Sunday, October 18, 2009

O passado é um país estrangeiro

Um trabalho que me comprometi a escrever leva-me a reler textos, reflexões e tomadas de posição durante 1974/1975.

Claro que não renego nada do que fui e pensei (evoluí, o mundo mudou, só os burros não mudam, etc.) e que continuarei sempre, sempre do lado de Abril.  Mas todo aquele mundo morreu: aquilo que eu pensava e escrevia na altura foi pensado e escrito por alguém que desapareceu também, ainda que fosse eu.

"O mundo em que vivi" de Stefan Zweig dá-nos o mesmo sentimento de estranheza:  só que no meu caso nem é nostalgia - só da juventude... -  é tão só estranheza.



 

Saturday, October 17, 2009

Monday, October 12, 2009

Não posso competir...

"Le comte Ostrorog, descendant des conquérants moghols et fils secret de Pierre Loti selon les ragots du Quai, était (il n'y a pas foule) digne de ce que le mot ambassadeur dans l'Inde suggère aux poètes"

(André Malraux, "Antimémoires")

Saturday, October 10, 2009

Prémio Nobel da Paz

"En la promesa hay algo de inmortal"

(Jorge Luis Borges)

"Les hommes sont partout et toujours les mêmes"

Malraux conversa com o embaixador francês na Índia

"Claudel" reprit-il "qui détestait la pensée hindoue, m'a dit quand j'ai été nommé : "Aucun intérêt, les hommes sont partout et toujours les mêmes!"
(...)
- Tels sont les petits plaisirs du corps diplomatique, mon cher ministre!  Je crois pourtant que son affirmation venait, au moins en partie, de ce que j'appellerai le point de vue du Quai. Nos fonctions nous promènent d'un bout du monde à l'autre. Et nous pouvons ressentir une différence profonde entre un lavis du zen et un Cézanne,  mais non entre nos collègues. Le corps diplomatique est une internationale; vous connaissez ses cocktails. À quelques conventions près, la diplomatie est la même partout. (...) Or, notre expérience est sans doute applicable à toutes les formes d'action.  Les Anglais avaient organisé sans peine l'armée des Indes.  Quand les commerçants européens étaient parqués dans les comptoirs de Chine, ils parlaient des Chinois comme de personnages mystérieux, alors que les banques européennes de Hong Kong travaillent aussi normalement que celles de Casablanca"

André Malraux, "Antimémoires"   

Tuesday, October 6, 2009

Saturday, October 3, 2009

Something else to do

"If you feel that you have a use, if you think your writing furthers life or truth in some way, then you keep writing. But if that feeling stops, you have to find something else to do. Or die, I guess."

(Nicholson Barker, "The Anthologist") 

"E a dor dói como um soco" (Alexandre O'Neill)


Peço que não me entendam mal, estou no meio da Índia
e o ruído da pátria chega a mim como uma nostalgia ambígua,
um silêncio de Cage dentro de um crepúsculo dourado.

Mas, por favor, não me entendam mal,
não me sinto nem alheio nem  distante
(até porque de vós dependo)
e nada do que se diz na minha pátria me pode ser estranho.

É só porque dói...
 

Wednesday, September 30, 2009

Monday, September 28, 2009

"Metamorphosen" Richard Strauss

Os mitos passam, mas a música
obstina-se a tecer a morte que os gerou,
para deixar, como pedra entre ruínas
ou sinal aos céus,
este grito a coisa nenhuma,
de que fomos feitos.

Saturday, September 26, 2009

No dia de reflexão

Chamam-lhe o dia de reflexão,
como se todos os outros dias fôssemos movidos e não motores,
consequências e não causas,
personagens dos corredores da "Metropolis" de Fritz Lang,
a alienação quando na cidade passava
e era inverno.

Nós reflectimos cada dia,
mesmo que não reparem,
ou que só reparem se fizermos muito barulho,
o que prejudica sem dúvida a reflexão.

A reflexão é a música que cresce na nossa decisão,
mas que se perde na cacofonia dos possíveis.
A reflexão é o braço estendido a apontar para ti
e a resposta que para sempre esperarás de mim.

Não precisamos hoje de reflectir: precisamos
de erguer a voz, mesmo que incerta,
para sermos ouvidos.
Precisamos
de uma pequena luz bruxuleante,
precisamos de uma música que virá. 

