Tuesday, October 29, 2013

Geração

Anoitece a alguns a breve vida,
a outros se desfaz na praça pública.
A nossa geração, sim,  foi à guerra:
mas ganhá-la foi tê-la por perdida...

Fizemos na verdade o que devíamos?
Sem memória deixámos quem ficou.
Tudo que nos fizeram merecíamos?
Nem aos vindouros sorte bafejou.

Guardas vermelhos na idade ingrata
agora a dizer missa nos jornais...
A História se repete numa farsa,
já que  livros vermelhos há demais!

Eu direi sempre que valeu a pena,
mas a alma a pagar juros é pequena.



Monday, October 28, 2013

Filósofos

De Sócrates, filósofo assisado,
sabemos que a mulher o irritava.
Mas o grego, um mestre consagrado,
com calma e contenção sempre a tratava.

Platão queria reis como filósofos
e na Academia os educava:
mas o rei da Sicília considerava
não mais do que os escravos os filósofos.

Por mim, eu me reclamo de Espinoza!
Compreender sem levantar a voz,
deixar indignação num axioma

ou como Nietzsche dar em grande prosa
do homem ressentido o rosto atroz:
em tudo o que retorna a vida assoma.
 







Sunday, October 27, 2013

Da poesia como papança: resposta a António Dias e homenagem ao poeta Conde de Monsaraz


RESPOSTA A ANTONIO DIAS DA PARTE DAS VITIMAS DA FOME

Poetas comilões, António Dias,
são mato nesta mata esfomeada:
alguns papam almoços sem azias
e jantam prémios feitos à molhada.

Papança (belo nome) fez receitas
em verso bem medido e bem lançado.
Esquecemos Bulhão Pato e as perfeitas
amêijoas que devemos ao seu fado.

Poetas são pessoas de alimento,
dêem-nos de comer, façam favor!
Não cortem a raiz ao pensamento,
que a comer ganha asas o amor.

Da poesia e do comer, beber, folgar e o que mais vem por aí: a resposta de António Dias


Segunda mensagem ao Luis Castro Mendes sobre o Chez Yvonne.

Outrora, na minha imaginação,
A poesia era feita de sonho.
Poetas não comiam; suponho
Que, talvez, por distração,

Mastigassem pétalas de rosas,
Uma ou outra flor de lotus; bebiam
Neve derretida que lhes traziam
De montanhas misteriosas.

Não discutiam, discreteavam
Sobre o Amor ou sobre a Líberdade,
Quiçá glosassem a Saudade.
Mas nunca, nunca se baixavam

A arguir com donas de hospedaria.
Não é matéria para sonho e elevação.
Alcipe não trata de tripas com feijão,
A cabidela não inspira Sophia.

De outra forma, poderemos - que horror! -
Pensar Gôngora com desinteria,
Garrett lívido a torcer-se de azia,
Ver sujo o pé descalço de Lianor!

P'ra que de poesia não reste nada,
Laura há-de cheirar a refogado,
Julieta corneia o namorado,
Marília de Dirceu engorda com feijoada!


ANTÓNIO RUSSO DIAS

Da poesia e do comer e beber e folgar: resposta a um amigo

António, os poetas tambem comem,
menos talvez até que gostariam,
mas, que seja mulher ou seja homem,
da gulodice todos compartilham.

Verás além o Vasco Graça Moura
responder ao Vinicius genial:
ao grande brasileiro que a gente adora
dedicamos-lhe versos, Portugal.

No Procópio havia as tostas mistas
servidas com primor pelo Luís.
Havia da política as revistas
rigorosas do Nuno ao seu país.

Hoje passo por Lisboa e quando parto
penso nos amigos e em seu trato.


O AUTOR DEDICA AO SEU AMIGO ANTÓNIO DIAS, FREQUENTADOR DO ILUSTRE BAR PROCÓPIO, ESTES VERSOS DE RESPOSTA

Da poesia e do comer e beber: a estranheza de um amigo

Sobre Chez Yvonne e o Procópio

Pensava eu, Luís
Que não curavam os poetas
De coisas vis
Como viandas e outras tretas
Com que os comuns mortais
Enchem o terreal bandulho.
Vejo-te, afinal, preocupado
Com Yvonnes e outras que tais,
Questões prosaicas, entulho
De que o espírito não abdica
Mas que o nauseiam.
E nem o Procópio e seus comensais
Ou a conversa elegante que praticam
Diminuem o meu infantil desgosto
Por ver o gastro assim exposto.
 

