa respirar. E depois o vento começa.
E depois o sol aparece, perfura devagarinho.
Isto não é nada que se planeie, não é
o sonho que tivémos na infância.

No grande vale há espaço para tudo.
A verdade, no entanto, é que passamos
demasiado tempo curvados. Serventes,
calceteiros, batedores de maço.
Também eu fui o mais novo do meu grupo.
De repente, deixou de ser assim.

Mas vai correr tudo bem.
Palavra de irmão mais velho.

(do livro de Vítor Nogueira, Mar Largo, ed. &etc, 2009. Notável!)

Wednesday, December 30, 2009

Resposta a Camões




para o Luís Quintais


Foi a noite junto à igreja de Diu
ou a tarde que entrámos nas grutas de Elefanta?
Há na tarde para sempre perdido um navio
e há na noite um demónio sinistro que canta.

Os deuses que avistámos na loucura mansa
vingaram-se de nós com seu simples durar
e o Cristo que trouxémos na guerra e na bonança
fez-se deus nesta terra e perdeu-se do mar.

Foi a noite que trouxe este manso esquecer
em que a História se deu no passo de uma dança
e nos chamam de longe os que vieram morrer
além da sua terra e aquém da lembrança?

Foi a noite a entrar na igreja de Diu
ou a sombra de Deus na ilha de Elefanta?
Shiva hermafrodita desta cave sorriu
e o mundo se fez contra toda a esperança!





Contra Wittgenstein

Mas eu gostaria sempre de dizer outra coisa:
o que percebo passa-me ao lado,
então balbucio, rascunho, apago
- e por isso a poesia.

Do que se não pode falar
sempre se pode
amassar um poema.

O caminho das Índias

Houve terras que de tão sonhadas
não puderam ser ditas senão em prosa lenta,
isto é, em poesia.

É preciso ir além do deslumbramento,
como se foi além da dor
(e é mais difícil,
porque o deslumbramento dura menos
e distancia).

Nessas terras o comércio das palavras
fez-se entre olhares desdenhosos e juras
de sangue.

Foi tão estranho seguir
esta rota para a poesia...

A Golconda

Perdida a rota da Golconda,
os teus olhos brilham no escuro,
com a ironia dos homens do mar
abandonados em terra.

E junto de mim perguntam
o que traz este marinheiro
das terras perdidas?

Tuesday, December 29, 2009

Ao grande mentor deste blog

Tintin et Milou, conhecidos quando eu era criança como Tim Tim e Ron Ron...


À inspiradora deste blog: Alcipe


D.Leonor de Almeida Portugal, Marquesa de Alorna, nome literário Alcipe (1750 - 1839)

Um encontro em Lisboa, no Palácio do Marquês de Fronteira, graças à generosa hospitalidade do seu titular e neto de Alcipe, o meu querido amigo Fernando Mascarenhas.


Saturday, December 26, 2009

Bom Ano Novo e Boas Festas de Passagem!


Sobre antologias de poesia

Obviamente, as boas são as que me incluem, as más a que me excluem - e qualquer poeta que pretenda que não pensa assim, m-e-n-t-e!

Friday, December 25, 2009

Dizem que o mundo está perigoso... preparemo-nos!

Natal

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Dos que não são cristãos?

Ou de quem traz às costas

As cinzas de milhões?

Natal de paz agora

Nesta terra de sangue?

Natal de liberdade

Num mundo de oprimidos?

Natal de uma justiça

Roubada sempre a todos?

Natal de ser-se igual

Em ser-se concebido,

Em de um ventre nascer-se,

Em por de amor sofrer-se,

Em de morte morrer-se,

E de ser-se esquecido?

Natal de caridade,

Quando a fome ainda mata?

Natal de qual esperança

Num mundo todo bombas?

Natal de honesta fé,

Com gente que é traição,

Vil ódio, mesquinhez,

E até Natal de amor?

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Ou dos que olhando ao longe

Sonham de humana vida

Um mundo que não há?

Ou dos que se torturam

E torturados são

Na crença de que os homens

Devem estender-se a mão?

Jorge de Sena, Exorcismos

Natal

Ladainha dos póstumos Natais-David Mourão-Ferreira

LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


David Mourão-Ferreira
in Obra Poética II