  

Wednesday, September 23, 2009

Despertar

Seja o que tiver que ser o que vem pela manhã.

Cada dia o mundo se desfaz, para que outro mundo nasça.

Monday, September 21, 2009

Caminhada matinal

Esqueço tudo o que muda
e saio para a rua de manhã.

Dão-me bom dia os guardas das casas vizinhas,
que lêem os jornais em hindi;
os motoristas dos táxis da noite,
que tomam banho na rua,
desenrolando (os sikhs) seus  cabelos
até ao chão;
os empregados que passeiam os cães, atados em molhada;
e os outros brisk walkers da manhã
(a senhora com o guarda atrás a levar-lhe a mala),
e os macacos, que afastamos batendo com o pau no chão,
e as vacas, que sentem por nós a indiferença dos deuses,
e (quem sabe?) até os próprios deuses
(bonequinhos de Ganesha e Laxmi, junto à raiz da árvore da esquina...).

O mundo está todo aqui?  O que é que muda?

Tudo o que é alheio se torna simples e familiar.

Sunday, September 20, 2009

Aos novos poetas portugueses...

"The public love artists who fall by the wayside in this life. A true artist must be down and out or die of hunger. In youth he should at least die of consumption" (Sibelius, aos 91 anos)

Falando de poesia...

Do livro que estou a ler agora, "The Rest is Noise":

Rachmaninov wrote in 1939 (...) : "Unlike Madame Butterfly with her quick religious conversions" - this is presumably Stravinsky - "I cannot cast out my musical gods in a moment and bend the knees to new ones..."

Friday, September 18, 2009

A viagem como evasão

Ernst Bloch ("O Princípio Esperança") observava bem que, nos países exóticos, só os turistas são exóticos.

Thursday, September 17, 2009

Impromptu

Escrever é querer outro lugar:

não sair da pátria, mas de si escapar!


Wednesday, September 16, 2009

Poetas

Descobrir um novo poeta é um prazer cada vez mais raro. Infelizmente, Nuno Rocha Morais já morreu.

Leiam dele "Últimos Poemas" nas edições Quasi.

E não percam "Lugar de Estudo" de Fernando Echevarria. Mais um grande livro.

Tuesday, September 15, 2009

Férias

Os socialistas de Odeceixe estavam contentes com o seu candidato autárquico, Velhinho Amarelinho; já em S.Francisco as hipóteses do mayor Newman se candidatar a Governador pelo Partido Democrático pareciam tremidas, sobretudo depois do escândalo das rachas na Bay Bridge. Os democratas de S.Francisco manifestavam-se em força pelo plano Obama de Saúde, enquanto em Odeceixe os simpatizantes de Velhinho Amarelinho mostravam algum conforto com a retirada do ex Presidente Manuel Marreiros para a Assembleia Municipal.

O arroz de marisco da "Santola" (Maria Vinagre) e os enchidos da "Charrette" (Monchique) não se podem perder; bem como os "dim sun"e a vista esplendorosa do "Empress of China", na Chinatown de S.Francisco, e os caranguejos recheados do "Franciscan", no "Fishermen's Wharf". Acrescentemos o sempre agradável Zé Vicente, na Várzea de Odeceixe, e o peruano "Limón", no bairro chicano de Frisco.

A melhor descoberta: "A Invenção de Lisboa" de José Sarmento de Matos; a relativa desilusão: "Nothing to be Frightened of" de Julian Barnes; a refrescante surpresa: "A Viagem do Elefante" de José Saramago. Poesia, estou em desintoxicação.

Ainda em leitura (entusiasmada) neste momento: "The Rest is Noise" de Alex Ross (a música no século XX)

E foram as férias!

Monday, September 14, 2009

Índia

Voltei a ti:
sou-te profundamente indiferente, eu sei,
mil milhões é muita gente e esta terra está cheia.
Só alguns goeses pensam em nós, mas complicam tanto,
que só lhes podemos sussurrar: il n'y a pas d' amour heureux.

Voltei a ti. Alguma coisa em mim é-te fiel,
sem nenhuma razão para isso.
Tu és indiferente a nós como a lua e as estrelas,
mas moves-te freneticamente pela cobiça e pelo reconhecimento,
como todos.
Não és diferente de nós: apenas te alheias,
mesmo quando nos interpelas e nos falas sem parar.