ANTÓNIO RUSSO DIAS

Da poesia e do beber


SONETO AO BAR PROCOPIO E AO AMIGO QUE ME CHAMOU

Eu ouvi o apelo do Procópio,
mas levemente a chuva aqui batia
e a SIC Notícias fez-se ópio,
já eu no meu sofá adormecia,

enquanto no desvão da Mesa Dois
as ideias salvificas surgiam
e a Pátria se mirava num depois
que sabemos virá, mas não o dia!

E eu no meu sofá a ressonar!
Ó vergonha, ó infâmia de um destino!
Que é feito do meu brilho a conversar?
"Se nunca o tiveste" diz ladino

o amigo da onça que há em mim!
Pois bebam muito bem, eu fico assim.
(O Bar Procópio é um lugar de tertúlia de velhos combatentes, onde o autor, exausto de um dia de trabalho, desencorajado pela chuva e preso ao fascinante programa Expresso da Meia-Noite, renunciou a ir)

Da poesia e do comer (2)

O POETA EXPRIME O SEU RESSENTIMENTO COM O RESTAURANTE CHEZ YVONNE DE ESTRASBURGO, QUE O TRATOU COM RISPIDEZ E DESCORTESIA

Melhor se come em Lisboa, cara Yvonne,
que no teu pretensioso paladar:
chamo o mineirinho ao telefone
e no UAI já tenho onde jantar.

Queres que te diga mais? O CASTRO ELIAS
serve boa comida com maneiras
e no RUXA oito euros todos dias
dão para almoçar sem mais canseiras.

Poetas com apetite do Parnaso
levaram-me ao VALBOM e sem descaso
digo que nestes dias esqueci

o mal que me trataste e o atraso
de toda a má criação que padeci.

O INIMIGO DE YVONNE

Da poesia e do comer (1)

Tratem da fama e do comer
(Fernando Pessoa)

RESPOSTA de VASCO GRAÇA MOURA ao soneto de VINICIUS

pois eu gosto de lombo e feijoada,
favas e grão, e tudo o que indigesto
me faz sentir um cidadão honesto
na hora prandial e bem regada

do tinto das colheitas a que presto
a vénia palatal e reiterada,
sem esquecer qualquer bacalhoada,
troixas de ovos, pudins e tudo o resto

que até pode provar-nos que algum deus
afinal sempre existe e é cá dos meus
e às vezes me aproxima do vinicius.

e pode mesmo ser que não se morra
assim da grande bouffe à tripa-forra,
e se faça um soneto a esses vícios…

Thursday, October 24, 2013

Tuesday, October 22, 2013

Cher Manuel Valls



Caro Manuel Valls

Também eu senti grande tristeza com a indecente recondenação do Dreyfus. Sobretudo, talvez, porque com ela morreram os últimos restos, ainda teimosos, do meu velho amor latino pela França. Os suíços, querido Domício, não se enganam generalizando – e atribuindo o julgamento de Dreyfus “à própria essência do espírito nacional”. Quatro quintos da França desejaram a sentença. A França nunca foi, na realidade, uma exaltada de Justiça, nem mesmo uma amiga dos oprimidos. Esses sentimentos d’alto humanismo pertenceram sempre e unicamente a uma elite, que os tinha, parte por espírito jurídico, parte por um fundo inconsciente de idealismo evangélico. Não nego que, aí por 1848, essa elite conseguiu propagar o seu sentimento na larga burguesia, sensibilizada, amolecida desde 1830 pela educação romântica. Mas logo, com o Império, a França se recuperou, regressou à sua natureza natural, e recomeçou a ser, como sempre, a Nação videira, formigueira, egoísta, seca, cúpida. Devia, talvez, acrescentar cruel – porque, de fato, todas as grandes crueldades da História Moderna, desde a guerra dos Albigenses até às Matanças de Setembro, têm sido cometidas pela França. O seu pretendido Messianismo do Amor Social um mero reclame montado pela Literatura romântica – que já fazia rugir de furor o velho e vidente Carlyle. E o processo de Rennes provou que a mesma bondade, a bondade individual é nela rara, ou, tão frouxa, que, se some, apenas a França, um momento, se constitui em multidão. Em nenhuma outra Nação se encontraria uma tão larga massa de povo para unanimemente desejar a condenação dum inocente (que sabia inocente) e voltar as costas, ou mesmo ladrar injúrias, à sua longa agonia.

