Tuesday, October 27, 2009

Joana Amendoeira: o fado em Nova Deli


Hoje às 18h30 no Kamani Auditorium, em Nova Deli, Joana Amendoeira canta o fado...

Há nestas paragens uma excelente fadista goesa, Sonia Shirsat. E já tivémos por cá Katia Guerreiro e Maria Ana Bobone...

Joana Amendoeira dará outro concerto na sexta feira, em Calcutá.

Sou pessoalmente um incondicional do fado.

E da voz de Joana Amendoeira.

Monday, October 26, 2009

Damas de Ajanta (500 d.C)


Pinturas murais das grutas de Ajanta : 500 d.C

Viva o frio!

Depois do Diwali, resolvido radicalmente o problema do malvado Ravana, chega-nos aqui a Deli a bênção mais aguardada depois da monção (muito fraca este ano, aqui no Norte): o frio! O friozinho bom!

Saem as malhas e as lãs do armário. No nosso passeio matinal, vemos os guardas e os taxistas enrolados em mantas felpudas. Bom, por enquanto o frio é só à noite e de manhã cedo (como em Lisboa na Primavera...), mas sabe tão bem!

Esperemos agora que Rama, depois de ter recuperado Sita, a trate bem e domine a sua injusta suspeita de que algo se poderá ter passado entre ela e o demónio Ravana, lá no Sri Lanka... Mas isso é uma magna questão da teologia hindu e da exegese do Ramayana, em que eu não posso nem quero ingerir-me!

Sunday, October 18, 2009

O passado é um país estrangeiro

Um trabalho que me comprometi a escrever leva-me a reler textos, reflexões e tomadas de posição durante 1974/1975.

Claro que não renego nada do que fui e pensei (evoluí, o mundo mudou, só os burros não mudam, etc.) e que continuarei sempre, sempre do lado de Abril.  Mas todo aquele mundo morreu: aquilo que eu pensava e escrevia na altura foi pensado e escrito por alguém que desapareceu também, ainda que fosse eu.

"O mundo em que vivi" de Stefan Zweig dá-nos o mesmo sentimento de estranheza:  só que no meu caso nem é nostalgia - só da juventude... -  é tão só estranheza.



 

Saturday, October 17, 2009

Monday, October 12, 2009

Não posso competir...

"Le comte Ostrorog, descendant des conquérants moghols et fils secret de Pierre Loti selon les ragots du Quai, était (il n'y a pas foule) digne de ce que le mot ambassadeur dans l'Inde suggère aux poètes"

(André Malraux, "Antimémoires")

Saturday, October 10, 2009

Prémio Nobel da Paz

"En la promesa hay algo de inmortal"

(Jorge Luis Borges)

"Les hommes sont partout et toujours les mêmes"

Malraux conversa com o embaixador francês na Índia

"Claudel" reprit-il "qui détestait la pensée hindoue, m'a dit quand j'ai été nommé : "Aucun intérêt, les hommes sont partout et toujours les mêmes!"
(...)
- Tels sont les petits plaisirs du corps diplomatique, mon cher ministre!  Je crois pourtant que son affirmation venait, au moins en partie, de ce que j'appellerai le point de vue du Quai. Nos fonctions nous promènent d'un bout du monde à l'autre. Et nous pouvons ressentir une différence profonde entre un lavis du zen et un Cézanne,  mais non entre nos collègues. Le corps diplomatique est une internationale; vous connaissez ses cocktails. À quelques conventions près, la diplomatie est la même partout. (...) Or, notre expérience est sans doute applicable à toutes les formes d'action.  Les Anglais avaient organisé sans peine l'armée des Indes.  Quand les commerçants européens étaient parqués dans les comptoirs de Chine, ils parlaient des Chinois comme de personnages mystérieux, alors que les banques européennes de Hong Kong travaillent aussi normalement que celles de Casablanca"

André Malraux, "Antimémoires"   

Tuesday, October 6, 2009

Saturday, October 3, 2009

Something else to do

"If you feel that you have a use, if you think your writing furthers life or truth in some way, then you keep writing. But if that feeling stops, you have to find something else to do. Or die, I guess."

(Nicholson Barker, "The Anthologist") 

"E a dor dói como um soco" (Alexandre O'Neill)


Peço que não me entendam mal, estou no meio da Índia
e o ruído da pátria chega a mim como uma nostalgia ambígua,
um silêncio de Cage dentro de um crepúsculo dourado.

Mas, por favor, não me entendam mal,
não me sinto nem alheio nem  distante
(até porque de vós dependo)
e nada do que se diz na minha pátria me pode ser estranho.

É só porque dói...
 

Wednesday, September 30, 2009

Monday, September 28, 2009

"Metamorphosen" Richard Strauss

Os mitos passam, mas a música
obstina-se a tecer a morte que os gerou,
para deixar, como pedra entre ruínas
ou sinal aos céus,
este grito a coisa nenhuma,
de que fomos feitos.

Saturday, September 26, 2009

No dia de reflexão

Chamam-lhe o dia de reflexão,
como se todos os outros dias fôssemos movidos e não motores,
consequências e não causas,
personagens dos corredores da "Metropolis" de Fritz Lang,
a alienação quando na cidade passava
e era inverno.

Nós reflectimos cada dia,
mesmo que não reparem,
ou que só reparem se fizermos muito barulho,
o que prejudica sem dúvida a reflexão.

A reflexão é a música que cresce na nossa decisão,
mas que se perde na cacofonia dos possíveis.
A reflexão é o braço estendido a apontar para ti
e a resposta que para sempre esperarás de mim.