Quando pensas, nunca estamos seguros de te entender...

San Francisco

O outro lado do mundo é onde nós recomeçamos:
a sala de poesia da City Lights Bookstore, o sol sem cedências,
o nevoeiro sem falhas - que não ser daqui
é a promessa de podermos ser de toda a parte,
de podermos ser.

Só em duas cidades me senti tão livre: aqui e em Berlim.
As cidades sempre destruídas e logo reconstruídas
oferecem-nos a morte e a felicidade ao mesmo tempo:
só a isso chamamos a grande promessa.

O novo poeta sem qualidades

O homem de Profrock interrompeu o poema do outro:
a mim, foi este odioso computador Toshiba,
kamikaze armado contra a poesia,
que veio apagar todo o meu poema,
exercendo a impiedosa crítica cibernética dos computadores,
tal como Marx falava da "crítica impiedosa dos roedores",
quando os ratos lhe comeram o manuscrito.

Vêem? Já sou um poeta sem qualidades!
Devolvam-me o meu Mac e a metafísica...

Monday, August 10, 2009

Em Odeceixe


Aqui as coisas começam, de cada vez:
os anos se perfilam à luz do mesmo rio,
e nem nos sentimos regressar.

Somos daqui,
de nenhum lugar.

Wednesday, July 29, 2009

Os Argonautas

Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:

só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.

Friday, July 24, 2009

Coisas da Índia

Interessa-me cada vez mais pensar no que é a Índia para os indianos, transpondo os diferentes mitos e narrativas que os "ocidentais" têm construído sobre a Índia (e que, obviamente, acabam por ser apropriados pelos próprios indianos, donde acaba por ser difícil fazer a destrinça).

É curioso, por exemplo, ver como a filosofia indiana era respeitada e estudada no século XIX (Schopenhauer, Nietzsche, Emerson, Haeckel, com a notória excepção de Hegel, que todavia só a mandou para o caixote do lixo depois de a estudar a sério) e no século XX passa para o domínio dos esotéricos (Steiner, Kassner, muito por influência da Sociedade de Teosofia da Sra Blavatsky) e finalmente para o dos charlatães (Guru Mahareshi, Shri Ravi Shankar, etc.).

Os nacionalistas (de direita Hindutva ou de esquerda "subaltern studies") não ajudam, porque desclassificam todo o trabalho de diálogo intelectual Ocidente - Oriente feito por ambos os lados (de William Jones a Radakrishnan, passando por Tagore), amaldiçoado como "orientalista" pelas vestais de Edward Said... É que para o Outro ser Outro não pode haver valores partilhados...

Outro dia, numa conferência do embaixador de França, um velho diplomata indiano reformado levantou-se para dizer que só os franceses tinham estudado a sério a Índia, que os ingleses apenas a tinham explorado: a nossa profissão de engraxadores ambulantes leva-nos a fazer cada uma! Se alguém estudou a sério a Índia foram os ingleses e os alemães!

Claro que também houve ingleses que desprezaram profundamente a Índia, a começar em James Mill e a acabar em Winston Churchill! Mas que a estudaram, traduziram e (na maioria dos estudiosos) admiraram, é inegável.

A propósito, não percam este artigo do Granta:

1 Capital Gains Granta 107 Magazine Granta Magazine

Thursday, July 23, 2009

A terceira monção

Final do poema "Passage to India" de Walt Whitman:

Passage to more than India! 
O secret of the earth and sky! 235
Of you, O waters of the sea! O winding creeks and rivers! 
Of you, O woods and fields! Of you, strong mountains of my land! 
Of you, O prairies! Of you, gray rocks! 
O morning red! O clouds! O rain and snows! 
O day and night, passage to you! 240
  
O sun and moon, and all you stars! Sirius and Jupiter! 
Passage to you! 
  
Passage—immediate passage! the blood burns in my veins! 
Away, O soul! hoist instantly the anchor! 
Cut the hawsers—haul out—shake out every sail! 245
Have we not stood here like trees in the ground long enough? 
Have we not grovell’d here long enough, eating and drinking like mere brutes? 
Have we not darken’d and dazed ourselves with books long enough? 
  
Sail forth! steer for the deep waters only! 
Reckless, O soul, exploring, I with thee, and thou with me; 250
For we are bound where mariner has not yet dared to go, 
And we will risk the ship, ourselves and all. 
  