(Eça de Queirós, Carta a Domício da Gama, 1899)

Monday, October 21, 2013

Liberdade


Homme libre, toujours tu chériras la mer (Baudelaire)

Sunday, October 20, 2013

Marselha



    La mer, la mer toujours recommencée (Valéry)

Vinícius

Deste grande poeta, no seu centenário, um delicioso e apetitoso poema, que me foi enviado pela minha querida amiga Gilda Santos:

Nos 100 anos do nosso querido Vinicius de Moraes, 
esta sua ode aos gourmets...


Não comerei da alface a verde pétala, 
Nem da cenoura as hóstias desbotadas. 
Deixarei as pastagens às manadas 
E a quem mais aprouver fazer dieta. 

Cajus hei de chupar, mangas-espadas, 
Talvez pouco elegantes para um poeta, 
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta 
Que acredita no cromo das saladas. 

Não nasci ruminante como os bois, 
Nem como os coelhos, roedor; nasci 
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz 

E um bife, e um queijo forte, e Parati, 
E eu morrerei, feliz, de coração, 
De ter vivido sem comer em vão.

VINICIUS DE MORAES


Friday, October 18, 2013

Em Marselha, no mês passado



Elle est retrouvée!
Quoi? 
L´Éternité!
C'est la mer allée
avec le soleil

(RIMBAUD)

Um dia de trabalho

Dê-me o primeiro verso, disse no escritório,
e durante a reunião fiquei a pensar que sem o primeiro verso
não chegaria a mandar um poema para a mesa,
porque não dispunha de matéria prima para a construção do poema
e falharia assim a minha vez,
quando me dessem finalmente a palavra,
depois da Polónia e antes da Roménia.

O colega francês passou e disse-me
"Nao me digas que ainda segues
  o método Valéry! Meu caro, isso está tão ultrapassado
  como a escrita automática!"

Thursday, October 17, 2013

Isto não é um poema

O mar Mediterrâneo nunca foi o nosso mar.
Mediterrânicos de tez ou de tom,
nunca deixamos de ter na pele
este ar ácido do Atlântico,
que sempre nos leva para longe de nós próprios
e dos nossos próprios mares.

Tenho pensado nisso desde que vim de Marselha
e das suas ruas cruzadas de povos
vindos de todo este antigo lago mediterrânico,
que tornamos em cemitério quando foi mare nostrum
e teatro de batalhas em Lepanto,
antes deste hipócrita deixar morrer
ao largo de Lampedusa.

Isto não é um poema? Pois não.
Talvez seja o cachimbo de Magritte
embrulhado num jornal de hoje.

E afinal o mundo não se acabou

President Obama signed the bill passed Wednesday night by Congress to end the government shutdown and raise the debt limit.
After Congress passed the measure, the director of the Office of Budget and Management said that government employees should expect to return to work Thursday morning.

(NEW YORK TIMES de hoje)

Wednesday, October 16, 2013

Análise realista da situação

Alguém está a tratar disto


Nous sommes souvent consternés d’apprendre, à la lecture des livres d’histoire, qu’alors que des mondes s’écroulaient, « chacun vaquait tranquillement à ses occupations ». Nous sommes à l’heure où j’écris à moins de 48 heures d’un éventuel défaut des États-Unis sur leur dette et si la nouvelle fait la une de la plupart des journaux, elle ne fait qu’exceptionnellement les gros titres.
On me dit parfois : « Vous annonciez la crise des subprimes et personne n’y prêtait attention, comment cela est-il possible ? » La réponse est là aujourd’hui : le sentiment toujours communément partagé qu’« Il y a sûrement quelqu’un, quelque part, qui fera en sorte que cela n’arrive pas ». C’est cela qu’on découvre par exemple lorsque sont interrogés a posteriori les acteurs de la tragédie Dexia : la conviction de chacun de ceux-ci qu’il y avait sûrement quelque part, quelqu’un d’autre que lui-même, qui veillait au grain.
(...)