Não precisamos hoje de reflectir: precisamos
de erguer a voz, mesmo que incerta,
para sermos ouvidos.
Precisamos
de uma pequena luz bruxuleante,
precisamos de uma música que virá. 

  

Wednesday, September 23, 2009

Despertar

Seja o que tiver que ser o que vem pela manhã.

Cada dia o mundo se desfaz, para que outro mundo nasça.

Monday, September 21, 2009

Caminhada matinal

Esqueço tudo o que muda
e saio para a rua de manhã.

Dão-me bom dia os guardas das casas vizinhas,
que lêem os jornais em hindi;
os motoristas dos táxis da noite,
que tomam banho na rua,
desenrolando (os sikhs) seus  cabelos
até ao chão;
os empregados que passeiam os cães, atados em molhada;
e os outros brisk walkers da manhã
(a senhora com o guarda atrás a levar-lhe a mala),
e os macacos, que afastamos batendo com o pau no chão,
e as vacas, que sentem por nós a indiferença dos deuses,
e (quem sabe?) até os próprios deuses
(bonequinhos de Ganesha e Laxmi, junto à raiz da árvore da esquina...).

O mundo está todo aqui?  O que é que muda?

Tudo o que é alheio se torna simples e familiar.

Sunday, September 20, 2009

Aos novos poetas portugueses...

"The public love artists who fall by the wayside in this life. A true artist must be down and out or die of hunger. In youth he should at least die of consumption" (Sibelius, aos 91 anos)

Falando de poesia...

Do livro que estou a ler agora, "The Rest is Noise":

Rachmaninov wrote in 1939 (...) : "Unlike Madame Butterfly with her quick religious conversions" - this is presumably Stravinsky - "I cannot cast out my musical gods in a moment and bend the knees to new ones..."

Friday, September 18, 2009

A viagem como evasão

Ernst Bloch ("O Princípio Esperança") observava bem que, nos países exóticos, só os turistas são exóticos.

Thursday, September 17, 2009

Impromptu

Escrever é querer outro lugar:

não sair da pátria, mas de si escapar!


Wednesday, September 16, 2009

Poetas

Descobrir um novo poeta é um prazer cada vez mais raro. Infelizmente, Nuno Rocha Morais já morreu.

Leiam dele "Últimos Poemas" nas edições Quasi.

E não percam "Lugar de Estudo" de Fernando Echevarria. Mais um grande livro.

Tuesday, September 15, 2009

Férias

Os socialistas de Odeceixe estavam contentes com o seu candidato autárquico, Velhinho Amarelinho; já em S.Francisco as hipóteses do mayor Newman se candidatar a Governador pelo Partido Democrático pareciam tremidas, sobretudo depois do escândalo das rachas na Bay Bridge. Os democratas de S.Francisco manifestavam-se em força pelo plano Obama de Saúde, enquanto em Odeceixe os simpatizantes de Velhinho Amarelinho mostravam algum conforto com a retirada do ex Presidente Manuel Marreiros para a Assembleia Municipal.

O arroz de marisco da "Santola" (Maria Vinagre) e os enchidos da "Charrette" (Monchique) não se podem perder; bem como os "dim sun"e a vista esplendorosa do "Empress of China", na Chinatown de S.Francisco, e os caranguejos recheados do "Franciscan", no "Fishermen's Wharf". Acrescentemos o sempre agradável Zé Vicente, na Várzea de Odeceixe, e o peruano "Limón", no bairro chicano de Frisco.

A melhor descoberta: "A Invenção de Lisboa" de José Sarmento de Matos; a relativa desilusão: "Nothing to be Frightened of" de Julian Barnes; a refrescante surpresa: "A Viagem do Elefante" de José Saramago. Poesia, estou em desintoxicação.

Ainda em leitura (entusiasmada) neste momento: "The Rest is Noise" de Alex Ross (a música no século XX)

E foram as férias!

Monday, September 14, 2009

Índia

Voltei a ti:
sou-te profundamente indiferente, eu sei,
mil milhões é muita gente e esta terra está cheia.
Só alguns goeses pensam em nós, mas complicam tanto,
que só lhes podemos sussurrar: il n'y a pas d' amour heureux.

Voltei a ti. Alguma coisa em mim é-te fiel,
sem nenhuma razão para isso.
Tu és indiferente a nós como a lua e as estrelas,
mas moves-te freneticamente pela cobiça e pelo reconhecimento,
como todos.
Não és diferente de nós: apenas te alheias,
mesmo quando nos interpelas e nos falas sem parar.

Quando pensas, nunca estamos seguros de te entender...

San Francisco

O outro lado do mundo é onde nós recomeçamos:
a sala de poesia da City Lights Bookstore, o sol sem cedências,
o nevoeiro sem falhas - que não ser daqui
é a promessa de podermos ser de toda a parte,
de podermos ser.

Só em duas cidades me senti tão livre: aqui e em Berlim.
As cidades sempre destruídas e logo reconstruídas
oferecem-nos a morte e a felicidade ao mesmo tempo:
só a isso chamamos a grande promessa.

O novo poeta sem qualidades

O homem de Profrock interrompeu o poema do outro:
a mim, foi este odioso computador Toshiba,
kamikaze armado contra a poesia,
que veio apagar todo o meu poema,
exercendo a impiedosa crítica cibernética dos computadores,
tal como Marx falava da "crítica impiedosa dos roedores",
quando os ratos lhe comeram o manuscrito.

Vêem? Já sou um poeta sem qualidades!
Devolvam-me o meu Mac e a metafísica...