O my brave soul! 
O farther, farther sail! 
O daring joy, but safe! Are they not all the seas of God? 255
O farther, farther, farther sail!

Sunday, July 19, 2009

Os eunucos na Índia e o combate à evasão fiscal

Do "Mail Today" de hoje:

"The Nitish Kumar government (Bihar) has decided to launch a scheme to rehabilitate eunuchs by providing them vocational training so that they can earn out a living (...)

In 2006 the Patna (capital do Bihar) Municipal Corporation had hired eunuchs to collect property tax in the state capital(...)

Dancing to drum beats the eunuchs would land up on the doorsteps of habitual tax evaders, telling them to deposit taxes on time to save their property from being auctioned(...)

O embaixador da Índia no Brasil fala da novela "Caminhos da Índia"

As the soap Caminhos comes into Brazilian homes night after night, curiosity and affection for India seems to be growing. We know this by the number and kind of queries that we are getting in our embassy and the questions that we answer these days: what the bindi signifies; whether Dalits are still untouched in India; if grown- up Indian men and women do in fact dance to tunes all the time at home, and many other similar bits of oddities that are seen in the novella. We do the best we can with humour and imagination. Not every one wants a long lecture or a serious discourse.

We have also seen the market grow for sarees, kurtas, incense and other exotica. We have demands for authentic Indian restaurants in Brazilian cities like Rio and Brasilia. The availability of Indian cuisine is now limited only to the meagacity of Sao Paulo.

A frequent question that I am often asked is: is the novella authentic? Does it show the real India? I honestly don’t know how to answer this. First, a novella is a novella, after all, and not a documentary. By its very nature, it exaggerates, glamourises and selects what is exotic and unusual rather than the ordinary and the commonplace.

Brazilian viewers understand this. Second, what is ‘the real’ in a country with such diversity, complexity and contradictions? I end up telling my Brazilian friends that everything the novella shows is true in some part, somewhere, but its opposite is equally true.

BS Prakash is the Indian Ambassador to Brazil

Fonte . "Hindustan Times" de 19/7/2009

Saturday, July 18, 2009

Leituras indianas: a crítica do secularismo

Ashis Nandy : a dificuldade destes teóricos dos estudos subalternos acaba por ser demarcarem-se dos fundamentalismos religiosos. A condenação do secularismo e a valorização da religiosidade gandhiana, como alternativa crítica à modernização imposta pelo Ocidente, tem que começar por se demarcar dos Hindutvas, Sangh Parivar e de todos esses hinduísmos reinventados (de inspiração ocidental, moderna e fascista, é certo) que desembocaram no RSS...

Para alguns (Megnad Desai, por exemplo) toda a distorção do hinduísmo tolerante e aberto (seria?) começou com o Brahmo Saj, com a tentativa liberal e progressista, mas sincrética e portanto descaracterizadora da essencial diferença hinduísta relativamente às religiões do Livro, de fusão intelectual Oriente - Ocidente, iniciada em Bengala a partir do Ranmohan Roy (princípio do século XIX) e que veio culminar no século passado no Tagore por um lado, no Ramakrishna e no Vivekananda por outro. O romance "Gora" de Tagore reflecte bem toda essa tensão e os debates e contradições dela nascidos, que o Mircea Eliade nunca conseguiu entender (por isso "La nuit bengali" é a história de um grande equívoco).

Como o próprio Nandy aponta, tudo isto é comparável com o debate eslavófilos - eurófilos, que dividiu (e continua a dividir) a Rússia.

Para esta posição a ocidentalização é que induziu o hinduísmo radical e extremista. Não foi por acaso que o RSS matou o Gandhi (o democrata religioso) e não o Nehru (o socialista ateu).

O que estas teses omitem (tal como os Hindutvas, com quem não os devemos misturar) é que a Índia só existe se for plural : um Hindustão seria forçosamente ou uma manta de retalhos ou um Paquistão multiplicado por um bilião (perspectiva que é o sonho de Al Qaedas, talibãs e Hindutvas - mas não do Ashis Nandy, suponho eu, nem de quem não goste excessivamente de bombas todos os dias ao pequeno almoço... ).

Continuo na minha e comigo os velhos marxistas como o Tariq Ali e o Perry Anderson : os pós - coloniais, com as melhores intenções do mundo, levam-nos para companhias muito esquisitas...