Or, je l’ai dit, les instruments de dette américains jouent à l’échelle de la planète un rôle de pseudo-monnaie essentiel – qu’il continuèrent d’ailleurs de jouer, à l’étonnement de certains, aux pires moments de la crise qui avait débuté en 2007. S’ils devaient cesser de jouer ce rôle, ce ne serait plus comme en septembre 2008 une partie majeure du système financier qui serait grippée, ce serait la machine financière toute entière, avec des conséquences impossibles à évaluer.

Nous en sommes là ce matin. Il y a sûrement quelqu’un, quelque part, qui sait comment stopper le processus de déliquescence entamé. Malheureusement pour nous, il ne s’agit ni de M. Obama, ni des membres du Congrès ou du Sénat américains.
Quant aux autres – à l’exception des Chinois dont la préparation aux événements qui menacent souligne selon certains, la malveillance – ils continuent tranquillement de vaquer à leurs occupations.
(Paul Jorion, no seu blog, hoje)

Tuesday, October 15, 2013

Sunday, October 13, 2013

O plano

O rumo



(Breugel, Os Mendigos)

Thursday, October 10, 2013

Glosa à chegada do Inverno

Glosa À Chegada do Inverno

Ao frio suave, obscuro e sossegado,
e com que a noite, agora, se anuncia
depois de posto, ao longe, um sol dourado
que a uma rosada fímbria arrasta e esfia...

Da solidão dos homens apartado,
e entregue a tal silêncio, que devia
mais entender as sombras a meu lado
que a terra nua onde se atrasa o dia...

Recordo o amor distante que em mim vive,
sem tempo ou espaço, e apenas amarrado
à liberdade imensa que não tive,

e que não há. Como o recordo agora
que a luz do dia já se não demora,
se apenas de si próprio é recordado?

JORGE DE SENA

Wednesday, October 9, 2013

País

"País onde qualquer palerma diz
  a tirar do busílis o nariz:
  Não, não é para mim este país."

  (Alexandre O'Neill)

Sunday, October 6, 2013

Uma sugestão de Antonio Tabucchi

Judeus portugueses (Espinoza, Pessoa),
realinhando o mundo, fazendo-o ver a nós todos,
pela primeira vez, num imenso e histérico sonho acordado,
em toda a sua extensão sem profundidade, intenso
em cada poro, em cada átomo, em cada
conexão. Judeus portugueses, Espinoza e Pessoa.
Como nao pensamos nisto antes?

(lendo Antonio Tabucchi, La Nostalgie, l'automobile et l'infini, sobre Fernando Pessoa)


Poesia, apenas

À POESIA

Às vezes seguras-me no braço
e dizes-me as primeiras palavras do poema,
como se fosses a minha própria voz.
Outras vezes guardas a distância, todas as distâncias,
e só um sorriso me chama para ti.

Como quem nos é tão próximo
que nunca o entendemos.
Como a quem amamos.
A poesia.
  

Saturday, October 5, 2013

Um quadro


Parmigianino, Auto-retrato num espelho convexo


 Pour explorer les subtilités de l’art, il entreprit un jour de faire son autoportrait, en se regardant dans un de ces miroirs de coiffeur, de ceux en boule convexe. Ce faisant, voyant les effets bizarres que provoque la convexité du miroir… il lui prit l’envie de contrefaire toute chose selon son caprice. Donc, après avoir fait faire au tour une boule de bois, et l’avoir divisée en demi-boule de taille semblable à celle du miroir, il entreprit avec grand art d’y reproduire tout ce qu’il voyait dans le miroir et en particulier lui-même… Et puisque tous les objets qui s’approchent du miroir grossissent et que ceux qui s’en éloignent rapetissent, il y fit une main qui dessinait un peu grande, comme la montrait le miroir, et si belle qu’elle paraissait très vraie 

— Giorgio VasariVita di Francesco Mazzuoli pittore parmigiano

The secret is too plain. The pity of it smarts,
Makes hot tears spurt: that the soul is not a soul,
Has no secret, is small, and it fits
Its hollow perfectly: its room, our moment of attention.
That is the tune but there are no words.
The words are only speculation
(From the Latin speculum, mirror):
They seek and cannot find the meaning of the music.

John Ashbery, Selfportrait in a convex mirror



Friday, October 4, 2013

Partilha

A palavra é metade de quem fala, metade de quem ouve (Montaigne)

Metade do que escrevo é desse leitor oculto,
esquivo e trocista, que olha para si mesmo no verso
como um espelho convexo
e me interpela sem voz,
num riso mudo.